Arquivo do mês: maio 2017

Histórias de um viageiro – II

clip_image002Calma, não precisa ficar bravo comigo, pois promessa é divida, e como disse que dividiria com vocês essa história em suaves capítulos, aí vai a segunda parte da peleja do velejador, geólogo e viageiro Sérgio Pinauna, um baiano arretado da mulesta, pelas terras e dunas das deliciosas juçaras. Quem se perdeu, ou quem quiser acompanhar do começo, não precisa se avexar, bastar clicar AQUI, viu!

MARANHÃO – PIAUÍ 2008

Sérgio Netto

O nosso turismo começou em São Luís, uma cidade hoje com quase um milhão de habitantes, implantada numa ilha enorme, quase do tamanho da Baia de Todos os Santos com todas as suas ilhas. Esta ilha de São Luís separa a foz do Rio Itapecuru, do lado leste, da foz do Rio Mearim, do lado oeste, e depois de Marajó é a maior da costa brasileira. O Rio Mearim desemboca na Baia de São Marcos, cuja área e amplitude da maré são o dobro das respectivas na Baia de Todos os Santos. A correnteza na Baia de São Marcos no pico da maré passa de 6 nós, de forma que a navegação ai é saindo na vazante e entrando na enchente. Exceto no canal balizado que dá acesso ao super-porto da Vale do Rio Doce, por onde sai o minério de Carajás, é tudo raso. O Iate Clube nem tem píer de atracação, os barcos ficam encalhados na praia. É a terra dos catamarãs, os meio-barco de quilha não tem vez.

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Veja acima a flotilha de catamarãs na praia do Iate Clube, e o estaleiro de Gaudêncio na Vila Bacanga. Abaixo, uma biana na maré vazia debaixo da ponte de acesso à Vila Bacanga, e uma vista da maré vazia olhando para noroeste a partir da cidade histórica, no pátio da Capitania dos Portos. Esta área há dez anos era atracadouro de navio!

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O assoreamento dentro da baia é intenso, e a cidade de São Luís vem crescendo e se modernizando as expensas de enormes aterros. O rio Mearim foi represado a montante, e a megamaré mobiliza o sedimento dentro da baia, o qual é parcialmente removido com dragas para manter os canais e fazer crescer a área urbana. Os bairros de Renascença I, Renascença II e Ponta d’Areia, onde ficam os hotéis e as Universidades particulares, foram criados assim nos últimos dez anos. A passagem pela cidade histórica, com artesanato e casas azulejadas mal conservadas, não me criou interesse.

A única saída rodoviária da cidade e da ilha é para sul, pela BR-135, em pista dupla, bem conservada. A estrada segue paralela à Ferrovia Carajás, de bitola larga, e à Ferrovia do Nordeste, de bitola estreita. Nos 60 km que andamos para sul até Bacabeira, vi dois trens da Vale transportando minério de ferro, cada um com 1km de comprimento e 3 locomotivas. Em Bacabeira, já fora da ilha, a BR-135 entronca com a MA-402, de pista simples e de boa qualidade, a qual segue para leste por 200 quilômetros até Barreirinhas.

A MA-402 foi construída por sobre as dunas fixadas por vegetação, e é paralela à costa, 50 a 60 km para dentro. As dunas são quaternárias, tem espessura de dezenas de metros e estão implantadas por sobre os arenitos cretácicos da Formação Itapecuru. Depois que passamos o Rio Piriá, nos afastando da ‘civilização’, a paisagem fica deslumbrante. Trinta quilômetros para norte da estrada estão as dunas móveis do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses (quatro fotos acima na p.2), e 60 km para o sul fica a estrutura geológica do final do paleozóico, o Arco Ferrer, que foi soerguido há 300 milhões de anos para isolar a Bacia do Parnaíba do Mar de Tethys.

Não vou encher o saco com muita geologia, mas esta área para mim é marcante porque foi ai que tive meu primeiro contato com a prática de geologia de petróleo. Em 1964, como estudante de geologia da UFBA, fui estagiar na Petrobras orientado pelo geólogo australiano Warren Jopling no poço PAF-7-MA (Projeto Arco Ferrer nº7, Maranhão). Foram estes poços PAF que comprovaram a estrutura consequente da quebra do supercontinente Pangea em Gondwana e Laurásia. Os resquícios do Paleo-Tethys existem até aqui na Bahia, quando o mar interior ficou isolado pelo Arco Ferrer, secou e deixou no que é hoje a ilha de Matarandiba, o depósito de sal que é produzido à profundidade de 1100m pela Dow Chemical.

