Arquivo do mês: junho 2017

Cotidiano

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O TREMOR, A CIDADE E O TEMOR

Conheci o município de João Câmara/RN, conhecido também pelo nome de Baixa Verde – não sei o porquê, mas simpatizo mais com o segundo -, há mais de 25 anos, durante minhas andanças em busca das praias do Rio Grande do Norte. De lá para cá, a visita virou caso de amor e durante seis anos passei a residir na cidade como proprietário de uma padaria, que logo virou um delicioso ponto de encontro, a Pão de Mel, e como reconhecimento, o vereador, na época, Marcelo Barrinha propôs ao plenário da Câmara Municipal que eu e Lucia fossemos agraciados com o Título de Cidadão Camarense, o que aconteceu em uma bonita cerimonia. Título que muito nos honra. A Pão de Mel ainda segue na vida comercial da cidade, sob a batuta do seu novo proprietário e nós, fomos navegar por aí, até que, depois de onze anos, resolvemos desembarcar para morar na praia de Enxu Queimado, parede e meia com João Câmara. Os segredos da paixão são indecifráveis.

Toda essa introdução é apenas para situar você no contexto deste texto, que tem os terremotos como pano de fundo, pois Baixa Verde ficou conhecida mundialmente como a cidade dos tremores e quase foi riscada do mapa em 30 de novembro de 1986, quando um abalo sísmico, de magnitude 5.1 na escala Richter, trouxe a face do terror aos moradores.

Pois bem, em 1994 quando falei para os familiares e amigos que iriamos morar em João Câmara todos olharam com incredulidade. – Na cidade do tremor? – Vocês estão malucos? Enquanto moramos, sentimos os efeitos de alguns tremores e até acordamos durante a noite com a cama sendo sacudida, mas tudo não passou de pequenos sustos e no decorrer do dia, a preocupação ia sendo apaziguada pelo humor embutido em frases engraçadas. Aliás, os estudiosos afirmam que o município nunca deixou de sofrer abalos, pois está situado em cima de uma falha geológica batizada de Samambaia, que é permanentemente monitorada por uma estação sismológica da UFRN. Em 2016, uma série de dezessete tremores, de magnitude leve, foram registrados num espaço de seis horas, mas felizmente não provocou danos.

Tem cidades mundo afora que aproveitam os efeitos de uma catástrofe natural para angariar com turismo e na época do primeiro abalo, com João Câmara não foi diferente. Muita gente foi ver a destruição de perto e alguns viraram morador. O Exército Brasileiro reconstruiu as casas, todo ano a cidade relembra o fato e a vida segue. A cidade hoje festeja o incremento da energia eólica que trouxe enormes ganhos ao município, porque Baixa Verde é conhecida como a capital do Mato Grande. Dá gosto andar por suas ruas e ver o movimento frenético de um comércio pujante, porém, o progresso trouxe o carma da violência desenfreada que destrói a sociedade brasileira com uma fúria implacável e que deixará marcas para o sempre. Os números da violência na região do Mato Grande são de assustar, mas o governo estadual continua fazendo ouvidos de mercador e virando a cara para o problema. Na maioria das cidades o destacamento policial não passa de dois soldados e quando muito chega a três. – Vergonha? – Que nada, é incompetência, descaramento, desfaçatez e falta de zelo com a população!

Ontem, dia 18/06, nas barbas de São João, Baixa Verde foi novamente sacudida por um tremor de magnitude 2.1. Não teve danos maiores do que o susto, mas ficou no ar a incerteza e voltaram as lembranças da desgraça ocorrida há 31 anos. Será que o fato merecerá uma visita do governador e do séquito de assessores que o acompanha? Acho que não! Se toda essa violência que já ceifou mais de mil vidas no RN este ano não tira o sossego do governador, imagine um terremotozinho de nada, numa cidade de interior! Alguém haverá de perguntar: – E o que o governo tem com isso? Resposta: – Se fosse um governo comprometido com a sociedade e que buscasse levar alento para as mazelas, ele já estaria em campo. Penso eu, né!

