Retrato de um passeio pela Baía de Aratu – II


03 - março (342)

O tom elevado, um pouco puxado para o raivoso e deixando de lado a necessária parcimônia, que encerrei a primeira parte desse retrato, foi apenas um grito ao vento de um escrevinhador diante ao descaso da história de um povo, porém, espero não ter que meter os pés pelas palavras na sequencia desse relato, em que tento apenas mostrar um pouco de uma região magistralmente bela e que me deixou feliz em ter navegado num fim de tarde de verão.

A Baía de Aratu, foco maior desse retrato, é um mundo cercado por pequenos e grandes municípios, conglomerados empresariais, grandes portos, uma BR movimentadíssima e grandes extensões de terras prontas para serem invadidas por grupos de sem terras, sem tetos e afins, porque esse é o destino reservado às terras que se prestam ao longo de gerações a uma quase infinita especulação imobiliária. Basta alguém armar uma tenda e o que era especulação vira fumaça e peleja nas barras dos tribunais. Mas calma aí, que dessa vez não mudarei o rumo de nossa prosa! Isso foi só um cochilo. Será?

A carcaça largada a míngua do velho navio Maragojipe ficou para trás e logo surgiu uma pequena enseadinha convidativa para jogar âncora e apreciar o mundo. Por lá estava ancorado um veleirinho o que fez brilhar os olhos de Lucia, pois ela adora lugares assim. Dizem que o local é gostoso durante o dia, mas que o pernoite não oferece segurança, porém, ninguém soube informar se já ocorreram problemas. É a velha máxima da histeria coletiva que abafa sonhos e vontades.

03 - março (347)03 - março (350)

O comandante Fróes acelerou a lanchinha Panela e mais uma enseada surgiu denunciando uma verdadeira e descontrolada invasão de suas margens por bares, biroscas e casas feitas de restos de madeira e papelão. O lixo se estendia pela praia e famílias inteiras se divertiam ao som de músicas saídas de vários paredões ao mesmo tempo. Aquele já é um pedaço de território sem dono, sem controle e sem lei. Agora vai alguém querer fazer um empreendimento náutico ou simplesmente um píer para atracação? Seu menino, o bicho pega e pega bonito! Acelera Seu Fróes!

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Ao lado da praia invadida está fincada a Belov Engenharia, pertencente ao velejador Aleixo Belov, onde foi construído o veleiro transoceânico Fraternidade. Em frente ao estaleiro estão adormecidas diversas embarcações e chatas de serviços, numa visão que incomoda e que dá uma dimensão da crise em que vive o setor petrolífero brasileiro.

03 - março (356)

Um pouco mais adiante avistamos uma ponte ferroviária cruzando a baía, mas antes de cruzá-la, no grande lago que se desnudou, avistamos vários locais onde se pode jogar ancora para bons momentos a bordo. O Fróes informou que outrora existiu uma regata até ali e que era batizada de Volta da Galinha. O porquê do nome e porque acabou não se sabe, mas devia ser uma boa diversão diante de uma bela paisagem.

A ponte magistral não mais recebe o peso dos vagões das locomotivas, porque, assim como o velho Maragojipe e outros tantos bens abandonados do patrimônio público, foi condenada a morte pelos arautos do progresso.

A história da ponte é extensão da Estrada de Ferro da Bahia ao São Francisco, que começou em 1852, com um Decreto Imperial, e foi a primeira a ser construída na Bahia e a quinta no Brasil. O canteiro de obras inicial foi instalado em 1858 no bairro da Calçada e a primeira seção foi inaugurada em junho de 1860, entre Jequitaia e Aratu. Ainda em 1860, no mês de setembro – porque aquele tempo trem andava ligeiro -, os vagões circularam na segunda seção, entre Aratu e Rio Joanes. Em 1861 inauguraram a terceira seção, entre Rio Joanes e Feira Velha, atual Dias d’Ávila. A quarta etapa veio em 1862, entre Feira Velha e Pitanga e por último, em 1863, a quinta seção entre Pitanga e Alagoinhas.

Em meio a desacordos de garantias e comprometimentos nebulosos entre empresários e burocratas, em 1935 o presidente Getúlio Vargas transferiu o patrimônio da ferrovia para a Viação Férrea Federal Leste Brasileiro e a partir daí os trens saíram dos trilhos e a história é contada apenas pelos lampejos nas lembranças de velhos e saudosos passageiros. O patrimônio público abandonado continua nos passando na cara o descaso com que os homens do poder tratam o dinheiro arrecadado pelos impostos. A ponte de Mapele e os trilhos abandonados não deixam a mentira ter pernas longas e escancaram o descaso com que tratamos o transporte público.

Rapaz, juro que eu queria tomar outro rumo nessa prosa, mas os dedos coçam e a consciência martela o juízo. Prometo novas cores na próxima página desse retrato.

Nelson Mattos Filho/Velejador

2 Respostas para “Retrato de um passeio pela Baía de Aratu – II

  1. É difícil mesmo Cmdte, manter o rumo da prosa, quando nos deparamos com todas estas mazelas a cada passo dado, em qualquer direção!

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