Barreirinhas é um fim de mundo na margem direita do Rio Preguiças, uma vila turística onde termina a MA-402. Lá existe uma pista de pouso onde você pode fretar um monomotor para sobrevoar os lençóis, umas tantas pousadas com ar condicionado e restaurante, e algumas empresas que disputam os turistas para levá-los de jardineira (jipe preparado para safári) nas dunas e/ou de voadeira até Caburé, na foz do rio Preguiças. De Barreirinhas você volta para São Luís ou segue para o Piauí com as empresas de turismo. A gringalhada e os paulistas do nosso grupo voltaram. Nós seguimos.

Em Caburé ficamos na Pousada Porto Buriti, a única que tem restaurante, gerador a diesel e telefone via rádio. Engraçado, não vi pretos no Maranhão nem no Piauí, exceto um turista paulista. O povo é caboclo ou branco, muitos de olhos claros.

O rio Preguiças é da largura do Reno na Alemanha, e é dos pequenos aqui no Maranhão. Por aqui existe um lugarejo chamado Vassoura, e tem esse nome porque o vento na estação de estio varre tudo. As dunas móveis são de areia média, mediana de tamanho de grão entre 1Ø e 2Ø, enquanto que o normal nos ambientes eólicos é de 2Ø a 3Ø, areia fina. As dunas começam logo no pós-praia (backshore), e a Pousada Porto Buriti para não ser soterrada as mantém cobertas plantando salsa.

clip_image002[17]clip_image002[21]clip_image002[23]clip_image001A primeira foto acima mostra as dunas, resultantes do retrabalhamento pelo vento da areia da praia. O tamarineiro da segunda foto é centenário, e se ajustou ao vento que transporta areia média. A terceira foto é a pousada com dez chalés em Caburé, e a ultima é no caminho para Tutóia, para onde fomos pela praia numa Toyota Hylux com a maré vazia: uma placa avisando aos motoqueiros que não entrem no povoado de capacete. No ano passado dois motoqueiros de capacete praticaram um roubo no povoado. Os moradores foram atrás e trouxeram os dois de volta, amarrados pelos pés e arrastados com um jipe. Um morreu, o outro foi socorrido pela polícia de S.Luis que chegou de helicóptero. A vida aqui ainda é tranquila, o caboclo não se aborrece à-toa.

Em Tutóia alugamos uma voadeira com skipper e motor de popa e seguimos para o Piauí percorrendo os 40km do delta do Parnaíba. Impressionante e incomum, um super delta alongado paralelamente à costa e sem referências na literatura geológica brasileira!

Dada à grandiosidade do que está preservado, imagino que a construção começou pelo menos no Pleistoceno, o rio Parnaíba deixando sua carga e formatando a barra da boca do canal principal no que é hoje a Ilha Grande de Santa Isabel, também referida em outro mapa como Ilha Grande do Piaui. Ai o Parnaíba se divide em dois distributários, um que vai para nordeste com o nome de Igaraçu e outro que vai para noroeste e mantém o nome de Parnaíba. Na saída do Igaraçu para o mar aberto foi construído um molhe de 2,5km, no que deveria vir a ser o Porto de Luís Correa. O lado de barlavento do molhe se mantém profundo, mas o lado protegido, de sotavento e sotamar, foi completamente assoreado em dez anos! Os sedimentos que escapam da planície deltáica pelos canais distributários são parcialmente acumulados na frente da Ilha das Canárias e da Ilha do Caju, compondo uma frente deltáica alinhada com a corrente equatorial. As ondas de leste-nordeste empurram esta areia praia adentro e o vento forte na estação do estio remove parte da frente deltáica para dentro da planície deltáica como dunas eólicas de mais de dez metros de altura. Mais para oeste, na Baia de Tutóia ficam as argilas do pro-delta por sobre o ‘cascalho de marisco’, como descreveu Maica, o nosso skipper, naturalista por vocação, neto de índio, gente boa. Maica também nos ensinou e mostrou muito da fauna e flora na área do delta.

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De olho no tempo

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Não é só falar de seca
Não tem só seca no sertão …

Orós II – João do Vale e Oséas Lopes

As esperançosas chuvas que molharam algumas regiões do sertão nordestino desde março, numa intensidade bem abaixo do desejável, infelizmente começam a fazer falta, deixando no ar o cheiro de uma cruel seca medonha. O sertão é lindo por natureza, mas com chuva é um paraíso só. Olhando a imagem do satélite, bate sim a desesperança, mas como diz Seu Nilo de Tita: – Deixe de agonia homem, que ainda vem muita água por aí para vingar o milho e o feijão. Veremos.       

