Arquivo do mês: junho 2016

Avoante avoou

3 Março (258)

Voa Avoante, voa e vai fazer seu ninho em outro coração, mas saiba, e sei que você sabe, que meu coração é seu e dentro dele ficaram os galhinhos secos onde você deitava o corpo e se aninhava para me encher de alegria e paz.

Obrigado por tudo meu amigo. Obrigado pelo carinho, pelo conforto, pela segurança, pela paz, pela alegria, pelo prazer, pelos risos, pelos choros, pelas aflições, pelos ensinamentos e por ter me mostrado horizontes que jamais imaginei existir.

Foram dezesseis anos de cumplicidade, desses, onze anos e cinco meses morando a bordo. Uma vida recheada de alegrias, felicidades, amizades, aventuras, histórias, causos, navegadas – algumas boas outras nem tanto – e muito companheirismo, aconchego e carinho recíproco. Essa foi a nossa vida a bordo do Avoante durante todos esses anos. Agora chegou a hora de dizer adeus para seguirmos caminhos opostos. Nós tomaremos o rumo de terra, ele segue sua sina de bom marinheiro e tornará a fazer a alegria de novos companheiros, pois essa sempre foi sua missão.

Pois é gente, o Avoante não é mais nosso e não tenham dúvidas que foi a decisão mais difícil e complicada que já tomamos. Depois de onze anos e cinco meses precisávamos retornar para a loucura das cidades e tentar zerar pendências que foram sendo deixadas de lado. O mundo cobra, a vida cobra, o corpo cobra, a cidade cobra e diante de tanta sincronia de cobranças, as amarras voltam a ser lançadas sobre o caís.

– Planos de retornar ao mar? – Claro que sim, pois sobre o mar a vida é mais sensata, lógica, simples, descomplicada, desapegada e feliz, muito mais feliz! Demos sim uma guinada de 180 graus, mas é assim que faz o povo do mar quando precisa navegar para frente e por mais que tente orçar os ventos não permitem.

Continuarei aqui nesse cantinho a falar não somente do mundo fascinante que é o mar e tentando repassar os ensinamentos que aprendi, porque, assim como as fragrâncias e os sabores, os temas da vida são diversos. Continuarei com sempre fiz: Escrevinhando sobre o cotidiano da vida, das cidades, das coisas, dos mistérios, dos segredos, dos homens, da natureza e tudo de forma livre e desapegada, como bem me ensinou os deuses e seres do mar.

Avoante, avoete, arribação, pomba-de-bando, arribacã – nomes populares para a ave Zenaida Auriculata – é ave migratória que está sempre a se deslocar entre as Antilhas e a Terra do Fogo, tendo a caatinga brasileira região de pouso preferido. O Avoante migrava pelos mares e dele sempre recebeu carinho e permissão para seguir adiante.

Voa avoante, voa e faz seu ninho em outras paragens, mas não deixe nunca de ouvir o chamado do mar, porque lá estão as verdades do mundo. É no mar que a vida se refaz e o homem se recria.

Outros rumos virão, mas por enquanto o bordo é de terra!

Nelson Mattos Filho/Velejador

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Uai! Parte 2

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“… Velejar, velejei/No mar do Senhor/Lá eu vi a fé e a paixão/Lá eu vi a agonia da barca dos homens…”

Diz à lenda que na Bahia a pressa caminha a passos muito lentos, se assim for, nada será mais produtivo do que viagem de baiano a Minas Gerais. Nas Alterosas quem andar com pressa perde a essência da visita.

Encerrei o texto anterior falando do Instituto Inhotim e da beleza sem igual que existe em seus domínios, porém, falei tão rápido que agora me vi perdido sem saber se estava caminhando para frente ou para trás. Pera lá que eu não sou baiano, mas é bom dizer assim: Prá que essa pressa meu rei?

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O Inhotim é um programa de um dia ou mais e para ser bem aproveitado a pressa tem que ser deixada na portaria. O museu é dividido em rotas, que a administração chama de eixos, e nos eixos, que tem as cores laranja, amarelo e roxo, estão cravadas as galerias, as obras, os jardins e os serviços de apoio ao visitante. Dois restaurantes dão suporte gastronômico da melhor qualidade e com preços convidativos. Na recepção uma diversificada lojinha de souvenir não deixa ninguém esquecer que esteve por lá.

