Arquivo do mês: fevereiro 2017

Um gigante no cadafalso

Sao_Paulo_at_sea_(11522051596)Os poetas nos ensinam que as embarcações cumprem destinos, mas o que dizer daquelas que são abatidas em plena navegada pelo despropósito de alguém? Aprendi que um barco jamais será velho, porque sua alma está sempre renovada. Barco tem alma e a alma do valente e incompreendido navio aeródromo São Paulo, que nasceu Foch 99, em 1960, quando foi lançando ao mar para servir a armada francesa, está ferida de morte, porque o gigante de 265 metros, 32,8 toneladas e que acolhe 1.920 tripulantes, tem os dias contados para ir para o abate em algum cemitério de navios dos mares orientais ou africanos. A Marinha do Brasil anunciou, dia 14 de fevereiro, que uma pretendida reforma que daria sobrevida de quase 30 anos ao São Paulo mixou por falta de verba e interesse e sendo assim, o Brasil ficará sem sua Nau capitânia por longos anos, ou quem sabe para sempre, porque a compra de um novo navio aeródromo está fora dos planos prioritários do comando naval. Dia desses vi um comboio de Fuzileiros Navais desfilando pelas ruas de Natal/RN com a missão de vistoriar presídios, numa clara desvirtuação dos manuais das forças armadas. Pensando bem, para isso não é preciso navio, basta um jipe, né não?  

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Previsões, apenas previsões

mapservNesses tempos de estranhezas mundo afora está difícil arriscar um palpite seguro sobre o que a natureza vai aprontar para os próximos dias ou mesmo algumas horas mais a frente, e até os mais modernosos equipamentos meteorológicos estão vendo tocha para decifrar os segredos do tempo. Sem saber o que dizer, nem o que responder, os estudiosos contam um conto aqui e se arvoram em contar outro acolá, mesmo sabendo que não será nem isso e nem aquilo, mas é preciso satisfazer a todo custo o interesse da plateia e o que vemos é um festival de besteirol nas manchetes dos jornais. Na manhã desta segunda-feira, 20/02, ao fazer minha caminhada matinal pelos sites dos principais jornais e nas variantes das mídias sociais, me deparei com um verdadeiro festival de afirmações “verdadeiras” que beira a sandice e teve até quem afirmasse que o Rio Grande do Norte vai virar mar, de tanta água que ainda está para cair até a quarta-feira de cinzas. Seu menino, se nem os antigos sinais emitidos pelas nuvens e pelos bichos estão conseguindo aprumar a mira, imagine nós, humanos sem noção. Bem, a imagem do satélite do Cptec/Inpe aí em cima conta um pouco do enredo do samba para os próximos dias, mas o cacoete dos bichos ainda está meio tímido. O torreame de nuvens está bem parrudo nos quatros lados do céu, os coriscos fazem ecoar o ronco surdo dos trovões e chuvaradas de fazer mear açudes fazem a alegria do povo do sertão, mas por enquanto, inverno para valer, não passa de uma abençoada esperança. Que venha o Carnaval!   

Vem aí o primeiro eclipse solar de 2017

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Para quem gosta, como eu, de saber das coisas da natureza, vem aí mais uma brincadeira de esconde esconde entre o Sol e a Lua para nos deixar de pescoço duro olhando para o espaço sideral. Dia 26 de fevereiro, enquanto os trompetes festejam mais um Carnaval no Brasil, que nessa edição vem recheado com as infindáveis baboseiras da hipocrisia dos ditos racionais, em querer pautar e proibir o que não é pecado do lado de baixo do equador, principalmente sob reinado de Momo. E por falar em Momo, até ele perdeu a graça que se foi com a pança avantajada que outrora definia um bom e festeiro rei da folia. Mas vamos deixar a folia de lado e vamos logo ao que interessa nessa postagem. Dia 26, domingo de Carnaval, acontecerá mais um eclipse solar, o primeira do ano, e segundo os astrônomos, o fenômeno poderá ser visto por quase uma hora, no finalzinho da manhã, em quase todo Brasil. Vale alertar que não se deve olhar diretamente para o Sol sem a proteção de equipamentos. O próximo eclipse solar acontecerá dia 21 de agosto e é bom aproveitar, porque são fenômenos raros. Tomara que o eclipse clareie a mente dos hipócritas.  Fonte: veja.ciência   

Bom dia mundo velho!

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E mais uma vez o mundo não acabou, mas bem que poderia ter, pelo menos, levado uma boa sacudida para espalhar a poeira.  

O retrato, o poema e a poesia

2 Fevereiro (32)

“Perder um poema pode ser doloroso, angustiante, mas perder a poesia seria muito pior” Lívio Oliveira, escritor, no texto O poema perdido, publicado no jornal Tribuna do Norte

Ei, o que você vai fazer hoje?

asteroide“Meu amor/O que você faria/Se só te restasse esse dia?/Se o mundo fosse acabar/Me diz o que você faria…” Assim canta o compositor Paulinho Moska, talvez nos instigando a refletir sobre esse mundo louco em que vivemos, porém, o astrônomo russo Dyomin Damir Zakharovich, retira do mundo das fantasias a música do brasileiro e afirma que hoje, 15/02/2017, será o último dia da humanidade, porque amanhã o nosso planetinha metido a besta se transformará em poeira cósmica. Diz o russo que o asteroide 2016WF9 se chocará amanhã, 16, com a Terra e que essa tenebrosa informação está sendo ocultada pela Nasa, sei lá porquê. Já os galegos da Nasa desmentem o russo e dizem que o asteroide tirará um fino de 51 milhões de quilômetros de distância do nosso quengo e nem, nem para nada e podemos continuar na mesma zona que já estamos acostumados e rindo das palavras do tomador de vodka. Agora cá pra nós: – E se o danado do russo tiver razão? – Acho que vou dar uma nova olhadinha na letra do Moska para ter algumas ideias!       