A falha de Samambaia está viva e fazendo ecoar o urro dos seus amuos pelas terras do Mato Grande. A violência está viva, incrivelmente cruel e sem ouvir o clamor dos nossos lamentos. Qual o pior do dois é difícil de avaliar, porém, acho a violência como um mal maior, porque vem no rastro do desgoverno e da falta de escrúpulo. Para acalmar o povo os governantes apostam nas melhores e maiores fogueiras. E aja foguetão e forró! – Forró?? – Homi, sei lá e deixe de pergunta besta!

Nelson Mattos Filho

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Palavra de um pescador

03 - março (88)

“O mar é um paraíso. Quem já passou uma noite embarcado, olhou o céu estrelado, sabe do que estou falando. Mas, apesar da beleza, o mar é um lugar perigoso. Não é para qualquer um”. Pescador, ator de cinema e cantor, José Maria Alves, natural de Baía Formosa/RN.

Inspeção naval e a polícia marítima

ad50da85b3c142a3af0e5526b8306821Em 2012, ao comandar um veleiro entre Natal e a Bahia, fui abordado no litoral de Sergipe, a 12 milhas da costa, por um Navio Patrulha da Marinha do Brasil, numa operação padrão de inspeção naval. Fui chamado pelo rádio, pediram-me identificação e em seguida pediram educadamente permissão para uma equipe de inspeção vir a bordo. Perguntei se era para cortar o seguimento do barco, porém, fui orientado a seguir navegando, mas em menor velocidade. Beleza! Folguei as escotas e fui navegando na manha até que a equipe se aproximou e dois inspetores embarcaram. Pediram para ver os documentos, perguntaram nosso destino, Lucia ofereceu um lanche – que foi recusado, agradeceram a nossa presteza, desejaram boa navegada até o nosso destino, informaram que estariam naquelas imediações até por volta da meia noite e se foram. A abordagem aconteceu às 13 horas. Fiquei feliz, confiante no trabalho da Marinha do Brasil e de maneira nenhuma me senti ultrajado. Ao relatar o acontecido em um grupo de velejadores, fiquei surpreso com as reações contrárias e as palavras desabonadoras com relação a essa abordagem, em que muitos acharam, e acham, ser um abuso. Quantas vezes já ouvi reclamações quanto ao trabalho da inspeção naval. Quantas vezes ouvi através do VHF navegantes fazendo alerta aos amigos sobre ocorrência de blitz. Quantas vezes vi colegas fechar o barco e desembarcar para não ser fiscalizado numa ancoragem. Hoje, diante da violência que já descamba para os lados do mar, o que mais se pede nos grupos e clubes náuticos é a criação de uma polícia marítima. Aí eu pergunto: – Para que mesmo? Será que ela não vai ser escrachada e mal falada quando cumprir seu papel? Será que dirão que ela incomoda demais? Será que um dia surgirá uma barqueata com faixas e bandeiras com a frase, abaixo a polícia marítima? Sei lá, somos um povo tão esquisito!    

Titanic, uma história sem final

1200px-RMS_Titanic_3O colosso, o maioral, o festejado, o desejado, o fenomenal, o cinematográfico, aquele que nem Deus afundaria, o fundo do mar, a tragédia, o silêncio, a escuridão total, a história, o mito, a lenda. São muitas a palavras que podemos definir o Titanic, mas duvido que depois de tantos anos do acidente que marcou o mundo, alguém possa afirmar com todos os pingos nos is, o que realmente aconteceu naquela fatídica noite gelada no mar do norte. Remontar a história dessa lenda que repousa a mais de 3 mil metros de profundida passou a ser o objetivo e o desejo de várias gerações de estudiosos e será para o sempre, pois é assim com os grande enigmas mitológicos. Pois bem, agora os cientistas afirmam que o que ainda resta do centenário transatlântico de casco negro está preste a se dissolver pela ação de uma bactéria, já batizada de Halomonas titanicae, em homenagem ao navio. Dizem que essa bactéria consegue sobreviver em condições onde praticamente não existe nenhum outro tipo de vida, como é o caso da profundidade oceânica em que se encontra o naufrágio, com forte pressão e completamente escura. Será que nem o mar quer ficar com o Titanic? Essa será mais uma página a ser acrescentada a uma lenda histórica que nunca terá um fim. Fonte: G1 ciência e saúde        