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Na minha singela opinião, a visita deve ser feita a pé e retirando da proximidade estonteante da natureza o máximo de aproveitamento. São tantos recantinhos saudáveis, aconchegantes e envolvidos em um misterioso silencio ensurdecedor, que duvido ter alguém que não se pegue refletindo nos segredos da vida. As galerias nos transportam a um mundo de idéias jamais imagináveis na cabeça de um pobre mortal. São artes saídas da visão de artistas que expõem ao mundo a mistura da beleza com a crueza da vida e da morte, sem se perder no vazio da incógnita. Tudo ali é fantástico!

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Mas se o visitante preferir poupar as pernas e as reflexões, que foi o nosso caso, basta comprar um bilhete para os carrinhos movidos à energia elétrica que dão um empurrão em alguns pedaços do percurso. Fizemos essa escolha para adiantar o passo, porém, ficamos tão fascinados com a paisagem, com as galerias e com as esculturas expostas ao ar livre, que o dia passou e não conseguimos conhecer tudo.

1 maio IMG_0004 (68)1 maio IMG_0004 (73)Inhotim. – E de onde saiu esse nome tão estranho? Uai, é muita história! Existem vários contos para o mesmo tema, mas nada é comprovado. Uns dizem que se originou em um minerador inglês chamado Sir Timothy que teria morado na área onde hoje é o Instituto. Aportuguesaram o Sir que virou Senhor, que amineiraram de Nho e o Timothy apequenou para Tim. Juntaram o Nho com o Tim e deu no que deu.

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Outra vertente caminha no rumo, e existe um registro comprovado nos idos anos 1865, de um lugar chamado nhotim, onde morava um certo João Rodrigues Ribeiro, filho de Joaquim, e que a localidade foi grafada como Nhoquim. Será?

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O nome Joaquim aparece ainda em uma história contada por uma antiga moradora de Brumadinho, mas que tem também o personagem do Sir Timothy e essa mistura de nome descambou em Inhotim.

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E como cada conto gera outro conto e entre uma pitada e outra o mineiro vai acrescentando mais contos, tem quem aposte num outro inglês, que andou chafurdando pela região entre os anos 1868 e 1886, que se chamava James Wells. Conta o conto que ele conversou com um escravo que caminhava pela estrada e o negro só balançava a cabeça e respondia: “N’hor sim”. Eita mundo velho cheio de história!

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Eu me ative nessas explicações ao visitar o site do Instituto, que tem dados colhidos pelo Centro Inhotim de Memória e Pesquisa, criado em 2008 para resgatar histórias e tradições da região. O Inhotim interage com tudo que está em seu entorno. O Instituto é quase completo nos detalhes. Eu disse quase, pois sentimos falta de informações, como nome, na grande maioria das arvores que formam o parque. Questionei sobre isso com alguns funcionários e eles disseram que os estudos já estavam em andamento e muito em breve a flora estará devidamente batizada.

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Falar da grandiosidade e beleza do Instituto Inhotim é fácil, até porque um museu inserido em uma área 140 hectares de terra merece o reconhecimento. O Inhotim recebe visitantes de várias partes do mundo e de diferentes formações acadêmicas. Mais de 2 milhões de visitantes já caminharam em seus eixos e galerias e hoje, olhando para trás, sinto saudade e uma pontada de tristeza em não tê-lo conhecido por completo. Quem sabe um dia!

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O carioca Milton Nascimento, o mais mineiro dos mineiros, na letra da música, Paixão e Fé, que copiei a estrofe que abre esse texto, canta assim: “… Já bate o sino, bate no coração/E o povo põe de lado sua dor/Pelas ruas capistranas de toda cor/Esquece sua paixão/Para viver a do Senhor…”

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O povo mineiro é pura fé, portanto, vamos a ela!

Nelson Mattos Filho/Velejador

De volta a São Tiago do Iguape

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Vai completar um ano que estivemos em São Tiago do Iguape pelo primeira vez, foi no começo de julho de 2015, e nesse, 17/06/2016, retornamos ao pequeno distrito, que pertence ao município de Cachoeira/BA, para Lucia aprender os segredos para produzir o famoso camarão defumado, iguaria que dá ao acarajé e ao abará um toque de sabor mais do que especial. Antes de entrar na seara da culinária, vou comentar um pouco do que vi um ano depois. Para começo de conversa dessa vez não fomos de barco e sim de carro pelas estradas da vida. Para chegar lá é fácil e nem é preciso pedir ajuda aos duendes do google maps. Partindo de Salvador, pela BR 324, em direção a Feira de Santana, segue por mais ou menos 45 quilômetros até encontrar a indicação para o município de Santo Amaro da Purificação. De Santo Amaro segue pela estrada para Cachoeira e 1 quilômetro após o posto da Polícia Rodoviária Estadual, vira a esquerda – ao lado de duas palmeiras – e depois é só seguir em frente. A estrada termina em São Francisco do Paraguaçu, porém, São Tiago do Iguape fica 6 quilômetros antes.

