Breve história de um descaso


Museu Waderley Araujo Pinho - Nimbus

O casarão debruçado sobre as águas da Baía de Todos os Santos, com uma vistosa mata de floresta ao fundo, torna o local meio que enigmático, porque em um raio pouco maior do que uma centena de metros, existe um grande porto comercial, um povoado e um gigantesco parque industrial onde tudo cabe, menos os devidos controles ambientais. Talvez seja essa vizinhança maligna que tenha mexido os pauzinho e interferido no glorioso e educativo destino do velho casarão que morre aos poucos, com as bênçãos de uma burocracia tosca e maledicente dos órgãos oficiais. Essa imagem é o que restou de um projeto ambicioso, maravilhoso e educativo de um antigo usineiro baiano e ex-deputado, o Sr. José Wanderley de Araújo Pinho (1890-1967). Museu Araújo Pinho, como é conhecido em toda a região e nos salões culturais da Bahia, hoje é um marco da falta de incentivo, organização, descaso, incompetência e mais um monte de adjetivos que possam caber em um balaio de xingamentos. É por essas e outras que a voz geral diz que o Brasil não conhece sua história e tudo é contado de acordo com as ideias delirantes e ideológicas dos chefetes da vez. É triste ver pessoas que se dizem doutores e catedráticos em artes e cultura, assumirem cargos de direção nos vários órgãos de incentivo ao tema e ao se aboletarem na cadeira de chefia, abandonar o discurso em prol de um salário no final do mês e uma posição de destaque no mundo dos malandros. – Tomem ciência cambada de hienas! A alma do velho usineiro e ex-deputado baiano deve está se debatendo nas profundezas das catacumbas diante da ignorância e descaso dos moderninhos donos da verdade e detentores do saber cultural. Para mim são uns amalucados, deslumbrados que nem sabem para que vieram ao mundo e se metem a ser curadores da história de um povo. Claro que isso é um desabafo de um brasileiro que está cansado de ouvir baboseiras e desculpas esfarrapadas das “digníssimas autoridades”. É um desabafo bem menor do que a tristeza que me abateu quando hoje, 10/03, quando peguei a estrada com a intenção de conhecer as instalações do Museu Wanderley de Araújo Pinho, mas sabendo eu, que não havia mais nada por lá, porque, segundo a informação recebida, tudo havia sido roubado por alguns espertalhões oficiais e o que sobrou, que não foi muito, foi depositado em outro museu na capital. Pelos registros das matérias jornalísticas, o Museu Araújo Pinho estava passando por ampla reforma é seria entregue ao público em 2014. Seria, mas não foi! Ficou o dito pelo não dito e o dinheiro da reforma deve ter tomado destinos mais useiros.

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Voltando a minha visita: Depois de rodar por mais de 33 quilômetros, cheguei ao portão do museu e o encontrei fechado e com um enorme cadeado servindo de cartão de visita. Logo que adentrei a estrada de acesso vi que não havia nada ali, porque o abandono é visível, com carcaças abandonadas de carros queimados – denunciado que ali era ponto de desova – e uma áurea de filme de terror pairando no ar. Buzinei alguns vezes em frente ao portão e depois de alguns minutos surgiu um vigilante que anunciou que o museu estava fechado e não era permitida a entrada sem uma autorização de um órgão que não entendi o nome. Tentei argumentar dizendo que queria apenas bater umas fotos, mas o vigilante foi irredutível. – O que será que tem ali que não pode ser visto?

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A única imagem que pude registrar, além do portão e do arremedo de estrada de acesso a um museu brasileiro, foi do telhado do casarão que pede socorro para não ser esquecido. Diante da falta de informação e da negativa do vigilante, me socorri numa postagem de 2012, do Blog do Veleiro Nimbus, para copiar, sem as devidas autorizações da Dani e do Tiago, pedacinhos do texto que dizem assim:

Constituído no Século XVI e localizado na Baía de Todos os Santos, o Museu Wanderley Pinho era o antigo Engenho Freguesia. Sua história teve início quando uma sesmaria foi dada ao colono  Sebastião Álvares…Quando as Sesmarias* eram doadas, crescia o número de habitantes no lugar e com isso o lucro crescia também porque a produção de açúcar era bem maior com a mão de obra do povo ( muitos deles eram escravos trazidos pelos portugueses). Apesar de  que muitas peças foram furtadas do museu por descuido de algumas autoridades, ainda hoje podemos encontrar algumas que nos fazem viver e pensar como era a vida naquele século…Construído em terras doadas pelo então Governador-Geral do Brasil, Mem de Sá, o casarão foi alvo das invasões holandesas, em 1624, e vivenciou momentos de apogeu na produção de açúcar até a segunda metade do século XIX. Quando as leis abolicionistas passaram a vigorar no país, o engenho entrou em decadência e, em 1890, as moendas de cana-de-açúcar foram desativadas…José Wanderley de Araújo Pinho (1890-1967), que dá nome ao museu, foi proprietário do engenho e, como deputado federal, apresentou ao Congresso, em 1930, um projeto de lei de proteção dos bens móveis e imóveis de valor artístico e histórico que resultou na criação do atual Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

