Cartas de Enxu 31


11 Novembro (291)

Enxu Queimado/RN, 04 de setembro de 2018

Caro amigo, Daniel, como é fácil gostar de você! Guardo com carinho aquele dia, na Federação Alagoana de Vela e Motor, em que fomos apresentados e, sem nenhum sequer, viramos fraternos e bons amigos. Não preciso falar da confiança que tenho em suas palavras e ações, pois se não fosse assim, não teria aproado o Avoante na esteira do Cahethel, para adentrar a fascinante e periculosa Barra do Rio Real, que separa Sergipe e Bahia. Aquele dia foi demais, não foi? O Cahethel sem motor, apenas na vela, e o Avoante coladinho em sua popa, encolhendo o casco para não ser colhido pelos ameaçadores bancos de areia.

Pois é meu amigo, desde aqueles dias, muitas luas e marés já se passaram, algumas tempestades cruzaram em nosso rumo e o Senhor do tempo, da razão e dos segredos fez rodar a roleta da vida várias vezes e aqui estamos nós, vivendo saudades e apostando que nas próximas rodadas, a roleta nos reserve boas novas.

Mas Daniel, não pense que essa carta é para falar de nuvens negras e tempestades, pois se assim fosse não o faria, porque são duas coisas que não combinam com você. Para mim você é um farol de alegria, conhecimento, apaziguamento, amizade, boas palavras, sorrisos e bom humor, se bem que Ângela afirma que seu humor e causticante. Será mesmo? Vou perguntar a Lucia! Ou melhor, vou perguntar não, pois já sei a resposta.

Rapaz, por falar em farol, você viu o farol que Lucia pintou e eu chantei no terreiro da nossa cabaninha de praia? O bicho ficou bonito que só vendo e por solicitação de Gil e Alípio, do veleiro Bar a Vento, fiz até a marcação do waypoint na Latitude S 05º 04.296’ / Longitude W 035º 50.956. Acho bom você anotar, para quando pegar o beco naquela Land Rover bala, em direção as terras frias do Alasca, dar uma passadinha por aqui. Garanto que Lucia prepara uma deliciosa moqueca de fruta-pão e umas saltenhas maravilhosas que vocês adoram.

E por falar em virem aqui, coisas que vocês já fizeram em 2016, vou contar um pouco das últimas desse povoado praieiro. Rapaz, os alísios do Nordeste este ano estão de vento em popa, com rajadas que chegam fácil aos 25 nós. É tanto assopro que está difícil os coqueiros manterem a carga lá no alto e o chão do meu terreiro amanhece coalhado. Ou seria encocado? Baiano aqui ia lavar a burra, pois nem precisaria esperar muito pelo coco de temperar a moqueca.

Não sei se você sabe, mas a água encanada deu as caras por aqui, mas do mesmo jeito que chegou, se foi e nem me pergunte o motivo, pois você já sabe de cor e salteado. Coisas das promessas dos homens. Promessas sem vida, sem alma e sem um futuro lógico e certo. Promessas jogadas sobre as tábuas frias de um palanque meia boca e atabalhoado de sorrisos falsos e largos. Mas tem nada não, pois dizem que a vida é assim e os homens do palanque sabem direitinho nos encantar com palavreado bonito. É tanto verbo largado ao vento, que quando damos por conta, estamos aplaudindo e gritando vivas. Eita povo cheio de lábia!

Você lembra do imenso parque eólico que estavam montando por aqui? Pois é, a parafernália está pronta e produzindo energia a todo vapor, mas a população anda num resmungo que dá o que pensar. Como em todo empreendimento de tal porte, enquanto a obra anda, os empregos caminham junto, porém, quando a obra termina, os empregos se esvaem e os que restam, restam apenas para tocar a coisa funcionando. E a população ganha o que? Ganha com os impostos gerados para o município que transforma em benefícios para a população. Com um pouquinho de boa vontade a regra é fácil de ser compreendida, porém, compreender é fácil, o difícil é fazer valer.

Daniel, nos últimos dias tenho andado pensativo com as coisas amalucadas que tem ditado as regras neste “planetinha errante”. Não sei se é coisa minha, que há muito tento levar a vida em um modo off, como disse certa vez meu amigo Afonso, ou realmente as coisas se bandearam de vez para tomar rumos ousados e extremos. Sob a sombra da varanda dessa cabaninha de praia, escuto ecoar o sussurro de decisões atabalhoadas sem o mínimo de praticidade e conforto para a humanidade. A regra das decisões atuais é confundir, chocar, tornar vazio, desmerecer. Estamos sob o signo da ditadura do “não devo nada a ninguém e muito menos a mim mesmo”. Nada é o que é! Nada é o que pode ser! Nada é nada e é tudo como cada um queira que tenha que ser e ponto final! Eh, meu amigo, acho que envelheci! Mas tem nada não, vou seguindo assim, driblando os solavancos e tentando me adaptar à nova ordem mundial.

Meu amigo, Daniel Cheloni, vou encerrando por aqui essa prosa meio sem rumo, mas antes de colocar o ponto: Como homem do mar, você bem sabe da crueza de se enfrentar as tempestades, porém, quando elas passam, deixam de presente os mais lindos e fascinantes mares a serem navegados e uma bela história para ser contada.

Anotou o waypoint do Farol? Pois bem, lhe espero aqui!

Nelson Mattos Filho

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4 Respostas para “Cartas de Enxu 31

  1. Pingback: Respondendo a Carta de Enxu 31 – Fugimos de Casa

  2. Caros Tio Daniel e Tia Ângela, pais da minha amiga Mayara, a quem tenho grande consideração e carinho.
    Estive com Mayara hoje e, sabendo da avalanche de acontecimentos dos últimos meses, senti vontade de lhes escrever.
    Conheço pouco a história de vocês, como indivíduos, casal e pais, mas o que me vem à mente ao pensar em vocês é transmitir alguma mensagem positiva.
    Não sei se vocês têm dimensão da grandeza de ensinamentos que transmitiram e transmitem às suas filhas e quem conhece por alto a sua história.
    Eu me recordo que sempre achei o fato de velejar mundo afora fascinante e meio que impossível para eu conseguir realizar durante toda a minha vida. Achava incrível escutar Mayara contando que até estudou via correspondências, imaginar as grandes ventanias e tempestades que poderiam ter pego durante a experiência e me perguntar como ter toda a estrutura de uma casa dentro de um pequeno barco, como Mayara dizia ser.
    Além desse, que deve ser um pequeno episódio na vida de aventuras e sossego de vocês, sempre ficava encantada (e quem não ficou ao saber) com o fato de você ter construído tijolo por tijolo daquele castelo que nos traz boas memórias da infância registrada em suas paredes.
    Enfim, vocês sabem muito mais que eu os ensinamentos que já transmitiram aos seus. Mayara sempre foi muito diferente de mim, me ensinou ainda que sem palavras, sobre respeito pela diversidade, desprendimento das coisas passageiras, educação e amor pelos animais.
    Não sei o porquê de ter escrito tudo isso, talvez porque eu acredito que as meninas herdaram algumas características de vocês que fazem delas grandes mulheres e para desejar de todo coração que o coração de vocês esteja em paz, grato por tudo que já conquistaram. Toda essa luta só é dada a quem tem forças para a encarar com sabedoria e serenidade, como uma grande tempestade antes do sol de um novo dia.

    Rezo por vocês e pelo sol do amanhã!
    Com carinho, Rosinha.

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  3. Pingback: Uma nova estrela brilha lá no alto | Diário do Avoante

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