Água rasa


elson mucuripe (3)

Zé Mauro Nogueira é um irrequieto, tão irrequieto que quando chegou a bordo do Avoante, em 2013, sorriu, olhou para cima, olhou para os lados, olhou para o mar e falou: – Vamos nessa comandante! Senti que a frase havia sido pronunciada como sentença de libertação e que todo tipo de preocupação ficaria abandonado sobre as tábuas do píer. E assim foi durante quatros dias maravilhosos e assim Zé virou um grande e bom amigo, que gosta de escrever e mantém um blog, chamado Blogueio Maldade. Eu: – Porque blogueio? Ele: – É a junção das letras, Blog eu e o maldade, porque tenho uma mente ferina. – Ah tá! Pois bem, fui até o blogueio maldade e, sem pedir licença e nem perdão, copiei uma das últimas postagens, instigante como as outras, para tentar mexer com os brios do cronista bissexto que há muito esqueceu o caminho das letras. – Vamos nessa Zé!

Muito antes de Zygmunt Bauman alardear que a vida é líquida na pós modernidade, Marshall Berman já nos lembrou que tudo que é sólido desmancha no ar.

Mas o que isso quer dizer, essa fluidez, essa evanescência? Onde as observamos? Cotidianamente, em todas as nossas relações, sejam afetivas ou profissionais.

Uma das ideias básicas por trás do conceito é a de que as coisas se personificam e as pessoas se coisificam. Ou seja, passamos a atribuir valor demasiado às coisas, criando apego ao que é mera mercadoria, e passamos a tratar as pessoas como coisas, itens descartáveis, consumíveis.

Essa característica leva a uma outra, a transitoriedade das relações. Como tudo é consumo, até mesmo os outros seres humanos, mesmo as relações tradicionalmente mais importantes passam a ser efêmeras, descartáveis, duráveis apenas na medida em que cumpram uma utilidade. Por isso líquidas, porque não duram o tempo de se tornarem sólidas, não chegam a criar vínculo efetivo, muito menos compromisso real.

No ambiente online, de amigos de Facebook ou de grupos de whatsapp, isso fica explícito. A facilidade com que se fica “amigo” de alguém é proporcional à de terminar a “amizade”. Basta um click. Sem afeições ou explicações. Números de uma organização social que mede sucesso e felicidade estatisticamente, através de contadores de redes sociais.

Essa facilidade com o que as coisas acontecem num mundo líquido, essa velocidade de uma sociedade conectada, 24×7, tornam-se ditames, gabarito para todo o resto. Quase ninguém mais está disposto a investir tempo em se dedicar a alguma coisa para colher resultados futuros, quase ninguém mais quer se esforçar verdadeiramente para conseguir algo de valor.

Infelizmente, essa expectativa de facilidade e velocidade, vai formando uma sociedade além de líquida, rasa, superficial, óbvia. Contraditoriamente, é a sociedade do conhecimento formada por indivíduos que, em sua maioria, não querem perder tempo ou se esforçar para obtê-lo.

O sucesso e a riqueza devem acontecer de forma rápida e sem maiores esforços. Na velocidade de realizar uma transação eletrônica, na facilidade de encontrar uma explicação no Google, sem o desafio real da complexidade da vida.

Alunos universitários que, em sua maioria, não querem teoria, que não têm tempo a perder estudando nem estão dispostos a se esforçar para ler os autores no original; preferem as apostilas, os resumos. Querem o conhecimento colocado em suas cabeças de forma fácil e rápida, como um download de arquivo via Dropbox. Que acabarão por se tornar profissionais que vivem à base de citações da revista VOCÊ S/A ou do que ouviram no FANTÁSTICO, que repetem o que a massa diz num control C, control V frenético, e que usam “filosofia” como expressão pejorativa.

Mercado farto para os livros de autoajuda, que prometem receitas simples para a felicidade, para o sucesso profissional e para qualquer outro desafio humano. Bom também para os livros que prometem a fórmula mágica, em sete ou dez passos, para ser um gerente eficaz ou para ser um Líder de verdade, só precisando encontrar quem mexeu no seu queijo ou um monge não executivo.

Ou, como a última moda, demanda inesgotável para coaches e, agora, masters coaches. Alguém que promete “desenvolver” o outro, transformar-lhe, de maneira personalizada, objetiva, prática, tudo como o mundo atual exige.

Quem está familiarizado com a proposta da caracterização das gerações e sua classificação, poderá enxergar o z, o y ou o x em cada ponto do discurso, seja no objeto ou no sujeito que o pronuncia. Isso porque o conhecimento, a ciência, partem da observação do mesmo fenômeno, usando abordagens diferentes: o indivíduo (psicologia), o homem em sociedade (sociologia) ou como garante sua sobrevivência (economia), por exemplo.

Ter a capacidade de sentir-se confortável no maelstrom, nesse turbilhão potente de relações efêmeras, de mudanças hipervelozes e de predominância do que é superficial e óbvio, é característica adaptativa relevante dos seres humanos, absolutamente útil à sobrevivência.
Para os mergulhadores, resta aprender a se divertir em água rasa.

             Zé Mauro Nogueira

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9 Respostas para “Água rasa

  1. Muiiiiito bom o texto do Mauro.

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  2. Ah, Comandante, que bela e generosa surpresa!
    Ando calado e um tanto amuado com as coisas do homem, mas vamos ver se a instiga surte efeito.
    Saudosos os dias no Avoante.
    Obrigado pelas palavras, já que por amizade e afeto não se costuma agradecer.
    Abraço!

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  3. Paulo Trigueiro

    Faz um tempinho que estou namorando alguns livros de Zygmunt Bauman mas aguardava uma promoção, ela chegou na Black Friday, e comprei 2 deles. Só que agora li esse texto maravilhoso de Zé Mauro Nogueira e observo que é um resumo de tudo de Bauman escreveu na vida (rsrs).
    Valeu Nelsinho pela dica, pois vou visitar o blog dele.
    Abraços
    Paulo Trigueiro

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