De Enxu a Namíbia ou de lá pra cá


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Tanto faz, é, tanto faz…Tanto o Mar daqui quanto o Mar de lá, o Mar é o Mar, e como diz Caymmi: “…que carrega com a gente pra gente pescar…”, porque “o pescador tem dois amor, um bem na terra, um bem no Mar….”.

E é a preguiça, a rainha da inspiração, que nos leva a andar bestando pelas areias de Enxu, pensando na Namíbia do lado de lá, pensando em Noronha que é bem acolá, sonhando, sonhando um dia voltar.

Quando a gente volta do Mar pra beira do Mar, um pedaço ficou por lá, e o pedaço de cá quer se juntar, como a lua cavaiando que fica ali a olhar Vênus a seu lado querendo abraçar, e os dias passam e o afastamento se faz pouco a pouco, numa sofrência do apartar, sou eu saindo do Mar, partindo pra longe querendo ficar, ficar…

Estou eu na rede armada na varanda, abestado com a harmonia orquestrosa das palhas do coqueiral regidas pelo sopro de um vento ligeiro, quando toca o telefone, naquele velho e característico trim para anunciar boas novas e do outro lado da linha, vem a voz arrastada de um cearense arretado dizendo para preparar mais um armador de rede que ele com a viola no saco para tocar toadas e prosear. E não é que veio mesmo! O cabra da peste estava vindo das águas oceânicas de Netuno e depois de festejar com cantorias a rainha Janaína, desembarcou da Nau do velho marinheiro Leo, no enigmático porto do Jacaré, em Cabedelo/PB sim senhor, pegou uma lotação e veio desaguar nessa Enxu de mil encantos. As amizades são assim mesmo e o caboco bate mundos apenas para ter o prazer de avistar o outro e dar um abraço.

Pois foi, o Mucuripe chegou, acompanhado de sua Neguinha, se armou da viola e se danou a tocar e prosear durante dois dias e duas noites. Foi tanta cantoria e tanta conversa entremeada entre acordes e canções, que o tempo passou e ninguém nem se deu de conta. Como é gostoso sentar numa varandinha praieira para brindar o histórico das boas amizades. Falar dos astros, das voltas que a maré dá, de Lua cavaiando, de galinhas poedeiras, de retratos, de jangadas e paquetes, das histórias de pescador, rir do nada e de tudo e entre um sim e um não, o toque de um reisado para eternizar a visita. Nesses festejos das amizades os problemas não têm vez e ai daquele que chegar trazendo notícia entristecida, pois vez não vai ter não e ainda vai ter que amargar uma piada com o tema da desgraceira. Nesses momentos o caboco ri de tudo e até do desafortuno de ver sua redinha limpinha sendo mijada por um garotinho, já próximo da hora de botar os olhos para dormir. Sem ter o que dizer, ele diz para a mãe da criança: – Tem nada não mulher, eu já estava pensando mesmo em dormir no chão! Ah condenado!

Pois é, amizade é assim e nasce de um nadica de nada, as vezes até de um esbarrão desencontrado e quando o cabra dá por fé, já está contando coisas da sua vida para o amigo novato. Pois digo que foi assim que surgiu minha amizade com o Mucuripe: Estava eu sentado no cockpit do Avoante, atracado ao píer do Iate Clube do Natal, quando ele surgiu, se roendo de curiosidade e desejo para navegar no Rio Potengi. Olhei para aquele sujeito que não senti muita firmeza e falei: – Hoje tem jeito não, mas se você vier amanhã, nós vamos no Avoante. Rapaz, o cearense só faltou ficar sem fala, mas falou: – Pois eu venho amanhã logo cedinho. Pois não é que ele veio mesmo e já chegou marcando o terreno para solidificar amizade. Eita fi da peste!

Da amizade eu já falei, como já falei de Enxu, mas falta falar da Namíbia que entrou no título aqui, porém, essa prosa é longa e aconteceu lá no mar do Senhor do Bonfim. Agora danou-se, pois não sei se reconto essa peleja ou passo por cima, mas acho que vou recontar, nem que seja um tiquinho que é para você se assuntar: Certa feita o Mucuripe embarcou no Avoante, na Ilha de Itaparica, munido de um sextante, pois queria tirar uma visada para avistar a Barra do Paraguaçu, ponto do nosso destino. Entre uma olhada e outra no astro rei do céu, ele se desatou a fazer contas e quando anunciou o resultado da matemática disse que estávamos na costa da Namíbia. Claro que foi pra mode fazer graça, pois o cearense é bom nas coisas dos astros, mas fiz um moído danoso e que virou causo de riso no meio da turma do mar.

E foi na pisadinha da prosa e canção, embaixo da varandinha, que Mucuripe falou: – Vamos escrever um texto a quatro mãos para celebrar essa visita? Topei na hora e ele disse que iria dar o mote. O que ele escreveu está poetado lá em cima, em formato itálico, e quando sentei para escrever minha parte, ele pegou na viola e se danou a cantar assim: Silêncio, por favor…. Não diga nada sobre meus defeitos…. Hoje eu quero apenas, uma pausa de mil compassos…. Porque hoje eu vou fazer/Ao meu jeito eu vou fazer/Um samba sobre o infinito. Depois, botou a viola no saco e se mandou pra Brasília.

Nelson Mattos Filho 

11 Respostas para “De Enxu a Namíbia ou de lá pra cá

  1. Nelson Matos, você está se tornando um ícone de contador de estórias ou será que já se tornou. A verdade é que você nos enobrece com suas inesquecíveis estórias de fictícias ou não.

  2. Ô fds arretado macho, nesse compasso violado entre Enxu Queimado e Namíbia, cheguei adiantado demais. Viva a licença poética para tudo. Parabéns Nelson.

  3. Êta turma linda de gente bacana, adorei toda essa prosa. Abs meu amigo Capitão Popó.

  4. Que delícia de história. Nós do leoa tb corremos o risco de estarmos hoje na Namíbia. Abração da familia leoa.

    • diariodoavoante

      Daiane, que bom receber esse comentário da mãe leoa. Grande beijo nessa família que adoramos, Nelson e Lucia

  5. Nelson, me renovo ao ouvir as estórias por vc contadas! Um fraterno abraço para vc e Lúcia!

  6. Pois é meu amigo, cá estou eu no aconchego de minha redinha na varanda ouvindo o piado do tempo, é, o tempo pia, pia e repia fazendo zoada nos ouvidos de um cearense sonhador, aperreado de saudades do Mar, dos amigos do Mar, do batido do Mar, da preguiça de Enxu Queimado, do modesto café da manhã com lagosta preparado com tanto carinho pelas mãos artistas da Capitã Lúcia.
    E, depois que lhe conheci, meu amigo, de tanto ler suas prosas, me abestalhei também querendo brincar com as letras, com as rimas desencontradas feito vagas perdidas querendo encontrar um caminho no meio do Mar, no rumo de Enxu ou da Namíbia, tanto faz, pois é nesse moído que nossa amizade se criou e avoou nas asas do Avoante pras bandas de lá pra cá….agora é esperar, esperar…

    Mucuripe.

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