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Achei a cidadezinha de Iguape bem mais bucólica do que há um ano, talvez porque naquele tempo estivesse se preparando para a sua festa maior em homenagem ao padroeiro. Como dessa vez cheguei com mais de quinze dias de antecedência, a tranquilidade reinava na praça. Enquanto Lucia entrava na aula de defumação com a professora Dona Calú, eu peguei a máquina fotográfica e fui dar uma caminhada até a beira do mar, pois é nele que eu me acho.

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Revi a bela igreja, fotografei canoas, apontei a lente para o rio, conversei com alguns pescadores que chegavam da lida e notei a existência de um pequeno canteiro de obras que soube se tratar da construção de um píer público para embarque e desembarque.

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Será verdade ou será mais uma obra para azeitar as eleições municipais que se aproximam?

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De volta a mercearia de Dona Calú e Seu Jarinho me aboletei numa cadeira e fui prosear com os locais, numa prosa boa, divertida e regada com cerveja gelada e acompanhamento de camarão defumado e amendoim cozido. Entre uma conversa e outra Seu Jarinho disse assim: “…aqui tinham muitos barcos a pano que navegavam até Água de Menino, levando e trazendo mercadoria, mas a chegada do motor nos barcos,  em vez de contribuir acabou com tudo”. Disse ainda que o pai era proprietário do Saveiro Macapá, doou a embarcação para o mestre, esse para o filho e anos depois, em péssimo estado, o Macapá encalhou em um banco de areia e foi abandonado para o sempre. Hoje a frota de Iguape se resume a poucas canoas de tronco, outras de fibra e todas movidas a motor. Uma pena, mas é assim!

20160617_122920Enquanto o bate papo corria solto lá fora, Lucia dava seguimento aos seus estudos e o quando o vento batia, chegava até nós o cheiro do camarão sendo envolvido pela fumaça. Mais conversa, mais causos, mais risos e assim a aula terminou, o almoço foi servido – moqueca de siri – e podemos provar o resultado dos ensinos. A aluna foi aprovada com nota máxima. Pense num camarão defumado que ficou bom!

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Muitos baianos, e não baianos, hão de dizer que essa conversa de camarão defumado em acarajé é balela e tem até quem afirme que o bom mesmo é o camarão cozido. É difícil se chegar a uma unanimidade em matéria de acarajé, ainda mais em um Estado que tem um tabuleiro em cada esquina e onde cada freguês é fiel a sua baiana de preferência. Eu já bati meia Salvador em busca do melhor acarajé e confesso que gostei de quase todos. Alguns vem recheados com camarão cozido, outros com o defumado e para mim o mais saboroso é o segundo, além de ser o tradicional.

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Em 2015 Lucia fez um curso de acarajé e abará, no Senac do Pelourinho, e faz as iguarias para baiano nenhum botar defeito, mas faltava aprender a defumar o camarão, o que não tem muitos segredos, porque ela quer fazer em Natal/RN e lá não vende esse tipo de camarão, ou se vende nunca encontramos. Sabendo ela que os que eram defumados em Iguape eram os mais deliciosos, se prometeu que aprenderia a fazer e pediu ajuda a Dona Calu que se prontificou a ensinar.

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Pronto, agora o tabuleiro de Lucia está completo, em breve vamos tirar a prova dos nove e para quem não tiver a alegria de provar, postarei a fotos aqui para deixar muita gente com água na boca. Me aguarde!     

Conversa alinhavada

03 - março (88)

Nas ondas de um vento que de tão sem pressa mal assanhava as penas das pequeninas gaivotas que voavam despretensiosas sobre um cardume de peixes, o Avoante navegava em câmera lenta e em sua esteira espumas brancas teimavam em não se afastar. Das sombras da velha ilha dos tupinambás ecoavam sons abafados de uma humanidade tão sem causas e extremamente inquieta. Por que será que temos tanta pressa?

