A Tempestade – Epílogo


Michael Gruchalski (1)Depois de longos, tenebrosos e quase intermináveis dias de angústias, avexamento e desesperança dos leitores, chega ao fim a série A Tempestade, escrita pelo velejador de longo curso Michael Gruchalski. Do mesmo modo que começou, o final deixa na gente um gostinho de quero mais, pois o Michael é um exímio contador de histórias e causos tendo o mar como pano de fundo. Não preciso me estender em mais delongas, porque tudo já foi dito nos 20 capítulos que se seguiram, porém, é preciso sim agradecer ao autor por ter brindado nossos leitores com tão fascinante história.

A TEMPESTADE

EPÍLOGO

A história é verdadeira e foi contada em forma de crônicas, por partes, cada uma objetivando realçar um aspecto da aventura. Dei destaque à beleza e a magia das cores, sons e sentidos quando a força da natureza desnuda e põe à mostra a pequenez do homem. Procurei dar destaque também àqueles elementos incontroláveis, o medo, o terror e a desesperança que surgem durante uma aventura quando ela sai do controle e desanda rumo ao grande desconhecido.

A perda do leme de um barco é, de longe, a pior, a mais funesta coisa que pode acontecer. Por ser um problema sem solução, nada é comparável com o tamanho e a natureza das dificuldades encontradas. Para todos os outros acidentes, exceto ao do naufrágio repentino, há soluções que levam o barco avariado e sua tripulação a algum lugar. Sem leme, não se vai a lugar algum. E ponto final.

——————————————————————————-

Com um erro de uma a duas milhas de raio, as duas bandas do leme de fibra do veleiro Panoramix estão hoje enterradas na areia, no fundo do oceano, a uma profundidade de 50 metros. Bem na costa norte de Sergipe. Bem lá, na posição S 10º 42’, W 36º 26’, onde, navegando no rumo 60º, a proa aponta para o Nordeste, visando o waypoint Rio São Francisco a 23 milhas a leste da foz do velho Chico. Nossa rota, até Maceió, fecharia o rumo em 40º a partir dali, seguindo mais 65 milhas para o norte com o waypoint Coruripe no meio do caminho.

Duas placas enormes, abauladas, com um metro e setenta de comprimento, de fibra de vidro e resina poliéster com oito a dez milímetros de espessura, literalmente indestrutíveis naquele ambiente de água salgada. Ficarão lá por muitos séculos ainda, zombando da passagem do tempo, das correntes marítimas e gerações e gerações de peixes e crustáceos. Chegaram lá depois de se separarem do eixo do leme do nosso veleiro, mergulhando naquelas aguas turvas da costa sergipana para nunca mais voltar, no início da madrugada de sábado da última semana de setembro de 1997. Portanto, há quase vinte anos. Em linha reta, a 34 milhas da foz do rio Sergipe, 19 milhas da costa, e a 18 milhas do waypoint rio São Francisco.

Julgamos hoje que foram duas placas mal coladas uma à outra durante o processo de fabricação e que, por isso, quase tiraram a vida de três velejadores experientes durante a subida para Recife com a intenção de participar da Refeno. É evidente que a perda do leme por si só não representou perigo de vida à tripulação, mas sim a combinação do acidente com a ocorrência da tempestade na noite seguinte.

—————————————————————————

Nosso CAL 9,2, fabricado doze anos antes pela Mariner de Porto Alegre, havia sofrido, no verão de 1995, um acidente ficando preso por um bom tempo nas pedras da ilha de Maré. Fazendo água, foi trazido às pressas para o clube onde verificou-se que o eixo do leme havia entortado. As batidas constantes nas pedras também haviam inutilizado a bucha inferior do eixo além de fazer um furo bem na junção do telescópio com o casco, motivo da grande entrada de água.

Nada mais fácil de consertar do que isso. Um bom torno e um bom torneiro para aproveitar o mesmo eixo. Uma boa resina e um bom fibrador para aproveitar o mesmo leme. Vinte dias depois, o barco já estava navegando de novo. E, diga-se de passagem, à venda, pelo antigo dono.

O comprador foi meu amigo Marcos Marcellino, na época, morador de Feira de Santana, que passou de um Ranger 22 para um poderoso veleiro de 30 pés. Acho que sem saber que o barco tinha sofrido aquele acidente. Após muitas velejadas pela baia com a família e amigos, um ano depois, o desejo de ampliar seus conhecimentos náuticos partindo para novos horizontes falou mais alto. Recebi o convite para acompanha-lo na Refeno de 1997 em agosto e não me fiz de rogado. Estivera lá, pela primeira vez, em 1995 com um Samoa 29 numa viagem dura e cheia de problemas. Esperava agora, sombra e água fresca como compensação e tudo indicava que seria assim com aquele barco quase novo, quase em perfeito estado de conservação. Seu filho, Ildefonso, o Ildé, de 16 anos que, apesar da escola, encontrou uma maneira de nos acompanhar, pelo menos ajudando-nos a levar o barco até Recife.

