Histórias de um viageiro – II


clip_image002Calma, não precisa ficar bravo comigo, pois promessa é divida, e como disse que dividiria com vocês essa história em suaves capítulos, aí vai a segunda parte da peleja do velejador, geólogo e viageiro Sérgio Pinauna, um baiano arretado da mulesta, pelas terras e dunas das deliciosas juçaras. Quem se perdeu, ou quem quiser acompanhar do começo, não precisa se avexar, bastar clicar AQUI, viu!

MARANHÃO – PIAUÍ 2008

Sérgio Netto

O nosso turismo começou em São Luís, uma cidade hoje com quase um milhão de habitantes, implantada numa ilha enorme, quase do tamanho da Baia de Todos os Santos com todas as suas ilhas. Esta ilha de São Luís separa a foz do Rio Itapecuru, do lado leste, da foz do Rio Mearim, do lado oeste, e depois de Marajó é a maior da costa brasileira. O Rio Mearim desemboca na Baia de São Marcos, cuja área e amplitude da maré são o dobro das respectivas na Baia de Todos os Santos. A correnteza na Baia de São Marcos no pico da maré passa de 6 nós, de forma que a navegação ai é saindo na vazante e entrando na enchente. Exceto no canal balizado que dá acesso ao super-porto da Vale do Rio Doce, por onde sai o minério de Carajás, é tudo raso. O Iate Clube nem tem píer de atracação, os barcos ficam encalhados na praia. É a terra dos catamarãs, os meio-barco de quilha não tem vez.

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Veja acima a flotilha de catamarãs na praia do Iate Clube, e o estaleiro de Gaudêncio na Vila Bacanga. Abaixo, uma biana na maré vazia debaixo da ponte de acesso à Vila Bacanga, e uma vista da maré vazia olhando para noroeste a partir da cidade histórica, no pátio da Capitania dos Portos. Esta área há dez anos era atracadouro de navio!

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O assoreamento dentro da baia é intenso, e a cidade de São Luís vem crescendo e se modernizando as expensas de enormes aterros. O rio Mearim foi represado a montante, e a megamaré mobiliza o sedimento dentro da baia, o qual é parcialmente removido com dragas para manter os canais e fazer crescer a área urbana. Os bairros de Renascença I, Renascença II e Ponta d’Areia, onde ficam os hotéis e as Universidades particulares, foram criados assim nos últimos dez anos. A passagem pela cidade histórica, com artesanato e casas azulejadas mal conservadas, não me criou interesse.

A única saída rodoviária da cidade e da ilha é para sul, pela BR-135, em pista dupla, bem conservada. A estrada segue paralela à Ferrovia Carajás, de bitola larga, e à Ferrovia do Nordeste, de bitola estreita. Nos 60 km que andamos para sul até Bacabeira, vi dois trens da Vale transportando minério de ferro, cada um com 1km de comprimento e 3 locomotivas. Em Bacabeira, já fora da ilha, a BR-135 entronca com a MA-402, de pista simples e de boa qualidade, a qual segue para leste por 200 quilômetros até Barreirinhas.

A MA-402 foi construída por sobre as dunas fixadas por vegetação, e é paralela à costa, 50 a 60 km para dentro. As dunas são quaternárias, tem espessura de dezenas de metros e estão implantadas por sobre os arenitos cretácicos da Formação Itapecuru. Depois que passamos o Rio Piriá, nos afastando da ‘civilização’, a paisagem fica deslumbrante. Trinta quilômetros para norte da estrada estão as dunas móveis do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses (quatro fotos acima na p.2), e 60 km para o sul fica a estrutura geológica do final do paleozóico, o Arco Ferrer, que foi soerguido há 300 milhões de anos para isolar a Bacia do Parnaíba do Mar de Tethys.

Não vou encher o saco com muita geologia, mas esta área para mim é marcante porque foi ai que tive meu primeiro contato com a prática de geologia de petróleo. Em 1964, como estudante de geologia da UFBA, fui estagiar na Petrobras orientado pelo geólogo australiano Warren Jopling no poço PAF-7-MA (Projeto Arco Ferrer nº7, Maranhão). Foram estes poços PAF que comprovaram a estrutura consequente da quebra do supercontinente Pangea em Gondwana e Laurásia. Os resquícios do Paleo-Tethys existem até aqui na Bahia, quando o mar interior ficou isolado pelo Arco Ferrer, secou e deixou no que é hoje a ilha de Matarandiba, o depósito de sal que é produzido à profundidade de 1100m pela Dow Chemical.