Olhando do meu cantinho no cockpit aquele quadro estático e flagrantemente vivo, meu coração se enchia de boas e felizes recordações e sonhos futuros, mas uma pontada de estranheza me cutucava o juízo diante de lembranças de conversas alinhavadas entre felizes homens do mar. E lá ia o meu veleirinho sem nenhum rancor diante daquela brisa que era nadica de nada, que o fazia patinar de um lado para outro a procura do sopro que o levasse a seguir o rumo que eu, seu amigo quase fiel, havia indicado.

Das lembranças das conversas surgiam resquícios de frases, fugidas da destemperança de velhos e novos navegantes, que no afã de adiantar a pressa, a sorte e razão, hasteavam a bandeira da ligeireza, sem ao menos pedirem perdão aos seus veleiros, e cravavam no peito o broche da velocidade mínima para o bom conforto a bordo. Com o eco de palavras tão atabalhoadas e me achando um infeliz abandonado pela sorte da boa velocidade, busquei no branco das velas a leitura para aquele vento tão sem graça que fazia o Avoante estacionar no espaço entre a proa e a popa.

Uma lancha cruzou a nossa proa rasgando água e de suas entranhas vieram gritos de festejos e brindes pela vida. Do meu cantinho observei a demonstração de velocidade e a fugaz alegria que ela proporciona. Na popa surgiu uma velinha branca, mais outra e mais outra, agora formávamos uma flotilha com quatro veleiros navegando na maciota daquele oceano sem vento.

Na segunda visada no rumo da popa as velas aumentaram de tamanho e antes que pudesse observa a terceira vez, elas já seguiam serelepes na proa do meu veleirinho quase parando. Seriam aqueles adeptos da velocidade mínima ou seria eu que insistia em ser agraciado pelas lufadas, que não vinha, do grandioso deus dos ventos e teimosamente ficava ali a ver navios, lanchas e veleiros estranhamente velozes?

Assim como quem não avisa, um ventinho foi chegando displicentemente e sem pestanejar o Avoante avançou com as velas ainda se espreguiçando e forçando um alongamento sem nenhuma intenção. A direção agora era outra e o que era perto o bastante para ser sonhado, ficou longe que nem uma saudade. E lá vai o veleirinho em busca de boas novas e tentando apressar o passo para o sei lá onde.

Olhei em volta e nem sinal das três velinhas que navegavam entristecidas pelos ventos quentes de um porão apertado. Não tinha o que reclamar e muito menos maldizer a minha sina de homem do mar e dos ventos. Era essa a minha escolha e nada no mundo iria tirar de mim aquele prazer amalucado de navegar para um lado na esperança de ir para outro. Pronto! Era disso que eu estava precisando para fazer meu veleirinho navegar em paz e com satisfação. De pensamentos de compreensão. De buscar na incógnita a força motriz que me moveria para frente. De sair do marasmo do ócio, encarar o vento e colher a essência de sua alma.

Precisava sim estar navegando em rumo oposto para ter a certeza que estava no rumo certo, porque é assim que fazem os vencedores, os idealistas, os reacionários, os amantes, os loucos, os vivos, os valentes e todos aqueles que trazem no sangue o antídoto para curar as adversidades. No mar não existe o mínimo e muito menos o máximo, porque o mar não respeita valores exacerbados. O mar só tem uma razão e essa é sem rosto, sem emoção e tão fria quanto o gelo dos polos. O mar não reconhece os valentes e sim os dotados de inteligência para reconhecer o medo. E o vento? O vento é aliado fiel do mar e grande maestro da orquestra de Netuno. É de sua batuta que saem os acordes, os sons, os rufos dos tambores e a maciez da sonoridade.

Precisava saber que estava longe para entender que estava tão perto de mim. Precisava ver meu destino se afastando para reconhecer que minha alma estava feliz e meu coração pulsava forte de alegria. Precisava sentir as velas enfunadas para espantar de minha mente aquelas conversas alinhavadas que falavam de velocidade mínima e máxima. Precisava ter chegado à hora de dar o bordo para lembrar a letra da música que diz: …De jangada leva uma eternidade/De saveiro leva uma encarnação…

Para que a pressa se a vida é tão sem lógica? Para que a pressa? Para que embarcar em um veleiro sabendo que ele é um fiel escudeiro dos ventos, um servo obediente das águas e tentar corromper sua alma?

