Cartas de Enxu 11


3 Março (7)

Enxu Queimado, 19 de março de 2017

Fernando meu amigo, como vão as coisas por aí nesse dia de São José? Por aqui estou com um olhar que beira o pessimismo, porque sempre ouvi falar que quando não cai chuva boa no dia do Santo anunciador de esperança, a vida tende a ser difícil para os lados do sertanejo, como se já não fosse sempre, pois sertanejo é povo sofrido, mas trabalhador que só vendo. Quando eu andava pelo meio do mundo aboletado em um veleiro, as esperançosas chuvas de 19 de março passavam meio que despercebidas, apesar de ser uma data em que os ventos vindos do Sul começam a tomar gosto e era chegada a hora de rever rotas e aprimorar as regras de navegação, pois vento do quadrante das terras geladas são malcriados que só vendo, pelo menos para quem navega pelos maravilhosos mares nordestinos é assim.

Mas continuando na mesma linha da esperança, continuo apostando pesado que o inverno será mais invernoso do que o dos últimos cinco anos, e tem que ser, porque faz tempo que São Pedro não lembrava do Nordeste e nesse 2017 ele de vez em quando abre uma torneirinha mais à vontade. Só espero que ele não venha com a aquela normalidade tão anunciada pelos homens que estudam o tempo, pois sendo assim o milho de São João não vinga. E por falar em milho, pois num é que me arvorei a espalhar uns leirões pelo terreno da nossa cabaninha de praia e lá plantei feijão, inhame, batata doce e milho. Lucia pegou gosto e ainda fez uma horta com coentro, cebolinha, alface, espinafre, tomate e mais um bocado de coisa boa. A fartura vai ser grande e já estou preocupado com o tamanho do caminhão para carregar a produção. Se for pequeno, não dá! Não ria que a coisa é séria!

Meu amigo, estou curtindo essa nova vida meio praieira, meio do campo, porém, juro que a saudade do veleiro é grande e tomara um dia voltar para o seio de Iemanjá e seu reinado acolhedor. Tem quem diga que em terra a vida é mais segura, mas eu os perdoo, pois eles não sabem o que dizem.

Sim, diga aí como vai Dona Marta, espero que tudo esteja nas mil maravilhas e até prometemos tomar um vinho ao sabor de um gostoso bate papo. E por falar em bate papo, você tem visto como anda as coisas pelas terras da ordem e do progresso? De ordem eu não tenho visto muita coisa e de progresso, ainda estão nos devendo, é com juros. Ei a conta é grande! Estamos caminhando igualmente aqueles jogos que mandam pular uma casa e na jogada seguinte os dados mandam retornar três. Rapaz, está complicado. Você já viu o cara soltar uma ruma de caranguejo na calçada, para tanger? Meu amigo, num é serviço bom não, viu! Pois assim está sendo escrita as recentes páginas de nossa história. Porém, os intelectuais apostam que é assim, e assim será! E por falar em intelectual: Você viu quantos tem espalhados por esse Brasil de meu Deus? Dia desses vi uma lista que fiquei espantado com as figuras que colocaram o jamegão. Bordo!!!

Meu doutor, o que você me diz dessa minha mania de fazer um churrasquinho básico? Será que ainda dará quórum para aquelas picanhas suculentas? Homi, colocaram até a cervejinha gelada na fritura. Agora condenou tudo! A carne é podre e já inventaram que colocam tanta milacria na cerveja que sei não, viu! Até pombo moído! Vots! Mas também, o que danado aqueles pombinhos vão fazer na boca de um sugador de cereais? Será brincadeira de roleta russa? Sei lá, cada pombo com sua mania, né! Sim meu amigo, e as águas do Velho Chico? No começo todo mundo protestava diante do projeto e até um bispo quase morre de fome, agora cada um que queira assumir a paternidade da criança. Como diz o velho sábio: Casamento quando é novo tudo é bom, o problema é quando surgem os arranhões. E eu ainda estou para ver uma obra nas terras dos pindoramas que não esteja corroída nas estruturas. Quando surgir o primeiro processo de “pensão alimentícia” aí sim, veremos quem é o pai dessa transposição. Por enquanto é só festa, falatório e banho de rio.

Rapaz, ontem à noite fizemos mais uma rodada de escaldaréu, na beira da praia, e o bicho estava bom que só a peste. Era para o comandante Flávio, mas ele mordeu a corda e não apareceu, sendo assim, e já que estava programado, metemos o sarrafo na panela e fomos dormir de bucho cheio.

Caro amigo Fernando Luiz, estamos sentindo a falta de vocês por aqui e é sempre uma alegria tê-los sob o teto de nossa cabaninha. Apareçam mais vezes que prometo servir, além dos deliciosos pescados saídos das águas de Enxu, umas deliciosas saltenhas produzidas por Lucia, que por sinal são divinas. As encomendas não param e estou até ensaiando pedir um salário de degustador e um auxíliozinho extra para justificar e reparar o aumento da protuberância na barriga.

Até mais ver.

