Cartas de Enxu 25


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Enxu Queimado/RN, 03 de junho de 2018

Caro amigo Peralta, que danado de mundo é esse tão cheio de peraltices? Pois é, meu amigo, a coisa está esquisita, como bem disse um amigo, morador dessa Enxu mais bela. E por falar nisso: Quando você dará o ar da graça por aqui? Já se foi tempo que botasse os pés nessas areias, viu! Tá bom de se achegar novamente para ver como as coisas mudaram e nem as dunas são mais as mesma, pois deram um chega para lá nos montes de areia e plantaram uma colossal floresta de cata-ventos. Ficou uma paisagem surreal, que enche os olhos do povo que adora falar em progresso, mas para um saudosista inveterado como eu, restou apenas lembranças e interrogações sem respostas.

Velejador, você bem sabe que esse negócio de deitar o esqueleto numa rede para ver o tempo passar e coisa medonha de boa, mas deixa o caboco cheinho de confabulança, porém, assim mesmo que é bom, ainda mais quando a redinha, macia e cheirosa, está esparramada numa varandinha ventilada e perfumada pelas palhas verdes de um coqueiral. Pois é nessas horas que me avexo em curiar os noticiados deste planetinha azul e foi daí que li na coluna do jornalista Woden Madruga, assentada no jornal Tribuna do Norte, periódico que em tempos idos rabisquei páginas e páginas do Diário do Avoante, de que o mercado de livros no Brasil está caminhando avexado para o volume morto e no período entre 2006 e 2017 encolheu 21%, com os escritos de obras de ficção e não ficção liderando a queda com 42%. O povo num lê mais não, meu amigo! Só quer saber de zap zap e, como diz Woden, “faicebuqui”, e mesmo assim se for texto com, no máximo, duas linhas e com fundo colorido.

E por falar em livros, nas calmarias dessa prainha gostosa tenho lido um bocado e até dei por fim o primeiro volume da biografia do inglês Winston Churchill, caboco bem colocado nos anais da história do século XX. O inglês era bom e assinou o jamegão em uma ruma de passagens históricas do mundo em meio ao reboliço de duas grandes guerras. Agora estou pegado com os pecados e mistérios de Pilar, uma maranhense arretada e personagem principal do livro, A mãe, a filha e o espírito da santa, do autor PJ Pereira. Sei não, viu meu amigo, mas esse mundo da fé é meio desvairado!

A rede deu um balanço e dei de cara com notícias estelares insinuando que o mundo das estrelas tem, por baixo, uns 100 planetas habitáveis. – Será verdade, professor? Se assim for, o futuro será o céu e as estrelas. O problema vai ser fazer os homenzinhos verdes acostumar com nossas maruagens. Os estudiosos terráqueos apostam que em menos de 15 anos teremos a resposta se os orelhudos verdes existem de verdade ou tudo não passa da nossa fértil imaginação. – Será que tem funk? – E batidão? – Vixe, se não tiver eu pego o primeiro foguete!

A rede foi, voltou, a página virou e as notícias continuaram nas estrelas e dessa vez anunciando que a lixeira espacial está de vento em popa, com mais de 500 mil detritos vagando sem rumo sobre nosso quengo. O problema é sério, pois não tem ninguém na Terra com vontade de resolver a bronca. Os sabidos só sabem jogar as gerigonças para cima, mas nenhum tem o discernimento de saber quando, como e se um dia o rebolo volta. Ainda bem que Enxu fica num pedacinho quase invisível do mapa do mundo e acertar um alvo tão pequeno, só mesmo se for por azar.

Peralta, e a greve dos caminhoneiros? Seu menino, até aqui nessa vilazinha de pecadores a coisa deu ruim e até hoje, 03/05, dias depois que os polícias engrossaram a voz, ainda tem prateleira vazia. A padaria já anunciou que vai parar por falta de farinha, a batata inglesa virou pepita de ouro e assim vai a reza. A gasolina nem se fala, pois para falar tem que pagar. E o diesel, motivo maior da greve, ninguém sabe, ninguém viu e ninguém aposta que vá baixar de vera. As más línguas dizem que baixa e o governo vai pagar a conta inteirando o valor que faltar, e como ele é nós, quem paga é nós. Dizem que a Petrobras é nossa. – Como nossa, cara pálida? – Minha parte é só para pagar pelo prejuízo, é? – Vots, pode me tirar dessa sociedade!

João Jorge Peralta, velejador e professor arretado, desculpe encher seus miolos com esses moídos sem pé, nem cabeça, mas é, como disse no início dessa missiva, confabulações criadas enquanto balanço nessa redinha aconchegante e observo o balé do coqueiral. Venha aqui meu amigo, venha ver a vida por uma visão mais humana, mais simples e sem os cacoetes das grandes cidades. Venha espichar o corpo numa rede para esperar as respostas da alma. Venha saber com quantos paus se faz uma jangada e se inteirar dos segredos existentes na trama das costuras das redes de pesca. Venha, meu amigo, e venha logo, pois estamos na abertura da temporada da pesca da lagosta e por aqui a produção é decente. Quem sabe sobra algumas para enfeitar a churrasqueira!

Abraços.

Nelson Mattos Filho

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