Cartas de Enxu 18

10 Outubro (187)

Enxu Queimado/RN, 11 de junho de 2017

Sabe meu amigo Davi, sinceramente não sei como iremos seguir nessa caminhada pelas estradas enuviadas desse Brasil sem rumo e sem comando. A coisa está descambando para a esculhambação geral e irrestrita, e ai de nós se tentarmos dar um basta. Mas não se avexe que não vou entupir sua paciência com toda essa mácula que nos absorve, porque hoje é domingo e domingo é dia de alegria.

Meu amigo, por aqui a pesca da lagosta já vai alta e a turma já encheu um bocado de caixas de isopor com esse crustáceo que é um néctar nas receitas mais afamadas, mas digo que prefiro degustá-los da maneira que aprendi quando por aqui cheguei, há mais de 27 anos, torrada na água do mar e, quando avermelha, levando o caldeirão para a calçada, abrindo umas cervas geladas e está feita a mesa. Meu amigo, tem pareia não! Mais do que isso é coisa dos livros de segredos.

Quanto a produção da lagosta em Enxu, vou confessar uma coisa: Já alcancei tempos melhores, onde via pescadores, por essa época, tomando banho de cerveja e tirando o excesso com água mineral. Eram tempos de fartura no mar e nem de longe se ouvia falar nesse tal de defeso, que sou totalmente a favor. Era raro chegar um barco com menos de 200 quilos de lagosta em seus porões e era bonito ver a festa na beira da praia, porém, não tinha um padrão de tamanho e nesse meio vinha muita lagosta miúda, ainda em fase de crescimento, que hoje é combatido pelo Ibama. Os homens dos estudos dizem que a captura indiscriminada foi a causa da inevitável queda na produção, mas vai botar isso na cabeça do pescador! Esse é o nó. Neste 2017, quando chega um barco com 100 quilos de lagosta é um fato a ser comemorado com louvor ao Nosso Senhor Jesus Cristo. Mesmo com essa pindaíba toda, aos poucos, os números vão aumentando e assim a vida vai navegando.

Pezão, como “Mini” o chama tão carinhosamente, pois num é que ela aprendeu a fazer de mesmo a tal da saltenha! Dia desses, Paulinho Correia, irmão de Pedrinho, trouxe para ela dois quilos de peixe ubarana, dizendo que uma vez chegou uma professora por aqui para ensinar as mulheres a fazer hambúrguer e pastel com a carne desse peixe. Como ele soube que Lucia estava fazendo um tipo de salgado, ele lembrou que poderia servir. E num é que serviu! Rapaz, o negócio fica bom que só a peste. O problema é que Paulinho trouxe os quilinhos, dizendo que de onde havia saído aquele tinha bastante e ele seria o responsável para trazer, e agora nada. Lucia fez a propaganda das saltenhas de ubarana, as encomendas chegaram e agora temos que bater meio mundo em busca dos peixes. Ela até já aprendeu a tratar o peixe e a retirar a carne, que tem que ser com muito esmero, para não escapulir nenhuma espinha. A ubarana é um peixe espinhento, mas tem uma carne maravilhosa, que bem preparada fica do cara lamber os beiços e pedir mais.

Meu amigo, estou torcendo para você vir aqui com sua Vera, porque sei que vai adorar esse pedacinho de paraíso. Aqui tem tudo o que você gosta. Tem cerveja gelada, peixe a vontade, umas lagostinhas para variar, sombra, água fresca e muita gente pronta a sentar embaixo de um alpendre para jogar conversa fora. E se quiser navegar de jangada, tem também. Dou por visto você aqui emendando os bigodes numa conversa com essa turma do mar. Vixi!

