O catamarã de velocidade – III


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Digo que não é fácil levantar âncora quando o clima e os amigos conspiram para que fiquemos mais um pouco. Na Barrinha dos Marcos/PE foi assim, um ajuntamento de fatores e carinho a nos prender, mas tínhamos que seguir viagem, porque o destino final de nossa velejada estava umas tantas milhas mais ao sul.

Assim que o dia amanheceu preparamos o Tranquilidade e atracamos próximo ao píer da futura marina Angra da Ilha, de propriedade do velejador pernambucano Cleidson Nunes, mais conhecido por Torpedinho, e de mais dois sócios. A marina ainda está em construção, porém, já podemos notar que será um empreendimento da melhor valia para o mundo náutico de Pernambuco e do mundo. A Barrinha é um porto dos mais abrigados e dotado de belezas paisagísticas de encantar. Atracamos na marina para reabastecer os tanques de água do Tranquilidade e receber o amigo Elder Monteiro que voltou a bordo para nos desejar boa viajem e ainda trouxe de presente ovos de galinha caipira e pata, produção da fazenda Belo Horizonte. Segundo Elder, o ovo da pata é tido pelo sertanejo como alimento afrodisíaco. Pelo sim, pelo não, teve tripulante que comeu de boca cheia.

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Abastecido com água e ovos, antes do meio dia, levantamos as velas e tomamos o rumo do mar com uma grande alteração em nossa programação de paradas. Inicialmente, depois da Barrinha, pretendíamos parar na praia de Carneiros, litoral sul de Pernambuco, e depois em Barra de São Miguel/AL, porém, o castigo que vínhamos tomando do mar desde Natal/RN fez com que parte da tripulação começasse a sentir saudade da caminha gostosa de casa. Sendo assim, ao sair do raso canal de acesso ao canal de Santa Cruz, aproamos o Tranquilidade para a sereia Maceió, terra de menestréis, vastos canaviais e mar de águas cristalinas.

A partir de Itamaracá a velejada passou a ser em mar de almirante e vento soprando na medida de nossa vontade. Assim fomos deixando para trás os batuques do frevo e do maracatu e em menos de 20 horas ancoramos em frente a Federação Alagoana de Vela e Motor, clube que recebe o navegador de braços e coração aberto.

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Nossa parada em Maceió foi mais por necessidade do que estratégica. Tivemos um pequeno vazamento em uma bomba pressurizada e perdemos mais da metade da água dos reservatórios. Necessitávamos também repor a despensa e Lucia vinha tendo sintomas de infecção urinária e nada melhor do que uma cidade grande para resolver essas pelejas. Resolvemos o problema da bomba e reabastecemos águas e diesel com a ajuda do Carlinhos, caiqueiro que está sempre alerta e a disposição do navegante que ancora em Maceió. Levei Lucia no hospital da Unimed-Maceio, que por sinal tem excelente atendimento, e depois de alguns exames foi liberada sem maiores recomendações, porque a medicação que ela estava tomando a bordo se mostrou eficiente para curar a infecção.

Já ouvi muito velejador reclamar do fundeio em Maceió e muitos nem chegaram a ir até lá. Dizem que o local de ancoragem é sujo, perigoso e a proximidade com os barcos de pesca na ancoragem gera um clima de insegurança a bordo. Sinceramente nunca me senti intimidado em minhas passagens por Maceió. Sim, a praia por detrás do proto não é limpa e em algumas épocas a sujeira acumulada na areia é de enojar, mas abdicar de parar ali é querer perder uma das melhores e calorosas recepções de uma navegada. A turma da Federação é mestre em receber bem o visitante e a cidade é de uma beleza ímpar.

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Até recentemente existia uma favela vizinho a Federação, mas essa foi retirada e dizem que em breve sugira no local uma praça e um novo mercado de peixes. A coisa ainda caminha a passos lentos e capenga, mas tudo indica que existe vontade política para a revitalização completa daquele pedaço de orla. Também ouvi comentários que o Porto cresce os olhos no local e sinaliza uma expansão, o que traria dificuldades a Federação Alagoana de Vela e Motor e consequentemente a navegação amadora. De uma coisa eu sei, mas não ouvi ninguém falar: A capital alagoana precisa urgentemente de uma marina pública para dinamizar e acelerar o turismo no estado. A falta de um píer de atracação é uma lástima para um estado que tem no mar seu maior tesouro.

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O novo farol de Maceió, localizado sobre o molhe do Porto, foi ficando para trás e o Tranquilidade foi ganhando velocidade em direção ao mar da Bahia. Seriam 260 milhas náuticas de uma velejada que prometia ser um sucesso. Mar de almirante e vento brando que empurrava nosso veleiro na maior maciota. Durante a madrugada cruzamos a divisa entre Alagoas e Sergipe, demarcada pela foz do Rio São Francisco, e em menos de 24 horas deixamos para trás também a cidade de Aracaju, que passamos sem nem avistar, pois navegávamos a mais de 20 milhas da costa para fugir do rugi rugi do movimento das plataformas de petróleo daquela região.

Pensei com meus botões: Esse é um mar de peixe!

Nelson Mattos Filho/Velejador

2 Respostas para “O catamarã de velocidade – III

  1. Eita que to comentado a história de trás pra frente, comecei la no VI.
    Eu ja tinha lido tudo no celular mas como e chato de escrever naquele tecladinho deixo pra fazer no PC. E como não recebi meu acarajé do ano passado, em protesto não estava comentando. Se liga aí que quero meu acarajé! KKKKK

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