Depois de oito horas dei por encerrada as quinze milhas navegadas e estava feliz e em paz ao lado do meu Avoante. “…Antes longe era distante/Perto, só quando dava…”

Nelson Mattos Filho/Velejador

Mergulhadores encontram corpo da criança atacada por jacaré em lago da Disney

lagoA polícia do condado de Orange, Flórida, anunciou que o corpo do menino de 2 anos que foi arrastado por um jacaré, fato noticiado aqui na postagem, O jacaré, a criança e os racionais, foi encontrado praticamente intacto a dois metros de profundida e a cerca de 10 metros de onde ocorreu o ataque do animal. As autoridades acreditam que a criança morreu de afogamento. Mais de cinquenta pessoas participaram da busca, entre eles mergulhadores da Marinha, que tiveram apoio de um helicóptero, um sonar e especialistas do órgão ambiental da Flórida.

O velejador e a galinha. Ou será o contrário?

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Na época das grandes navegações e dos descobrimentos os navios saiam do porto abarrotados de bichos para que servissem de alimento aos marujos e quando chegavam em terras errantes parte da fauna era desembarcada para ajudar na invasão e encher os olhos alarmados dos nativos. A bicharada servia também de moeda de troca e nem duvido que o troca troca era grande. Devia ser um tal de trocar galinha por apito, apito por porco, porco por aranha, aranha por cobra e assim por diante, até chegar na confusão que é hoje. No mundo da navegação moderna a bicharada continua servindo a bordo, mas não – pelo menos eu acredito – pelo aspecto culinário e sim de companhia. Cachorro, gato e papagaio são os mais requisitados, porém, tem quem convoque outras espécies e já soube que tem até cobra passeando de veleiro pelos sete mares. O papagaio de pirata é o mais famoso, até pelas estripulias de seus donos e também por posar para a eternidade em um rótulo de rum. Agora quem deseja tomar a fama do papagaio e a galinha Monique, que navega serelepe pelo mundo a bordo do veleiro Yvenic, com seu comandante e faz o maior sucesso nas redes sociais. Ela já foi vista toda agasalhada caminhando sobre a neve do Ártico, já tomou banho de sol nas praias caribenhas, já fez bossa em Saint Bart e até carcarejou nas Ilhas Canárias. Monique é o bicho, ou melhor a ave! O velejador Guirec Soudée, francês que decidiu ganhar os mares em 2014, diz que optou em levar uma galinha a bordo pensando, além da boa companhia, nos ovos que colheria diariamente. Por isso que o povo diz que no mar tem maluco pra tudo e ainda sobra um bocado pra tocar gaita. Tomará que Guirec não ancore seu veleiro em Enxu Queimado, minha praia do coração lá no Rio Grande do Norte, em um sábado de aleluia. A história da galinha Monique e seu comandante está na página do Facebook do velejador e é arretada.   

O jacaré, a criança e os racionais

alx_mundo-jacare-disney-20160615-001_originalO reino animal tem suas leis e essas passam a anos luz do querer dos humanos. Os animais respeitam suas regras e fazem delas a fonte de sobrevivência. Os humanos fazem da sobrevivência uma afronta constante as regras. Animais e homens jamais entraram em acordo quanto a esses fatores essenciais a sobrevivência de ambos e a conta será sempre desfavorável aos primeiros, porque ao serem taxados de irracionais podem ser abatidos sem perdão pelos segundos que se declaram racionais e por isso se acham donos da verdade, da razão e das leis. A inocente brincadeira de uma criança de dois anos em um lago no condado de Orange, na Flórida, dia 14/06, acabou lhe tirando a vida e em vez das autoridades caírem em cima dos pais ou responsáveis para cobrar explicações, acharam por direito exterminar jacarés. A criança estava sentada na beira do lago com os pés na água e foi arrastada pelo animal. O pai ainda tentou, sem sucesso, resgatar o filho das mandíbulas do jacaré, mas o bicho foi mais forte. A tragédia aconteceu nos domínios da Disney e segundo funcionários do local, no lago existem placas proibindo nadar e alimentar os jacarés, mas as pessoas insistem em descumprí-las. Nós, os racionais somos assim mesmo! As autoridades já capturam e mataram quatro jacarés e não acharam sinal da criança. Agora eu pergunto: Quantos irracionais ainda serão sacrificados pelos racionais e em nome do que ou de quem?  Fonte: veja.com.