Cartas de Enxu 04


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Enxu Queimado, 23 de outubro de 2016

Sabe meu amigo Tonho, a vida por aqui está indo como os alísios e a maré, as vezes rápida, as vezes na malemolência e as vezes tão tranquila que dá para escutar e sentir o pulsar das batidas do coração da natureza. Eu sei que você sabe, mas eu vou dizer: Adoro quando ela está na última condição.

Meu amigo, a eleição por aqui já é passado e, graças aos duendes da história, um dia saberemos quem danado tinha razão nas pelejas palanquianas, onde a retórica nem sempre foi bem utilizado e sobrou interrogações para todos os lados, porém, não deixei de perceber que continuamos personagens dos velhos e engraçados palcos das marionetes. Ei, ouvi dizer que por aí afora a coisa caminhou na mesma pisadinha deslavada das promessas e até um tal de rei dos vídeos eróticos foi eleito nos limites de uma bela e litorânea capital nordestina, e o cabra se arvorou a fazer campanha em cima de uma bicicleta modelo barra forte. Homi, e num é que ganhou bem ganhado! Mas sabe de uma coisa, esse papo de se arvorar em falar de eleição é coisa de danação e quero me meter com essa galera não, pois de vez em quando um amigo velho passa a ser inimigo novo e inimigo é coisa que não devemos guardar no peito, ainda mais quando a fronteira entre o novo e velho é escancarada pela desrazão. E como diz nosso amigo Pow Pow: Desrazão é a peste bubônica.

Gaúcho, na verdade nem sei como eleição e peste vieram parar nessa carta. Vai ver que as duas palavras fazem parte da mesma família e uma está ligada a outra, mas como elas entraram aqui eu é que não sei e até tento saber, mas sei não. Homi, deixe quieto que vou acabar me complicando com os amigos velhos e diabo é quem quer inimigo novo.

Tonho, as galinhas por aqui continuam gordas e servindo de aposta para tudo que é disputa. Nem sei de onde aparecem tantas penosas, pois apostas por aqui tem uma a cada sombra de árvore. E tem árvore viu! Na sombra em frente à casa de Pedrinho parece até a cobertura de um parlamento ou um tribunal de júri, pois de tudo sai, de tudo se fala, de tudo se resolve e embaixo daquela sombra até o mundo é outro. – Duvida? – Então venha ver! Dia desses, depois de um debate sobre comida boa e ruim, decidiu-se fazer uma noite gastronômica e depois de traçar as regras e anotar os convidados, a coisa engrenou de vez e foi a vez de botar a roda para rodar. Na noite combinada estavam todos lá, um prato preparado por cada um e deu-se início a degustação que estava boa que só vendo. Pois não é que já querem fazer outro e agora com eleição do melhor prato. É assim que toca a banda e é assim que vamos dançando.

E por falar em chuva, que ainda não falei, mas estou falando, as nuvens por aqui estão relutantes em tomar gosto de chuva e nem sinal de um pinguinho sequer. Os mais velhos afirmam que elas vão se formar e vem chuva que nem presta, mas que nessa época do ano, mês de outubro, esses ventos ventosos já deviam terem tomado o rumo de casa. – E o mar? – Rapaz, o mar está bem encarneiradozinho e os botes estão que nem burro bravo nas ancoragens. De vez em quando a amarra de um vai para as cucuias e a turma do deixa disso tem que nadar para pegar o bicho pelo rabo. É luta, mas é mais um movimento para render assunto e teima.

Ei, minha criação está crescendo. – Criação de que? – Eu não lhe contei? Pois vou contar agora: Rapaz, tenho dois carneiros, um coelho, uma ruma de cachorro e alguns gatos noturnos. Os carneiros funcionam mesmo que despertador suíço e são ousados que só vendo. Os bichos batem o ponto nos pés de seriguela as cinco e trinta da matina e lá vai eu acordar, com a ressaca que tiver, para botar os danados para fora do terreiro. – E você pensa que eles tomam ciência? – Pois tomam não! Quando me deito novamente para prosseguir no sonho, lá vem os pestinhas de volta e lá vou eu botar moral no pedaço. – De quem são? – E eu lá sei, só sei que é assim e pronto!

Quanto aos cachorros e os gatos, a história é diferente, pois os bichos são matreiros, chegam pisando em ovos e quando a gente vê, o lixo está espalhado pelo meio do mundo. Olho para um lado, olho para o outro e só vejo a sombra faceira virando a esquina com a cara mais deslavada do mundo. Já com o coelho a emoção é outra, porque o bicho parece – parece para ele – que já faz parte da casa. No começo ainda tinha medo quando chagávamos perto, mas agora, ele está nem aí e de vez em quando Lucia tem que expulsá-lo de dentro de casa. Sei não viu!

Sim, já ia esquecendo de falar dos pés de acerola. Meu amigo, algum filho de sei lá o que, botou o olho nas acerolas e nunca mais tive o prazer de tomar um suquinho sequer. Dizem que olho grande é o raio! Deus é mais!

Pois é Tonho Carpes, por enquanto é isso. Até mais ver!

Nelson Mattos Filho

2 Respostas para “Cartas de Enxu 04

  1. Rapaz, que carta arretada de bunita!
    Muito bacana a ideia de escrever cartas colocando a gente a par do que se passa nesse paraíso.
    Obrigado!

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