Nelson Mattos Filho

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5 Respostas para “Cartas de Enxu 11

  1. Pois é meu caro Nelson, o aumento da barriga tem consequências no
    Avoante.:o peso extra será uma carga não só inútil como será prejudicial, pois aumentando a tara diminui a carga útil (pessoas, alimentos, água, combustível, etc). rsrs
    Quanto à polêmica transposição, e a “reivindicação de paternidade” (que idiotice…), é bom lembrar que Lula) ou qualquer um que queira levar vantagem),Lula certamente não tem mérito nenhum. NENHUM. 1º – a ideia e o projeto não é dele. 2º – O governo federal, que na época tinha Lula na presidência, pôde iniciar a obra porque havia recursos, graças conjuntura extremamente favorável do mercado internacional, e graças às classes produtivas e ao povo brasileiro que trabalhou e produziu a riqueza. 3º – Ha sim demérito, pois ao que consta as obras foram super superfaturadas, aí sim, em prejuizo do povo brasileiro, e portanto dos próprios beneficiários da transposição. 5º – Existem ainda muitos outros aspectos que não foram devidamente analisados, avaliados, e prevenidos. Nossos políticos são uma piada de mau gosto.
    Meu amigo Nélson, claro que quando leio suas tão agradáveis crônicas, eu faço minhas reflexões. Pois sua crônica de hoje, que foi um batepapo sobre assuntos tão diversos, provocou minha consciência de cidadão. Não me leve a mal o meu comentário.

    • diariodoavoante

      Caro amigo Peralta, seus comentários me dão um um prazer danada em ler, mas digo uma coisa: Desde junho de 2016 que não estou mais morando no Avoante e ele mais me pertence. Está navegando sob outro comando e feliz da vida. Minha vida agora é nessa casinha de praia tão arretada de boa e que um dia aguarda por sua visita. É duro saber que vivemos em tempos tão desabonares em nosso Brasil, mas como você bem diz: Nossos políticos são uma piada de mau gosto, mas ainda bem que o Tiririca nos faz rir. Grande abraço,

  2. William W.J.Alves

    Caro amigo, Nelson acompanho seu Diário a já alguns anos, tive um Delta 17 chamado Krill que ainda veleja com o mesmo nome nas águas de Todos os Santos. Sou pai do Alexandre Rabello, que comprou a mais ou menos ano e meio atrás o Veleiro FIU, do Mestre Cabinho e velejamos constantemente na Linda Baía de Todos os Santos. Detalhe, somos Cariocas morando a mais ou menos 12 anos em Salvador.
    Nos conhecemos a anos atrás na Ribeira no Avoante.
    Agora devidamente apresentado, gostaria que tirasse uma curiosidade danada que tenho já a algum tempo.
    O que leva um Velejador experiente que mora a tanto tempo no Veleiro, de uma hora para outra ir viver em terra firme ? Desculpa a indiscrição mas a curiosidade é muito grande. rsrsrs
    Abraços a todos.
    Ps Sou muito Fã de suas reflexões.

    • diariodoavoante

      Meu caro William, fiquei feliz por esse comentário tão cheio de recordações. Meu amigo, a vida dá voltas e temos que acompanhar, sob pena de perdermos o rumo. Morar a bordo de um veleiro foi a melhor coisa que nos aconteceu e até digo que todos deveriam passar por essa experiência em algum momento da vida, mas depois de onze anos e alguns meses, tínhamos assuntos em terra que necessitavam da nossa atenção e não poderíamos prolongar por mais tempo a resolução. Passamos sim por uma dolorida decisão, mas não víamos outro modo de resolver. Ou deixaríamos o barco abandonado por um tempo, coisa inconcebível quando o barco é sua casa, ou venderíamos para ter mais tranquilidade e paz na alma. Optamos por vender e refrescar as ideias em outras plagas. Um dia voltaremos, porque o mar me chama a todo momento e o corpo cobra a ida. Abraços, Nelson

  3. julival fonseca de Góes

    Comandante Nelson, para quem registrar a felicidade de bem conhecer ao sertão e suas manhas, percebe-se claramente que você também conhece do riscado. Quanto às comemorações da transposição, lembramos a velha história:” quando o sucesso aparece, os pais são tantos, que lembram as cadelas parindo filhotes de vários machos. Quando não dá certo, os filhotes são órfãos de pais. Portanto, queremos ver quem vai assumir a paternidade para as mazelas que vem acontecendo no VELHO CHICO, também conhecido como O RIO DAS BARBAS BRANCAS e também o pomposo RIO DA INTEGRAÇÃO NACIONAL.Há crescentes denúncias de comprovados estragos entre Piranhas e a Foz. Quanto a esta, fala-se que as águas de Iemanjá já alcançaram a mais de quinze quilômetros rio acima.E em consequência, o que antes havia nele de peixe a alimentar os “barrigudinhos” ribeirinhos,é o mesmo que se encontrar um homem sério em toda a Brasilia.: uma rara exceção !Parabéns pelo texto! À disposição,
    Julival Fonsêca de Góes ( 71- 9 8774-1238/ 3334-5539)

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