Cartas de Enxu 24


4 Abril (164)

Enxu Queimado/RN, 09 de maio de 2018

Lourdinha, fico aqui na maciota dos balanços da rede e de olhos vidrados no sacolejo delirante das palhas dos coqueirais, que a vida passa e nem vejo. Mas fique com inveja não, pois esse aparente desestresse é coisa de minha cabeça de vento, pois o que mais tem sob o teto dessa minha cabaninha de praia é trabalho, porque se assim não fosse, como danado você iria comer aquelas saltenhas deliciosas, os nhoques, os quiches, as pizzas, tudo feito com o mais refinado carinho do mundo, pelas mãos abençoadas de Lucia. Ceminha diz assim: – Tudo que Lucia faz eu acho bom! Pois se é bom mesmo, eu vou dizer o que, num é não?

Amiga, quando será que você vai dar o ar da graça por aqui? Se adiante e venha logo, para ver que nesse Rio Grande do Norte ainda tem uns lugarzinhos gostosos que nem os descritos nos livros que falam do paraíso. Claro que não tem aquela maça apetitosa e nem o casalzinho que deu início ao falatório do pecado, mas tem peixe que só vendo e prosa tão boa, que faz a gente esquecer as maldades do mundo. Para animar sua vontade, e sabendo que você aprecia história dos povos, vou contar um tiquinho sobre o lugar que estou vivendo.

O município de Pedra Grande, do qual faz parte Enxu Queimado, tem a minha idade, aliás, dizem que 1962 foi o ano que nasceu as lendas. – Se foi não sei, mas já que dizem, vou por aí cheio de pretensões. Mas amiga, se inteirar sobre a história dos municípios brasileiros, e nem sei se mundo afora é igual, é uma aventura desgastante e que nos deixa com aquela velha cara de sei lá. É tanta desinformação, tanto disse me disse, tanto chafurdo, tanto foi não foi, que no fim das contas é como se quer que seja e ponto final. Bem, o conto é que o povoamento daqui teve início em 1919, pela insistência do agricultor João Victor, que cercou umas terrinhas para montar um sítio em homenagem a São João. Vendo a fazendinha criar marra e querendo marcar terreno, vieram da localidade de Canto de Baixo, que pertencia ao município de Touros, os trabalhadores rurais Manoel Felix de Morais, Januário Pedro da Silva, Manoel Gabi, Januário Lucas e Manuel Pulu, daí se foi o tempo, o povoamento cresceu e de um pulo virou distrito de São Bento do Norte, até que em 1962, o governador Aluízio Alves, meu padrinho, fez correr os papeis e numa canetada só criou o município de Pedra Grande.

Aí você haverá de perguntar: – E de onde saiu o nome? Respondo, mas antes preciso dizer que pesquei a maioria das informações, aqui contidas, no blog Pedra Grande, assinado por Jota Maria, que não conheço e nem sabia que existisse o blog. Tentei me inteirar no site da prefeitura local, mas não existe nada sobre o assunto. Pois bem, Jota diz que antigamente existia uma grande pedra nos arredores do povoado e os moradores começaram a chamá-la de Pedra Grande e assim ficou, pois a voz do povo é a voz de Deus e não se fala mais nisso. O moído é bom, né não? E tem mais e o mais nos arremete de encontro a umas Naus e Caravelas que andaram errantes pelos mares de Netuno, mas aí é conto longo e que deixarei para outra carta, para não apoquentar seu juízo.

Lourdinha, o município cinquentão, bem novinho por sinal, tem, segundo o censo de 2010, polução de 3.521 habitantes e densidade demográfica de quase 16 habitantes por quilômetros quadrados, mas o que me chama atenção é que no gráfico do Índice de Desenvolvimento Humano, ele está no nível 0,559, baixíssimo para um município que ostenta, se você não sabia, um enorme parque de energia dos ventos e este está dentro da área que engloba, talvez, o maior parque eólico brasileiro. Viva o paquistanês Mahbub ul Haq, que acreditou e fez o mundo ver que o desenvolvimento não se mede apenas pelos avanços econômicos, mas também pelas melhorias do bem-estar humano. – Sabe o que me deixa abismado, amiga? – E que em pleno século XXI os administradores públicos não aprenderam, ou não querem aprender, uma lição tão simples.

Lourdes Gonçalves Oliveira, minha amiga pesquisadora e letrada, que tal debater esses assuntos sob a sombra da minha varandinha, debruçada diante do coqueiral e comendo peixe frito acompanhado de uma deliciosa tapioca com coco? Por aqui tem muita coisa para ser oferecida nos reclames turísticos do RN, apesar de muito se encontrar invisível ou camuflado entre os desejos dos homens. Venha aqui mulher de Deus! Traga seu caderninho de anotações para recheá-lo de causos e quem sabe consiga garimpar provérbios sertanejos e praieiros para um novo livro.

Lucia manda um beijo e promete ensinar-lhe a preparar os nhoques.

Nelson Mattos Filho

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2 Respostas para “Cartas de Enxu 24

  1. É uma delícia ler tuas crônicas – neste caso uma epístola – caro amigo Nelson. Aliás, lembra de quando fomos, isto é, você e Lúcia me deram a oportunidade de passar um fim de semana em Pedra Grande, numa casa junto à praia, próximo a uma capelinha e a uma réplica do “Marco de Touros”, junto com alguns amigos que estavam no Iate Clube de Natal, em 2013, após a FENAT? Claro que lembra, eu não esqueço. E aquela visita a Enxu Queimado, e aquele inesquecível café da manhã com mandioca e lagosta (à vontade!) na casa de um pescador teu amigo? São inesquecíveis as experiências vividas aí pelos teus lados. Abraço para minha amiga Lúcia.

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    • diariodoavoante

      Caro amigo, João Peralta, foram dias maravilhosos na companhia de bons amigos e não tem como esquecer. Volte por aqui meu amigo. Será uma alegria recebê-lo em nossa cabaninha de praia. Abraços, Nelson e Lucia

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