Lembranças


foto de papai

De que é feito a saudade se não de lembranças? Sou sim um saudosista e faço disso um alimento para nortear minha alma. Vivo minhas lembranças como se fosse o presente e muitas vezes fecho os olhos para não sentir tanta dor, mas se tudo isso são devaneios de loucura, desejo continuar louco.

Ontem tentei dormir e os olhos teimavam em abrir, mas na insistência do cansaço mergulhei naquele estágio em que o corpo levita e a mente se aproxima da cortina dos sonhos, porém, de repente não existia cortina, não existia sonho, não existia nada, apenas eu, com os olhos vidrados no teto, procurando entender o porquê daquele fugaz prazer. Foi nessa hora que escutei o eco da frase entrecortada de soluços, “…a partir de hoje nossa vida vai mudar…”, e como uma fita em alta rotação, o filme retrocedeu e lá estava eu, atendendo um chamado pelo interfone, onde a pessoa dizia: “Nelsinho, corra aqui que seu pai está passando mal”. Sinceramente não lembro da fração de segundos que se passaram entre a colocação do interfone no gancho – e nem sei se o coloquei – e minha entrada naquele escritório que parecia paralisado no tempo. As pessoas estavam imóveis, os olhos arregalados e ninguém falava nada, porque a boca não fechava e nem emitia som. Era como se ali a vida não existisse. Aquela sala parecia um museu de cera em que os personagens estavam retratados em suas mais terríveis expressões. Quando a porta se fechou, a sala tomou vida e lá estava meu pai, com a camisa entreaberta, os braços caídos para os lados, o rosto disforme e a boca emitindo palavras indecifráveis, como se quisesse retomar o controle da situação, mas já não dava. Ali estava um homem que me pedia ajuda e eu, seu filho, seu nome, apenas gritei: Espere aí papai, não me deixe agora que vou pegar o carro. Ao cruzar a porta de volta, cruzei com alguém e pedi que desse a ele água com açúcar e nesse momento o mundo parou novamente, até que me vi dentro do carro, saindo a toda pelo portão e parando em frente ao prédio de onde meu pai já vinha carregado nos braços do funcionário Campos, que tinha o apelido de Campo Redondo. Colocamos ele no carro e saí a toda. Novamente o mundo parou, apesar da minha correria louca pelas ruas da cidade, e apenas voltou a se movimentar em frente a uma loja de materiais de construção, localizada na avenida dois, porém, o mundo se movimentava, mas o carro curiosamente não saía do lugar. – O que houve? Gritei em meio ao nada. Olhei para meu pai, peguei em sua mão, ele me olhou com o olhar distante e lhe falei: Papai, fique comigo e não morra que vou pedir ajuda. – Preciso de um carro. Preciso de ajuda. Meu pai está morrendo lá fora. Todos me olhavam e ninguém esboçava nenhuma reação de ajuda. Corri ao vendedor, que tantas vezes atendeu meu pai naquela loja, e ele apenas disse que não tinha carro a disposição. Corri de volta. Novamente olhei para meu pai e lá estava ele balbuciando palavras incompreensíveis. Novamente peguei em sua mão e ele me olhou como se soubesse tudo que iria acontecer. Um taxi parou e voltamos a correria pelas ruas até o hospital. Dessa vez não larguei sua mão e não parei de falar com ele, pedindo que aguentasse firme que iria ficar bom. Novamente ele me olhou e fechou os olhos, mas sua mão apertava a minha e isso era o que eu queria, pois aquilo era sinal de vida, aquilo era sinal que ele estava comigo. Chegamos ao hospital, ele foi colocado em uma maca, levaram para a urgência e fui junto, mas o médico não aparecia. Deixei ele na sala e corri pelos corredores do hospital Walfredo Gurgel a procura do médico e disseram que ele estava em atendimento, entrei na sala e o puxei pelo braço, – Corra que meu pai está morrendo. O médico pediu calma, levantou e saiu caminhando calmamente. – Doutor, por favor, corra! Cheguei a sala onde meu pai estava na maca, peguei em sua mão, rezei e pedi ao meu irmão, Iranildo, que havia falecido há dez anos, que o socorresse e de repente me vi sentado no corredor de espera do hospital. – Seu pai vai ser transferido para outro hospital, mas estamos providenciando uma ambulância. Disse o médico ao sair do atendimento. – Como providenciando? Nessa hora minha mãe chegou, a ambulância chegou, colocaram meu pai e fomos atrás em outro carro. Na saída do hospital, ao ouvir a sirene da ambulância que o levava para o Hospital São Lucas, minha mãe sentenciou: “- Meu filho, a partir de hoje nossa vida vai mudar! ”. E mudou! Hoje meu pai é a melhor lembrança, a melhor saudade e o melhor dos entreatos que alegram meus sonhos. Aonde ele está eu sei, aonde ele vai eu sei. Quando ele está triste eu sei. Quando ele está alegre, quase sempre, eu sei. Quando ele não está junto a mim eu sei. Não tem um dia que ao abrir os olhos não pense nele. Ele é meu anjo da guarda, mas tem uma coisa que sempre me atormenta: – O que será que ele me dizia naqueles momentos que segurava minha mão e me olhava. Tio Emídio, que também já não está entre nós, certa vez me perguntou qual recado que meu pai mandou para minha Mãe. – Recado? – Sim recado, porque sua Mãe ontem sonhou com ele dizendo que havia deixado um recado com você. Pois é, até hoje tento decifrar aquele olhar e ouvir o eco dos sons disformes que saiam de sua boca e não consigo. Quem sabe uma noite, em que o sono entrar naquele estágio entre a levitação e as profundezas eu consiga escutar.

