Cartas de Enxu 32


2 Fevereiro (24)

Enxu Queimado/RN, 15 de setembro de 2018

Caro amigo, Nadier, como vão as coisas nas águas dessa Bahia velha de guerras? Tenho saudades das “grandes navegações” que empreendi na Baía de Todos os Santos, sob o olhar observador do Senhor que faz morada no alto da Colina Sagrada. Eita tempos bons e prazerosos, que um dia qualquer reviverei. Lembro com carinho cada detalhe, cada ancoragem cercada de amigos, cada bordo, cada abraço, dos bate papos e dos brindes levantados em nome da boa amizade. O mar é uma festa e o da Bahia é um eterno carnaval.

Amigo, por aqui a vida é boa, mas confesso que nem chega perto dos costados de um veleiro. É um disse me disse, um quiproquó desenfreado e ainda tem um bocado de gente para colocar palha na fogueira. Se a gente não abrir o olho, perde o bordo e aí você já sabe o nó que dá para retomar o rumo. Sabe do que tenho mais saudade? Da falta de uma âncora para ser puxada quando as coisas ao nosso redor não estão confortáveis. Ei, Pajé, é bom demais levantar âncora para ir um pouquinho mais para frente, ou para trás, num é não? Mas tudo bem, a vida tem dessas coisas e assim tem que ser levada.

Doutor, sabe aquelas hérnias de disco que me tiraram o sossego as vésperas de uma das regatas Aratu/Maragogipe? Pois bem, vez em quando elas mostram serviço, porém, basta pensar naqueles remédios que você pediu para Lucia buscar em seu carro, que as bichinhas declinam. Pense num remédio bom da peste! Só não gostei de ter ficado naquela festança sem poder tomar umazinha sequer. Naquele dia voltei para o barco antes de Armandinho empunhar a guitarra baiana e botar fogo na fascinante baía de Aratu, pois se ficasse ali, com certeza sua recomendação para não beber seria jogada para o alto.

Amigo, por falar em remédio, você já ouviu falar em banha da cascavel? Rapaz, hoje embaixo da árvore que fica em frente à casa de Pedrinho, chegou um amigo com uma ferida feia na perna, e depois que cada um dos presentes indicou um remédio do mato, cada um mais estranho do que outro, Deiminho disparou: Para curar essa ferida não tem melhor do que a “banha da cascavel”! Doutor, o “remédio” parece que funciona mesmo, porque todos que ali estavam confirmaram e ainda contaram vários casos de gente que ficou curado. O que mais me chamou atenção, foi quando falaram que um litro custa em torno de R$ 200,00 e que tem uns paulistas que compram de ruma. Tais vendo? Anote aí nos seus arquivos de receituário, pois vai que resolve para alguma bronca incurável!

Doutor, o povo do interior desse Brasil arretado de bom tem sabença, viu! O que existe de garrafada obrando milagres por aí, é um negócio danado. Tem um senhor que vem por aqui a cada mês, vendendo umas garrafinhas de óleo de copaíba, que é milagre puro. O bicho serve para tudo e mais um bocado. Diz ele que serve até para curar dor de amor perdido! Se resolve mesmo eu não sei, mas tem um bocado de gente que compra e usa na testa, nos olhos, no coração e onde a dor se apresentar. Tem uns que usam até como forma de prevenção. Fazer o que, num é!

Dia desses vi alguém receitando fígado de urubu para curar quem envereda no mundo da cachaça. Me arrepio só em pensar em comer uma desgraceira dessa, mas com dizem: para quem quer ficar curado, tudo vale! Mas digo que ainda não vi nenhum papudinho ficar curado. Tem nego que come a iguaria como tira-gosto e até pede mais. Vareite!

Pois bem, doutor Nadier, eu mesmo gosto de uns chazinhos para espantar alguns males, mas vou mesmo é nos saquinhos de camomila, boldo, erva doce e mais alguns. Se resolvem eu não sei, mas me sinto bem confortável e ainda tiro onda de chique.

Meu amigo, velejador e ortopedista, Roberto Nadier Barbosa, essa cartinha é para relembrar dos meus tempos de mar e contar um pouco das coisas dessa vilazinha de pescadores em que estou vivendo. Dizem que saudade é bom, porque dá e passa, mas é bom sentir e o melhor é ter a alegria de relatar. Quando você dará o ar da graça por aqui? Venha homem de Deus! Venha e traga sua amada, para sentir a brisa desses alísios nordestinos, que por aqui é franco. Venha sentar sob a sombra de nossa cabaninha de praia, saboreando um peixinho fresco frito no mais puro dendê de sua Bahia. Mas quando vir avise, pois Lucia quando sabe que vem alguém daí, passa logo a lista de encomenda. Não se avexe que não é muita coisa e tudo é encontrado na Feira de São Joaquim ou Sete Portas, lugares que vende do bom e do melhor.

Grande abraço!

Nelson Mattos Filho

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2 Respostas para “Cartas de Enxu 32

  1. Eita, Nelson! Nem conheço pessoalmente e sinto um carinho enorme por vcs! Grande abraço meu amigo!!!

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