Sim rapaz, me dê notícias do povo da vela dessa Bahia arretada. Ouvi falar de umas traquinagens praticadas pela turma do mal que tem deixado o grupo de velejadores assustado. Por aqui os pentelhos andaram recolhendo uns celulares, mas parece que deram um freio quando a polícia entrou em ação. Meu amigo, dessa malfeitoria da bandidagem ninguém escapa tão cedo, pois o ensinamento vem das bandas do planalto central. Se quem manda pode fazer, porque quem obedece não pode fazer também, né não? Ainda mais agora que foi ensinado que prova não é bem uma prova e, ou, muito pelo contrário e quem provar pode muito bem ficar desaprovado, basta o juiz querer. Sim, tem mais um negócio que eu não sabia: Que um juiz pode ser atrapalhado na hora de anunciar sua sentença, para ver as fotos da netinha linda. Coisa de avô, né não! Isso é muito lindo! Porém, eu não vou falar muito sobre isso, pois a caboco prometeu cortar a cabeça do falador. Deus é mais!

Pezão, voltando a falar de jangada, você precisa ver as ideias do pescador para fabricar os equipamentos de bordo. Só lembro dos saveiros e seus maravilhosos mestres. As roldanas para subir a vela, os cunhos, o caneco de jogar água para encher os poros do pano, os esticadores, os furos para posicionar o mastro num contravento, través ou empopada. Meu amigo, é tudo de uma simplicidade e rusticidade que me deixa babando. Por que danado temos que inventar tanta complicação em nossos veleiros modernosos? Agora vou pisar nos seus calos: Ainda não vi por aqui nenhuma jangada catamarã. Veja bem, não precisa responder, viu?

Davi Hermida, meu amigo, meu professor das águas baianas e conhecedor como poucos do mar abençoado pelos Orixás, deixo um grande beijo para Dona Veroca e fico por aqui aguardando a visita. Mas venha, viu!

Nelson Mattos Filho

Imagens que trazem saudades

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Estas imagens foram retiradas do tempo pelo velejador, fotografo e geólogo potiguar Joaquim Amorim, que possui um maravilhoso arquivo fotográfico contando um pouco da história das regatas REFENO, Regata Recife/Fernando de Noronha, e FENAT, Regata Fernando de Noronha/Natal, como também momentos que marcaram época no Iate Clube do Natal.

 

Era uma vez nas dunas

Passeio-de-Dromedários-no-RN-Foto-Dromedunas-2Olhe, não tenho nada com isso e nem sei quem tem razão na história, mas vou dar meu pitaco para não perder o passeio. Dromedários, como os da imagem, há muito fazem parte da paisagem das dunas de Genipabu, praia famosa do Rio Grande do Norte e que até já fez pose em algumas novelas brasileiras, porém, segundo matéria no site potiguar Portal no Ar, tudo indica que os dias dos bichinhos das arábias, em solo papa jerimum, estão contados, tudo por causa de um arranca rabo, temperado por delações de fuxiqueiros, entre a empresa turística que aluga os dromedários e os fiscais do Idema, Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente. Por enquanto, ou até que acabe a peleja, o passeio desengonçado dos camelos estão suspensos em Genipabu e a turistada terá que seguir por outros roteiros. Dizem que o problema é o descuido com o bem estar dos animais e “otras cositas mas” , porém, cada lado conta um conto. Quem perde com isso, e já não bastam os altos níveis de violência e a vergonhosa situação da saúde pública, é o turismo, talvez o único setor que tem mostrado bons resultados para o estado. Pronto, agora os guias turísticos mirins podem acrescentar mais um item no quesito “já teve”. O antropólogo  Luís da Câmara Cascudo dizia que Natal não consagra, nem desconsagra ninguém. Nem dromedário escapou da sentença.