Barreirinhas é um fim de mundo na margem direita do Rio Preguiças, uma vila turística onde termina a MA-402. Lá existe uma pista de pouso onde você pode fretar um monomotor para sobrevoar os lençóis, umas tantas pousadas com ar condicionado e restaurante, e algumas empresas que disputam os turistas para levá-los de jardineira (jipe preparado para safári) nas dunas e/ou de voadeira até Caburé, na foz do rio Preguiças. De Barreirinhas você volta para São Luís ou segue para o Piauí com as empresas de turismo. A gringalhada e os paulistas do nosso grupo voltaram. Nós seguimos.

Em Caburé ficamos na Pousada Porto Buriti, a única que tem restaurante, gerador a diesel e telefone via rádio. Engraçado, não vi pretos no Maranhão nem no Piauí, exceto um turista paulista. O povo é caboclo ou branco, muitos de olhos claros.

O rio Preguiças é da largura do Reno na Alemanha, e é dos pequenos aqui no Maranhão. Por aqui existe um lugarejo chamado Vassoura, e tem esse nome porque o vento na estação de estio varre tudo. As dunas móveis são de areia média, mediana de tamanho de grão entre 1Ø e 2Ø, enquanto que o normal nos ambientes eólicos é de 2Ø a 3Ø, areia fina. As dunas começam logo no pós-praia (backshore), e a Pousada Porto Buriti para não ser soterrada as mantém cobertas plantando salsa.

clip_image002[17]clip_image002[21]clip_image002[23]clip_image001A primeira foto acima mostra as dunas, resultantes do retrabalhamento pelo vento da areia da praia. O tamarineiro da segunda foto é centenário, e se ajustou ao vento que transporta areia média. A terceira foto é a pousada com dez chalés em Caburé, e a ultima é no caminho para Tutóia, para onde fomos pela praia numa Toyota Hylux com a maré vazia: uma placa avisando aos motoqueiros que não entrem no povoado de capacete. No ano passado dois motoqueiros de capacete praticaram um roubo no povoado. Os moradores foram atrás e trouxeram os dois de volta, amarrados pelos pés e arrastados com um jipe. Um morreu, o outro foi socorrido pela polícia de S.Luis que chegou de helicóptero. A vida aqui ainda é tranquila, o caboclo não se aborrece à-toa.

Em Tutóia alugamos uma voadeira com skipper e motor de popa e seguimos para o Piauí percorrendo os 40km do delta do Parnaíba. Impressionante e incomum, um super delta alongado paralelamente à costa e sem referências na literatura geológica brasileira!

Dada à grandiosidade do que está preservado, imagino que a construção começou pelo menos no Pleistoceno, o rio Parnaíba deixando sua carga e formatando a barra da boca do canal principal no que é hoje a Ilha Grande de Santa Isabel, também referida em outro mapa como Ilha Grande do Piaui. Ai o Parnaíba se divide em dois distributários, um que vai para nordeste com o nome de Igaraçu e outro que vai para noroeste e mantém o nome de Parnaíba. Na saída do Igaraçu para o mar aberto foi construído um molhe de 2,5km, no que deveria vir a ser o Porto de Luís Correa. O lado de barlavento do molhe se mantém profundo, mas o lado protegido, de sotavento e sotamar, foi completamente assoreado em dez anos! Os sedimentos que escapam da planície deltáica pelos canais distributários são parcialmente acumulados na frente da Ilha das Canárias e da Ilha do Caju, compondo uma frente deltáica alinhada com a corrente equatorial. As ondas de leste-nordeste empurram esta areia praia adentro e o vento forte na estação do estio remove parte da frente deltáica para dentro da planície deltáica como dunas eólicas de mais de dez metros de altura. Mais para oeste, na Baia de Tutóia ficam as argilas do pro-delta por sobre o ‘cascalho de marisco’, como descreveu Maica, o nosso skipper, naturalista por vocação, neto de índio, gente boa. Maica também nos ensinou e mostrou muito da fauna e flora na área do delta.

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