O cafezinho


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E eu aqui deitado em minha rede na varanda crente que sabia fazer um cafezinho básico e para isso apenas esquentava a chaleira, colocava o pó no filtro e aguava com a água fervente, quando não, me socorria numa engenhosa cafeteira tipo italiana que acho o máximo. Pois é, pensei, sempre fiz e hoje vejo que pensei e fiz tudo errado. Ainda bem que não tive uma congestão e, para minha sorte, Lucia adora o café que eu faço, ou pelo menos diz que adora. Agora vejo que entre a água, o café e o bule tem uma intrigada equação matemática que nem sei se algum físico nuclear, ou algum PhD nas ciências exatas, consegue destrinchar o resultado final. – E você, sabe fazer café? – Aposto um quilo do mais caro café do mundo, talvez aquele retirado do cocô do gato, que você passa longe da sabença. E o que dizer do meu avô, que montou uma das maiores torrefações do estado do Rio Grande do Norte, batizado de Café Vencedor? Será que ele entendia mesmo de café ou será que tudo não passou de intuição de empreendedor? Rapaz, fazer café é coisa séria e nem duvido que daqui uns dias estará nas provas do Enem, ou mesmo na grade de matérias das mais afamadas universidades do mundo. Se já não tiver!

E por falar no Café Vencedor, lembrei de uma peleja publicitária entre dois dos seus principais concorrentes, com nomes do santo, São Luiz e São Braz, numa época em que o segundo, forasteiro das bandas da Paraíba, chafurdava o mercado do RN para ganhar espaço nas mesas dos potiguares. Como naquela época a mídia televisiva era tão cara quanto a hora da morte, o moído se dava através das ondas médias (AM) dos rádios, ou pelas bocas de som das velhas Rurais ou Veraneios de propaganda, mais ornamentadas do que burro de cigano, mas que nem de longe se igualavam na milacria azucrinenta dos atuais paredões de som da mala de um Monza caindo os pedaços. Bem, vendo a briga dos concorrentes tomar folego e cada um anunciando um milagre maior, o Café Vencedor estendeu uma faixa na frente do coliseu da batalha celestial com uma frase que deixou os santos meio tontos: “Na briga entre os santos, fique com o Vencedor”. E assim a paz voltou a reinar durante um bom período, porém, São Braz não ficou com essa espinha atravessada na garganta por muito tempo, voltou ao ringue e ganhou a luta de uma sacada só, até que a Santa Clara botou os olhos em cima da praça de guerra e partiu com tudo para o confronto. Mas aí é outra história!

Vixi, acho que dei um bordo muito longo e sai fora do rumo que ia indo. Meia volta, vou ver! Vamos lá de novo. Pois bem, café tem ciência sim senhor. – Quer saber? – Lá vai.

Nesse mundinho internético de tudo saí, de tudo se comenta e de tudo um pouco se transforma em um muito de uma ruma. Pois num é que uns gringos estudiosos fizeram publicar numa tal revista de matemática aplicada, uma pesquisa que trata do tamanho ideal das partículas do pó de café e quanto tempo a água aquecida deve permanecer em contato com o pó para que a bebida seja excelentemente bem servida em uma xícara. Segundo os cientistas, o objetivo do estudo é oferecer um modelo matemático para desenho e ajuste das futuras cafeteiras, do mesmo modo com são feitos os estudos de engenharia que dão melhorias os carros de corrida. – Se espante não que o negócio é sério!

Os cientistas se utilizam das teorias de estudos de sólidos e fluidos para buscarem a melhor forma do líquido (café) se movimentar dentro das cafeteiras e que assim seja possível prevenir para que o sabor não saia nem tão amargo e nem tão aguado. Eita piula! Dou por visto se eu levasse esse assunto para ser discutido sobre uma jangadinha que descansa nas areias da praia de Enxu Queimado, na hora do pôr do sol. No mínimo eu seria xingado de um repertório mais do que original de impropérios linguísticos. E nem duvido que recebesse um punhado de areia na cabeça, o que seria bem feito. Ainda bem que esse assunto vai ficar apenas por aqui mesmo. Onde já se viu o caboco ter que fazer um curso avançado de matemática para poder servir um cafezinho quente durante uma prosa com os amigos? Será que moça que faz o cafezinho de R$ 0,50 centavos, tomado pelo meu amigo Flávio Rezende, durante suas caminhas matutinas, sabe fazer conta? E o meu irmão Iranilson, cabra bom nos números, será que sabe passar café? Agora deu molesta dos cachorros! Juro que não lembro de ter visto essa tal de conta do café nas velhas e boas tabuadas de papel e nem nas que vinham impressas nos lápis grafite. Será que professora Almira, baluarte do colégio Marista, tinha conhecimento desse assunto. Se tinha garanto que nunca fez uso dessa equação durante suas aulas particulares, pois tomei alguns cafés em sua casa e não lembro de ela ter feito uso do borrão para rabiscar alguma raiz quadrada antes de colocar o pó no coador.

Esse mundo está ficando mesmo muito cheio de veredas esquisitas e quem quiser que se meta a besta de se abestalhar por aí. Nem um cafezinho com a nota mais ou mesmo temos o direito de fazer e tomar. – Sabe de uma coisa? – Eu é que não vou me arvorar em fazer conta para tomar café, pois na matemática sempre passei me arrastando, e vai que eu erre a soma. Eita mundo velho sem eira nem beira!

Nelson Mattos Filho

Uma resposta para “O cafezinho

  1. paulotrigueiro2015

    Nelsinho

    Li todo o texto buscando a fórmula do café perfeito, mas descobri uma porção de velhas lembranças que foi gratificante, talvez bem melhor que descobrir a tal fórmula do café perfeito.

    Abraços

    Paulo Trigueiro

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