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Para os que, como eu, quiserem pegar a estrada e ver com os próprios olhos o estado em que se encontra o Museu Wanderley Araújo Pinho, é só seguir o mapa. O museu fica próximo a praia de Caboto, em Candeias/BA. Quem preferir ir de barco, o point fica logo após o Porto de Aratu e em frente a Ilha de Maré, justamente na posição indicada pelo círculo amarelo com pontinhos na carta. É triste ver a incompetência assumindo o papel de curador da história de um povo! Vale lembrar que curador vem do latim e que dizer “aquele que tem uma administração a seu cuidado”

13 Respostas para “Breve história de um descaso

  1. julival fonseca de goes

    LEGAL NELSON. SENDO DESABAFO OU NÃO, A VERDADE É ESSA MESMO:VERDADEIROS GENIOS NOSSAS ARTORIDADES( ISSO MESMO, COM” R”, SALTAREM DE UM MINISTÉRIO PARA OUTRO SUCESSIVAMENTE COMO POSSUIDORES DE UMA GENIALIDADE INCOMUM, QUE METERIA INVEJA A EINSTEIN, BIL GATES, NAÕ POR ACASO SE ENCONTRA NOSSO BRASIL MAIS UMA VEZ MERGULHADO NUM LAMAÇAL SEM PRECEDENTES. MAS, A NOSSO VER, NASCE UMA ESPERANÇA PARA NOSSAS GERAÇÕES FUTURAS: OS ATUAIS COMANDOS DA POLICIA FEDERAL E MPF, AO MENOS NO CASO DO PARANÁ, NOS RECOBRA O SENTIMENTO DE SERMOS BRASILEIROS E ESTRMOS COMEÇANDO A NOS ORGULHARMOS DE NOSSO PAÍS. PARABENS PELA INICIATIVA. EXTENSIVAMENTE AOS AMIGOS TIAGO E DAM, TAMBÉM PREOCUPADOS COM O DESTINO DO MUSEU. POR FIM UMA PONDERAÇÃO: NÃO VOLTE AO MUSEU VIA ESTRADA SEM O ACOMPANHAMENTO DE UM DESTACAMENTO POLICIAL.PREFRENCIALMENTE SEM A PRESENÇA DO ARREMEDO DE PREFEITO DE CANDEIAS. COM NOSSAS RECOMENAÇÕES À PRIMEIRA DAMA LÚCIA E NOSSO ATÉ BREVE,
    FRATERNALMENTE, JULIVAL FONSÊCA DE GÓES( SEDUTOR, O VELEIRO AMIGO)

  2. Muito bom texto Nelson.
    Conheci o museu funcionando nos meados do ano 78, visitando pelo mar com alguns amigos velejadores, e gostamos tanto que retornamos muitas vezes. Pena que depois ficou proibido o acesso pelo mar.

  3. Francisco Asxsunção

    Somos um triste país que não preserva sua cultura, seu passado e sua história.
    Parabéns Nelson.

  4. João Vianey de Farias

    Vivemos momentos de profunda tristeza com o que anda ocorrendo com o nosso país, ou melhor, em relação àqueles que se consideram “donos” do Brasil e fazem uma administração lastimável em todas as áreas onde se metem. Com a cultura, a preservação de nossa história, não tem sido diferente… Mas tudo passa e essa gente vai “desapiar” do “puder”. Levaremos muitos anos – ou talvez décadas, para recuperarmos essas barbáries cometidas. Mas o Brasil é maior do que esses sanguessugas ignorantes e aloprados!!!!

    • diariodoavoante

      Meu caro João, nosso país é lindo sim e a cada dia me surpreendo com as belezas que avisto do cockpit do Avoante. Grande abraço,

  5. Pingback: Praia de Caboto | Diário do Avoante

  6. Grande Nelson, não é só você que está triste com esse descaso. Conheci esse Museu em 1995 e fiquei encantado. Retornei ao local em 16/02/2016 e o encantamento continua o mesmo (maravilhado com tanta beleza), porem o abandono continua e as autoridades nada fazem, entrei em contato com o IPAC, Setor do governo responsável pelo local e a resposta foi uma que já pesquisei: “- estamos tomando as devidas providências”.
    Porem tive mais sorte que você, tive acesso ao local, e tirei fotos externas, pois o local esta fechado para visitas internas por questão de segurança.

    • diariodoavoante

      Reinaldo, fiquei feliz com esse comentário e mais ainda por enriquecer o texto. Muito obrigado, Nelson

      • Olá Nelson, gostaria de conhecer o engenho de Matoim. Sei que está na área da Down química, e o acesso é complicado por causa de algumas burocracias. Mas tenho dificuldade de encontrá-lo pelo Google Earth que já seria válido para mim. Você sabe onde fica pelo mapa? Agradeço desde já!!!

      • diariodoavoante

        Reinalfo, infelizmente também não consegui localizar o engenho, mas gostaria de ir até lá. Abraços,

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