UAI! Parte 11


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Peço que não se apeguem aos comentários desairosos, na página anterior desse relato, sobre o rio do Carmo que banha a cidade de Mariana, porque ele não está solitário no abandono. Todos os rios brasileiros, todos sem exceção, estão jogados a própria sorte e assim vamos seguindo em frente.

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Confesso que sabia pouco, ou quase nada, sobre a cidade de Mariana, até o desgraçado acidente da barragem inserí-la no noticiário mundial. O município com 360 anos de fundação e 59 mil habitantes tem um passado glorioso. Foi primeira vila, primeira capital, sede do primeiro bispado e primeira cidade a ser projetada em Minas Gerais. O nome é uma homenagem de Dom João V a sua esposa, rainha Maria Ana D’Austria. Em 1945 o presidente Getúlio Vagas concedeu a cidade o título de Monumento Nacional, por seu significativo patrimônio histórico, religioso e cultural.

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Chegamos a cidade pela estação do trem e sinceramente não gostei da parte moderna, porém, bastou uma breve caminhada para desembocarmos na parte histórica e sermos tragados pela magia da arquitetura colonial. Há quem diga que a arquitetura das cidades mineiras se repete, mas é aí que mora a beleza, porque é um conjunto de fazer inveja ao mundo e quase tudo em elevado grau de preservação. O centro histórico de Mariana é uma pintura dos deuses das pranchetas, onde se destacam a Casa da Câmara e Cadeia, as igrejas da ordem terceira de São Francisco de Assis e Nossa Senhora do Carmo e um pelourinho, congregando assim os símbolos da justiça, poderes civil e religioso. Caminhar pelo bem cuidado largo ao redor dos monumentos é um momento de reflexão e mais um resgate da história do Brasil colônia.

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Como aconteceu nas outras cidades que visitamos, a nossa passagem por Mariana também foi meteórica e deixamos muito a ser visto, o que é um pecado para quem deseja conhecer Minas Gerais, um estado dotado de um acervo histórico fora do comum. Mas o tempo é o senhor da razão e a rotina de um turista depende de uma complexa engenharia para acomodar sonhos e desejos. Valeu ter caminhado pelas ruas de Mariana e ter visitado um pouco de suas entranhas. O munícipio é muito maior do que a tragédia que se abateu sobre ele e seu povo tem feito um esforço enorme para limpar a lama da irresponsabilidade sem ferir sentimento de amor-próprio. Tomará que o futuro reserve a cidade o retorno aos gloriosos dias que marcaram o passado e que a sanha dos interesses exploratórios dos homens siga por caminhos que foquem na retidão de caráter.

20160529_1152071 maio IMG_0004 (772)1 maio IMG_0004 (778)1 maio IMG_0004 (779)1 maio IMG_0004 (781)1 maio IMG_0004 (785)

No retorno a Ouro Preto, que ficou sendo nossa base na região, tivemos uma das melhores surpresas gastronômicas de toda a viagem. Ao caminhar pelo centro em busca de um restaurante para almoçar, fomos abordados por um guia e este indicou o restaurante Conto de Réis, localizado em uma íngreme ladeira, que só em olhar é capaz de levarmos um escorrego. O restaurante é instalado em uma senzala de um casarão do XVIII e apresenta no cardápio a mais tradicional e farta cozinha mineira. Inesquecível!

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O dia seguinte pegamos a estrada e descemos para o Sul para conhecer a região das manifestações, que envolvem as cidades de Prado, Tiradentes e São João del-Rei. No caminho entramos em Congonhas, cidade famosa por resguardar a escultural obra “Os Doze Profetas”, de Antônio Francisco Lisboa – o Aleijadinho. A obra é exposta no adro da Basílica do Bom Jesus de Matosinhos e se completa com as seis capelas que contam a Via Sacra de Jesus Cristo, formando um conjunto paisagístico de encantar. Outro destaque da cidade é o prédio da Romaria, que abriga museus e centro cultural, e sua história está ligada aos milhares de romeiros que visitam a cidade em uma das mais tradicionais festas religiosas de Minas, que a do Bom Jesus. A visita a Congonhas é imperdível.

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E por falar em Aleijadinho, a história do mais importante artista do barroco mineiro é envolta em um véu de lendas e controvérsia. A vida do artista é contada a partir de uma nota biográfica escrita quarenta anos após a sua morte e a vasta coleção de sua obra, mais de 400 trabalhos, carecem de comprovação documental. O apelido foi devido a uma doença degenerativa que não se sabe a causa. Aleijadinho, o maior e mais reconhecido artista plástico, morreu pobre, doente e abandonado, como a grande maioria dos gênios artísticos, na cidade de Ouro Preto, em 1814. A data de seu nascimento também carece de pesquisa, mas contam que ele nasceu em Vila Rica, em 1730.

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Deixamos Congonhas envolvidos pela beleza da obra dos Doze Profetas, mas não deixei de notar que aos pés dos profetas, sentado na escadaria da igreja, um velho mendigo estendia a mão em busca de migalhas. Seria um reflexo do final da vida do artista ou seria um retrato vivo dos profetas?

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A viagem segue!

Nelson Mattos Filho/Velejador

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