O eco das palavras de minha Mãe soou por alguns bons momentos entre as paredes do quarto e foi ouvindo-as que peguei na mão de Lucia, dei um beijo e dormi. É assim há 35 anos! Hoje, 22 de maio, Nelson Mattos, meu Pai, o melhor trombonista do mundo, o melhor entre todos os homens, o mais lindo e amado, faria 94 anos e logo cedo minha Mãe passou-me uma mensagem perguntando se ele fosse vivo ainda estaria tocando trombone. – Ceminha, tocando eu não sei, mas a nossa casa hoje estaria cheia e ornamentada de belas e inesquecíveis melodias.

Parabéns meu Pai!

Nelson Mattos Filho

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12 Respostas para “Lembranças

  1. Marília Mattos

    Aiiiiii tio! Estou aqui afogada em lágrimas! Emocionada demais por ler esse relato tão real e fiel que me vez “ver” as cenas de desespero e dor vividas por você, especialmente! Que tristeza! Não sabia de nada disso! Muito bom se ter lembranças, realmente. Parabéns por conseguir emocionar com seus belos textos. Obrigada por compartilhar conosco tudo isso!

    Obs: Campo Redondo trabalha aqui na rua ao lado da minha casa. Sabia?

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  2. Hoje seria dia de festa, tenho certeza!

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  3. Nelsinho, que lindo o que vc escreveu sobre seu pai. Nao contive as lágrimas. O tempo passa e a lembrança dele está muito viva em todos nós. Um homem inesquecível!

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  4. Lourdinha G. Oliveira

    Emocionante, Nelson!
    Seu pai deve ficar feliz ao saber de seu nobre sentimento.

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  5. Wilson Cleto de Medeiros Filho

    Simplesmente sem palavras, Nelsinho…

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  6. Paulo Trigueiro

    Nelsinho, quando vi a foto lembrei logo do som que ouvia nos dias que antecedia o carnaval. Nossas casas eram bem próxima, na rua Cel. Teotônio de Carvalho – Tirol, e muitas vezes eu ficava na calçada para ouvir seu pai tocando trombone com seu grupo musical. O seu relato arrepiou, quase fui as lágrimas. O tempo não volta mais, as lembranças sim. Chegam de surpresa. Não vamos esquecer momentos felizes ou não com as pessoas que amaremos todos os dias de nossas vidas. Abraços de saudades daquele tempo juvenil.

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    • diariodoavoante

      Pois é meu amigo, aqueles tempos de ouro da Teotônio da Carvalho foram marcantes. Obrigado pelo comentário e fiquei feliz em saber que os belos acordes tocados pelo meu pai, ainda estão bem vivos em suas lembranças. Grande abraço,

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