Cartas de Enxu 16


4 Abril (226)

Enxu Queimado/RN, 28 de maio de 2017

Sabe meu amigo Zeca, tomei um grande choque em ter mudado do mar para a terra, não que eu não esperasse por isso, mas a realidade está bem pior do que a utopia da espera. Aí você irá perguntar: – E quando da mudança da terra para o mar, não houve choque? – Ouve não, meu amigo, o que ouve foi um turbilhão de alegrias recheado de maravilhosos deslumbramentos. Mas vou levando assim mesmo, até porque, no retorno, tive a sorte de possuir essa palhocinha de praia tão aconchegante, cercada de coqueiros e arejada pelos velhos e bons alísios que trazem belas poesias ao povo do mar.

Meu amigo, nunca esqueci nossos primeiros papos sobre barcos e de minha ida a sua casa para ver o projeto, feito por você, de um catamarã. Aqueles rabiscos estrambólicos, na visão de um neófito que mal sabia distinguir proa e popa, no primeiro momento me encheram de desesperanças, porém, bastaram algumas explicações mais apuradas, de sua parte, para provar que minhas desesperanças tinham alto grau de fundamento, ainda mais quando fui apresentado a valores e custos das coisas de barcos. Ainda bem que controlei os batimentos cardíacos e nossa conversa tomou o rumo de suas histórias pelos mares do Brasil e do Caribe.

Zecão, mudando de assunto, o que danado está havendo com esse mundo? A coisa está muito desarrumada e sem nenhuma perspectiva de melhora. Diga aí rapaz, o que danado se passa em sua cabeça naqueles momentos de reflexão durante suas navegadas entre Natal e o Atol das Rocas? Sempre gostei de pensar nas cidades durantes meus turnos de comando, porque o mar transforma e acalma sentimentos. Hoje, sob a sombra de minha varandinha, tenho me visto meio desassossegado, mas juro que não perdi a esperança de um dia viver em um mundo igualzinho ao que avistava lá do alto mar.

Os caras que se dizem autoridade e se alto intitulam líderes, agora chegaram onde queriam, pois nos meteram dentro de um ninho de serpentes, onde eles são as cobras, e ficam se divertindo em nos ver espernear e gritar velhas palavras de ordem, que nem cabem mais nos dicionários. Estamos a tal ponto envenenados, que não sabemos mais quando estamos seguindo em frente ou dando passos para trás. Estamos feitos canibais comendo uns aos outros e rindo da cara de todos, como se nada fosse mais importante do que a cara diabólica e as mentiras destiladas pelas línguas das serpentes. A nossa situação é caótica, insolúvel e está indicando que não existirá mais lugar no mundo onde possamos sobreviver sem a presença das serpentes.

Poxa, meu amigo, estamos em pleno século XXI, dezessete anos a mais do que a vida prometida pelos Jetsons, e estamos quase retornando ao mundo dos Flintstones, tamanha é a sanha destruidora dos donos do mundo. As redes sociais, que sempre apostei como sendo o futuro é a desgraça dos encantadores das massas, se mostram a cada dia mais abduzidas por eles, e o pior, cada integrante anuncia uma verdade, ou mentira, mesmo, sabendo ele, que não passa em nenhum crivo.

E a violência? – Não, prefiro não falar sobre isso, pois não costumo assistir e nem ler nada com esse tema, até porque, essa comunidade que hoje me acolhe, tirando alguns roubos de galinhas, boatos ou pequenas e divertidas desavenças pessoais, ainda está imune a esse tema.

Rapaz, acho que estou lhe abusando com temas tão para baixo, ainda mais em um domingo tão gostoso de maré de Lua cavaiando, em que o Sol por aqui faz um esforço tremendo para furar uma barreira de nuvens prometedoras de chuvas. Por isso vou pular uma casa. Ei, os noticiários anunciam muita chuva pelas bandas das Alagoas, mas aqui em nós, a coisa está periclitante e já tem agricultor se conformando que a safra vai para o beleléu. Os meus pezinhos de milho estão prometendo, mas também, eu não arredo o pé de aguar todo dia. O feijão já tirei umas três safras e tenho notado que já começaram a esmorecer. Rapaz, tirar feijão verde do pé, debulhar, colocar na panela e tomar o caldo bem quentinho, com uma cerveja bem gelada, é bom demais! Vixi!!

Carioca, a temporada da lagosta inicia dia primeiro de junho e os barcos já estão prontinhos para se fazerem ao mar. Cada pescador carregando o sonho de uma pescaria aprumada, para tirar o atraso. Enxu Queimado tem a pesca da lagosta como carro chefe de sua economia e é gostoso ver o movimento e ouvir da boca do pescador o que eles esperam da nova safra. Eu acho que esse ano vai ser bom, até porque, o período de defeso vem sendo cumprindo à risca, mas tudo é segredo e a natureza é quem vai dizer, né não!

José Martino, meu amigo Zeca do Borandá, você precisa vir aqui para a gente emendar os bigodes na conversa e colocar os assuntos em dia, rapaz. Deixe de preguiça e venha conhecer as boas terras do Mato Grande e essa praia maravilhosa. Pode vir de barco que garanto uma poita arretada para o fundeio. Deixo um cheiro para Lucia e outro para o filhote arquiteto. Venha, meu amigo, pois você vai se apaixonar por esse lugarejo que é só paz e alegria.

Nelson Mattos Filho

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6 Respostas para “Cartas de Enxu 16

  1. Haroldo e Valéria

    Que beleza de visão da vida neste mundão desarrumado amigo Nelson.
    Grande abraço.
    Haroldo e Valéria.

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  2. Sempre uma Leitura fácil e agradável, viagem certa nas escritas do Nelson, eterno Avoante!!
    Obrigado meu amigo
    Abraços

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  3. muit bom
    vem quando tomar …..SORVETE
    TRAGA ESSAS LAGOSTAS AI QUE SÓ ESCUTO PROSAS. Comer que é bom nada

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    • diariodoavoante

      Sorvete de lagosta? Homi, se avexe não que chagaremos e você vai ter colocar muita vassoura atras da porta para podermos ir embora. Cheiro,

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