 

Cartas de Enxu 15

4 Abril (145)

Enxu Queimado/RN, 14 de maio de 2017

Sabe Ceminha, se Deus me concedeu uma graça, essa foi ser seu filho e de todas as alegrias que já tive na vida, a mais maravilhosa é poder continuar te abraçando, acariciando seus cabelos e beijando seu rosto. Sei que não sou aquele filho tão presente, como a senhora queria, porque minha sede de aventura sempre me leva a apostar em rumos que transbordam em dolorosos lamentos em seu coração, mas sei que mesmo assim sigo abençoado, porque sinto a força de sua presença em cada passo que dou.

Ceminha, sei que poderia passar horas e horas escrevendo palavras de ternura e carinho e mesmo assim não falaria tudo o que sinto pela Senhora, justamente porque são palavras vindas de um poço de amor sem fim, mas não vou, pois preciso lhe contar coisas dessa vidinha que escolhi, sob as sombras dos coqueirais de uma Enxu mais bela.

Sabe Mãe, não é difícil e nem complicado optar pelas coisas simples da vida e isso eu aprendi quando aproei pela primeira vez meu Avoante para as águas da Baía de Camamu. Aquela entrada de barra meio enigmática, meio mágica, meio assustadora e bastante interrogativa, foi como a abertura das cortinas de um teatro encantado em que luzes, cores e cenário nos leva a um fascinante delírio de emoções. Aquele momento me transformou e nunca mais consegui ver o mundo através de outras lentes, outras cores, outros cenários e outras certezas, pois aquilo era a vida em seu mais lindo e fiel esplendor. Mas Camamu ficou para trás e um dia voltarei a navegar sobre os segredos de suas águas e com o sonho sonhado de por lá permanecer para sempre. Mas não se avexe minha Ceminha, pois isso são planos de um sonho de vida.

Hoje estou aqui, sobre as sombras da varandinha de uma cabaninha de praia, olhando o mundo pelas lentes com que vi pela primeira vez a linda baía mágica da costa do dendê e sabendo que, apesar dos pesares e das vontades dos homens, a simplicidade, a humildade, o bem querer e o amor, fazem parte de uma só força. – Sabe onde aprendi isso, minha Mãe? – Com a Senhora, com os seus atos, com seus princípios, com a sua ética, com a sua força de Mãe, com a sua determinação, com a sua amizade explicita pelos amigos, com a sua fé em Jesus Cristo e na Virgem Santíssima, com as honras com que recebes os que a procuram, com o carinho de seu olhar para com todos que a cercam, com seus ensinamentos, com a paixão com que abraça suas causas e com todos os doces e saudáveis frutos que a Senhora espalha ao seu redor.

Está vendo Cema, como é fácil deixar que palavras e emoções fluam quando queremos falar de Mãe? Basta deixar os dedos sobre o teclado que eles sabem direitinho juntar as letrinhas, sem esforço algum. O que eu queria mesmo contar era sobre a homenagem que recebi da vereadora Lucia de Pedrinho, assinada em baixo por todos os vereadores que compõem a Câmara de Vereadores de Pedra Grande, na gestão 2017 – 2020, me indicando para receber o Título de Cidadão Pedragrandense. Foi emoção sim, foi uma festa inesquecível, desejo participar de outras com o mesmo fim e queria muito que a Senhora e Tia Cecília estivessem ao meu lado naquela noite. Mas tudo bem, nem tudo que a gente quer a gente pode, recebi o Título, fiz meu agradecimento e voltei para minha cadeira para presenciar a glória e o reconhecimento de uma dama do amor ao próximo.

Cema, foi com lágrimas nos olhos que vi Dona Nerize, com seu andar vacilante, caminhar para receber seu título de cidadã. Ela é um anjo que foi indicada para servir e morar em Enxu Queimado e durante décadas faz a vida florescer sobre a comunidade. Mulher simples, de fala mansa, de mãos abençoadas e que estava, e está, sempre pronta para trazer ao mundo os bebes que ali nascem, unicamente com o propósito de fazer valer sua missão na terra. Basta vê-la caminhando pelas ruas e recebendo os pedidos de bênçãos de adultos e crianças e ela com a voz mais carinhosa abençoado a todos. Seu agradecimento na tribuna da Câmara deixou no ar a leveza e a grandeza de um coração de luz e paz. Foi difícil segurar as lágrimas, e não consegui.

Ceminha, como é gostoso viver em um mundo onde a realidade está ali nua e crua em nossa frente. Como é gostoso abrir os olhos e ver que o a vida continua linda, a paz continua a reinar, os pássaros voam soltos e as pessoas caminham despreocupadas nas ruas e a velha e linda parteira é a personalidade mais importante do lugar. Mas não era assim que deveria ser sempre?