Votos renovados com o mar – IV

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Naveguei no mar da Bahia durante boa parte dos meus onze anos e cinco meses morando a bordo do Avoante e acho que tenho o direito de dizer que o mar do Senhor do Bonfim e seu séquito de Orixás é simplesmente fantástico, inebriante e que todos os elementos da natureza conspiram em favor do povo do mar, porém, existe sim um escabroso e indecifrável abandono das autoridades com aquele mundo tão fascinante. Não canso e jamais cansarei de afirmar que não existe no mundo um lugar melhor para navegar e curtir a vida de velejador cruzeirista, do que o mar cantado em verso e prosa por diversos compositores e escritores mundo afora, sem falar nos maiorais Amado e Caymmi. O mar azeitado de dendê, adocicado de cocadas, dourado com a crocância do acarajé e embebecido com o sabor inigualável do jenipapo, tem segredos e enredos infinitos, basta olhar para ele e ter a sensibilidade de pescar um pouco das essências que ali afloram. Escrevendo assim, muitos podem achar que sou mais um baiano bairrista, mas sou não, sou sim um apaixonado papa jerimum que tem o coração e duas belas joias, do melhor quilate, encravados no chão da filha de Oxum Mãe Menininha do Gantois.

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A noite corria alta e eu observava as sombras que dançavam sobre o manhoso Rio Paraguaçu. Das sombras ouvi ecos surdos de penosos lamentos do velho rio, denunciando a descortesia dos homens diante de sua grandeza e importância histórica. Dizem que os velhos reclamam de tudo e de todos, mas dizem também que a mocidade não gosta de ouvir verdades. Ouvindo aquele lamento surdo e quase inaudível, fechei os olhos e sonhei com as canoas de um tempo passado, carregadas de felizes e barulhentos Tupinambás. Como deve ter sido bom aqueles dias de índio de outrora, até o dia em que chegaram uns homens brancos, com vestimentas cravejadas de brilhantes e marcadas com o símbolo de uma cruz que a tudo proibia e condenava, e o que era bom se acabou.

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Dia claro, hora de levantar âncora e aproar o catamarã Tranquilidade para adentrar um pouco mais o Paraguaçu até o povoado de São Tiago do Iguape, uma lindeza de fundeadouro abençoado pela visão de mais uma belíssima igreja matriz debruçada sobre as águas. Jogamos âncora, porém, demoramos pouco, apenas o tempo de respirar o ar daquelas paragens e registrar mais uma vez nossa passagem por São Tiago, lugar que temos os bons amigos, Dona Calú, Seu Jarinho e o pescador Lito. Com a maré de vazante saímos do Paraguaçu para ancorar em Salinas da Margarida, outro fundeadouro bom demais da conta e onde passamos a noite.

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Se aproximava o dia da nossa despedida daquele mar de bondades e mais uma vez retornamos à Praia da Viração, que o comandante Flávio marcou em seu cardeninho de anotações como uma delícia de praia. Lucia, como sempre, preparou um almoço dos deuses e ficamos ali, olhando a paisagem e jogando conversa fora, como se o tempo não existisse, mas ele existe e tínhamos que seguir viagem. Para onde? Que tal ir até o Aratu Iate Clube para saborear aqueles pasteis fora de série? Boa ideia, vamos lá! Bem, os pasteis não degustamos, porque o Wilson estava fazendo manutenção no restaurante, porém, lá nos esperavam o Paulo e o Maurício, para festeja nossa estadia com uma rodada da mais gelada cerveja sob as cores do pôr do sol, que das varandas do Aratu é imbatível.

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Mais uma noite se passou e pela manhã voltamos para o local de nossa partida no Angra dos Veleiros, na Península de Itapagipe, bairro da Ribeira. Com as energias e os votos renovados no mar da Baía de Todos os Santos, festejamos a boa vida que tivemos naqueles sete dias a bordo do Tranquilidade, um modelo BV 43 construído pelo estaleiro maranhense Bate Vento. Como se diz na Bahia: Um barco da porra!

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No dia seguinte levamos o comandante Flávio e Gerana para um tour pela cidade de Salvador. Visitamos o Mercado Modelo, o Pelourinho, a Ponta de Humaitá, o Rio Vermelho, o Mercado do Rio Vermelho e o Farol da Barra. Turistar pela capital baiana é caminhar sobre a história de um Brasil mais encantador impossível. Apresentar aos amigos o mundo que tivemos a alegria de viver por tantos anos e que tantas alegrias nos trouxe, é para nós uma felicidade imensurável.

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Os nossos anfitriões do Tranquilidade voltaram para Natal e nós ficamos mais um dia para ver as duas joias que citei lá em cima. Nelsinho e Amanda, o melhor de toda essa viagem, em dezembro de 2016, foi poder mais uma vez abraçá-los e beijá-los. Que o Senhor do Bonfim sempre os proteja.

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P_20161214_102809“Nessa cidade todo mundo é de Oxum/…Toda essa gente irradia magia/…eu vou navegar, nas ondas do mar, eu vou navegar…”

Nelson Mattos Filho/Velejador