E, lá fomos nós.

Largamos as amarras as quatro da tarde de uma quinta-feira de sol e vento leste/nordeste do píer do Aratu Iate Clube em Salvador. Destino: Recife. Geladeira cheia, despensas mais cheias ainda, água nos tanques, diesel de reserva nos bojões, bote inflável recém-comprado desinflado no porão, motor e refrigeração revisados uma centena de vezes, um bom estoque de pilhas para nosso GPS comilão, enfim, tudo pronto para a grande viagem.

E, deu no que deu.

Na minha opinião e na do comandante também, exclusivamente por causa da colagem malfeita das duas bandas de fibra por cima do eixo e suas costelas de aço, dois anos antes. Elas se separaram devido a infiltração continua de água nos orifícios deixados pela má colagem. Com a pressão da água passando com maior velocidade naquela viagem mais longa até Recife, os pequenos furos se tornaram rombos que permitiram a entrada de mais e mais água no leme. O isopor que compõe a maior parte do seu interior ficou encharcado, começou a se despedaçar e a pesar muito. O peso excessivo, a pressão e a vibração do conjunto causado pela velocidade do barco fragilizaram o leme até aquele ponto em que as muitas fissuras se tornaram uma fenda contínua, inicialmente estreita, mas comprida ao longo de toda a parte frontal do leme. Mais água, mais pressão e o leme não resistiu. Abriu em leque separando suas duas bandas de fibra, uma para cada lado, uma para cada canto, ambas em direção das profundezas do oceano, esse depósito de segredos que lhe serviria, dali em diante, de sepultura eterna.

————————————————————————————-

Ainda a cronologia:

– Aratu Iate Clube-Salvador ao ponto do acidente: das 16:00 da quinta a 01:00 da madrugada do sábado ou 175 –milhas em 33 horas com média de 5,3 nós por hora.

– Trabalhos de construção e instalação do leme de fortuna: 14 horas, das 03:00 às 17:00 horas do sábado. Derivando para o leste-sudeste.

– Inicio do deslocamento com o leme de fortuna: 17:00 do sábado até a tempestade por volta das 23:00 horas.

– Retomada de navegação com o leme de fortuna e chegada em Aracaju: das 03:00 da madrugada as 18:00 do domingo, ou 15 horas para vencer aproximadamente 30 milhas a média de 2 milhas por hora.

——————————————————————————

Enfim, são e salvos e atracados no pequeno píer de madeira do Iate Clube de Aracaju, tratamos de encontrar uma solução para sair dali.

Navegando. E conseguimos.

Mas, isso já é outra estória.

Por: Michael Gruchalski

Anúncios

5 Respostas para “A Tempestade – Epílogo

  1. Belo relato! Eu também perdi meu leme no Guarujá, em minha primeira saída com veleiro recém adquirido. Fruto de um conserto mal feito, lá se foi o leme, ficando o barco totalmente a deriva e próximo demais aos navios entrando e saindo do porto. Não peguei tempestade mas foram algumas horas de tensão sofridas com minha família toda a bordo!
    Bons ventos, meu caro. Abraço

    Curtir

  2. Outra história nada!
    Foram para onde?
    Eu, teoricamente e a depender da qualidade do conserto do leme, assim como da possibilidade de ainda chegar a tempo, iria ficar com mais vontade ainda de só relaxar de vez em Fernando de Noronha!
    Rsss…
    Agora deixando minhas fanfarronices de lado, só sabe o nível de stress e consequente fadiga quem já passou por isto. E não foram muitas pessoas.
    Parabéns Grushalski, escreveste uma história muito da boa, isto sim.
    Do limão que te foi enviado tiraste esta bela limonada.
    Parabéns mais uma vez.
    Vou imprimir agorinha mesmo, para mandar para um amigo que só conhece partes da versão por mim contada.
    Vamos que vamos!

    Curtir

  3. E o link do texto zipado?
    Vai dar um trabalho de bicho ir atrás de capítulo por capítulo…

    Curtir

  4. Haroldo Quadros

    Parabéns Michael! Sempre encontro com o Marcelino aqui pelos mares da Bahia. Ele agora a bordo do CHEGANÇA, um Fast 345. Sugiro que continue o relato contando como foi o conserto do leme, a ida até Recife, a regata e aquela saída inusitada de Noronha pela face norte e leste da ilha. Grande Abraço a você e Mey aí pelos ventos gelados da Alemanha. Haroldo.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s