Do muro das lamentações


1 janeiro (76)

Em todos esses anos morando a bordo do Avoante, onze anos, tenho acompanhado os traumas e incertezas dos companheiros do mar quanto ao quesito manutenção da embarcação. Este é um tema que requer atenção e que leva o navegante a enfrentar terríveis dilemas existenciais. A coisa é tão complicada que cada vez que tentamos conversar sobre o assunto em uma gostosa roda de bate papo, sob a sombra de um palhoção de clube náutico, o máximo que conseguimos é uma interminável série de interrogações e discursões acaloradas. Já nos grupos de mídia social, o moído vira um legítimo samba do crioulo doido e no final sobram mais dúvidas do que certezas. No afã de demonstrar conhecimentos, o interlocutor virtual se transforma numa monumental enciclopédia tipo Delta Larousse e saí detalhando ensinamentos a torto e a direito.

Nos grupos sociais o tema manutenção é tão complexo e animado que até quem nunca teve um barco, nunca navegou e nem sabe para que lado se localiza a popa ou a proa de uma embarcação, discursa de cor e salteado manuais técnicos e práticos. Alguns ainda se arvoram em garantir que assina embaixo da afirmação, porque sabe que funciona, pois ele soube por um amigo da prima do vizinho, que tal teoria funcionou no barco de um colega distante do namorado da tia torta de um sobrinho da cunhada de um conhecido da época de ginásio. Bem pertinho!

Sou declaradamente cético quando escuto ou leio sobre manutenções infalíveis e que todos deveriam seguir. Se um barco nunca é igual a outro, navega em condições diferentes, estão baseados em climas totalmente adversos e recebem dos proprietários atenções distintas, como pode uma mesma receita servir para doentes tão diferentes.

Claro que orientações são sempre bem vindas e não devemos descartá-las, por mais que achemos que sejam bobagens, porém, muita dor de cabeça e prejuízo pode ser evitado se seguirmos a lógica dos fatos e observamos o que causou o problema. Muitos nem se dão ao trabalho de pensar na solução e prefere pagar valores absurdos aos prestadores de serviço maledicentes e sem nenhuma ética profissional.

Fico abismado quando as soluções indicadas descambam para o mundo da carestia, como se tudo para ser bom e funcional precisasse ser acrescido de valor monetário elevado. Como se o mar e suas intempéries soubessem avaliar as coisas pelo tamanho da conta bancária do navegante.

Um barco para dar o prazer que o navegante necessita, requer simplicidade nos detalhes e nenhuma dose extra de extravagância, principalmente na parte elétrica e eletrônica, que são os maiores causadores dos problemas a bordo. Dotar uma embarcação com os últimos lançamentos do mundo das bruxarias náuticas nunca trouxe alegria e nem satisfação ao navegante, a não ser a satisfação de empostar a voz para anunciar e mostrar aos amigos os brinquedinhos disponíveis. Quando sou eu o apresentado as incríveis parafernálias eletrônicas que equipam alguns barcos, dou os parabéns e digo que tudo aquilo é arretado. E fico a me perguntar: – Será que tudo isso terá uso realmente? E se der uma pane elétrica, será que o barco navega?

Uma das grandes fontes de defeitos, e que ninguém afirma que seja verdade, é a geladeira. Certa feita um amigo chegou até mim para anunciar que havia a comprado uma geladeira para o veleiro e que a partir da instalação a vida dele no mar seria outra, pois teria mais conforto, água gelada, cerveja fiofó de foca e mais uma série de coisas maravilhosas. Fiquei a matutar na alegria do meu amigo e imaginando que eu bem que poderia ter a mesma alegria e empolgação se comprasse um refrigerador para o Avoante. Eita ia ser o céu! Perguntei quanto havia custado o equipamento e ele respondeu que foi coisa de pouco mais de mil reais. Beleza! Segui meu caminho tentando entabular umas contas para adquirir uma geladeira e ele seguiu o dele, feliz e sonhando com sua nova vida de conforto no mar.

Meses depois encontrei novamente o amigo e perguntei como estava a geladeira. Ele fez cara de muxoxo e respondeu: Rapaz, ainda não funcionou a contento, porque é preciso refazer a vedação da caixa, necessito comprar mais uma placa solar, duas baterias, se brincar um gerador eólico e continuo levando uma caixa de isopor com minhas cervejinhas. Já estou achando que não foi boa ideia, pois tenho navegado tão pouco ultimamente. Além de que, a turma da manutenção é um pé no saco. Apenas assenti e mudei de assunto.

Sempre que vejo barcos super equipados me vem na lembrança às palavras do velejador Fábio Constantino, em uma palestra no Iate Clube do Natal: – Quer se deleitar com a vida a bordo de um veleiro? Mantenha isso estupidamente simples!

Nelson Mattos Filho/Velejador

4 Respostas para “Do muro das lamentações

  1. “cerveja fiofó de foca” kkkkkk

  2. Muito bom concordo completamente!

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