Iracema Lopes Mattos, minha Mãe, minha Rainha, hoje, Dia das Mães, peço sua benção e lhe desejo muito amor, mas peço que me deixe também render homenagens a essa senhora que é Mãe de quase uma cidade inteira, Dona Nerize.

Nelson Mattos Filho

Boas novas na previsão do tempo

mapserv (1)A página Satélite, do site do CPTEC/INPE, já mostra imagens do satélite GOES-16, lançado em novembro de 2016 pelos EUA e que está sendo considerado como o mais poderoso satélite meteorológico do mundo. Por enquanto as imagens e os dados apresentados servem apenas para testes e ajustes  do sistema e não valem como fonte oficial de informação, porém, pelo que observamos nas imagens, o estudo das previsões meteorológicas e do acompanhamento ambiental alcançara novas dimensões.  

A natureza paga a conta

barreira de coraisA Grande Barreiras de Corais da Austrália, um dos mais importantes patrimônios naturais do planetinha azul, está sendo ferido de morte, segundo os homens das ciências, devido ao aquecimento global, aquecimento que para muitos, que comungam das ideias do galego do topete dos EUA, não passa de uma enorme balela científica para frear o progresso das nações. Balela ou não, o aquecimento global é o terrorista número um quando se fala em crimes contra as causas da natureza e os estudiosos atestam que dois terços da Grande Barreira estão comprometidos e num grau praticamente irreversível. Pois é, e muitas vezes ficamos chateados com os ecochatos! Mas o que restaria hoje da Terra se eles não existissem? Muitas vezes em grupos de bate papo vejo pessoas reclamando da “absurda” proibição para uma simples e “inocente” visita ao magnífico Atol das Rocas, no litoral do Rio Grande do Norte, e me coloco como defensor da proibição é digo que o Atol é frágil, também sofre com os efeitos do aquecimento e infelizmente somos um povo muito mal educado para usufruir e lidar com o  turismo ecológico, basta ver o que acontece na Ilha de Fernando de Noronha, onde tudo acontece, mesmo sob as ordens de normas endurecidas. Não conheço a Grande Barreira de Corais, mas sei que o turismo por lá faz festa e muitas vezes quem faz festa, usa e abusa.      

Convite e agradecimento

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Tem coisas que nos deixa envaidecidos, até mesmo quando a vaidade não se faz presente em nossas vidas, porém, é aquele envaidecimento de quem caminha na estrada da ética, das boas causas, do comprometimento, traça rumos em busca do panteão onde são forjadas as amizades e recebe por isso o reconhecimento. Conheci a praia de Enxu Queimado, distrito do município de Pedra Grande/RN, há mais de 26 anos, e digo que foi amor a primeira visita e faço questão de divulgar esse amor por todos os lugares por onde andei e naveguei, vibrando com suas histórias, com o progresso que chega a passos lentos, mas é um progresso salutar, porque mantém Pedra Grande, e seu paraíso praia, com aquela áurea de lugares mágicos, onde a paz e a tranquilidade reinam absolutos por entre belos coqueirais. Hoje sou Enxu Queimado/Pedra Grande de corpo e alma, pois foi lá que passei a morar, depois que deixei o meu Avoante nas águas do Senhor Bonfim e voltei para o mundo urbano. Foi com surpresa, alegria e emoção que recebi da vereadora Lucia de Pedrinho, amiga/irmã que há 26 anos, com um sorriso de criança, nos deu as boas vindas em Enxu Queimado, que eu seria um dos homenageados pela Câmara Municipal de Pedra Grande, com o título de Cidadão Pedragrandense, durante solenidade neste sábado, 06 de maio de 2017, nos festejos em comemoração dos 55 anos de Emancipação Política do Município. Muito obrigado vereadora Lucia de Pedrinho! Muito obrigado vereador Pedro Henrique de Souza Silva, presidente da Câmara Municipal! Muito obrigado Pedra Grande! Esse título será para sempre honrado.        

Agora vou pegar pesado

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Agora vou falar e quem quiser que diga que a Bahia é terra de moqueca, o que não duvido e não nego, porém, o que duvido mesmo é que exista uma baiana arretada para fazer moquecas melhores do que as de Lucia. A danada aprendeu os segredos que foram repassados por Dona Aurora, nêga velha da nação independente da Ilha do Campinho, na enigmática e fascinante Baía de Camamu, e entre toques e retoques, aprumou a mão para produzir as melhores moquecas do mundo. A imagem aí em cima é de uma moqueca de peixe, que estava boa que só a mulesta. Há quem diga que sou suspeito para falar e pode até ser verdade, mas que é assim é. Tenho dito!