Uma prosinha de nada


Outubro (21)

Os tempos não estão fáceis nesse começo de século. Situações que pareciam resolvidas e que pensávamos fazer parte apenas dos registros empoeirados e adormecidos nas estantes de uma silenciosa e antiga biblioteca, ressurgem travestidos em terríveis e imagináveis tentações. A barbárie, a intolerância, a covardia, a crueldade, a brutalidade, a guerra, a maldade, os conflitos religiosos, a demagogia barata, a canalhice politiqueira, as tragédias ambientais e a falta inclemente de justiça desassossega o mundo, espalhando terror e montado na besta fera do caos.

Acho melhor me recolher à insignificância desse mundinho embarcado, que aposto há onze anos, e deixar que os “reis, rainhas e valetes” decidam o destino do mundo. Do cockpit aconchegante do meu veleirinho vejo o mundo com outras cores, mas não deixo de escutar os lamentos das cidades. Não tem como não ouvir, porque é um grito alto, insistente e que nos remete ao papel de bobos da corte.

Não quero pintar meu rosto brasileiro com as cores de outra nação, até porque soaria falso em minha cara lavada. Quero mesmo as cores do azul, branco, verde e amarelo, pois assim serei eu mesmo e não outro. Mas cá pra nós, a nossa bandeira está com uma coloração amarronzada muito estranha.

A lama que escorre pelos salões do “reinado” transbordou, destruiu barragens e espalhou vítimas indefesas no rastro de sua viagem criminosa rumo ao oceano, que é onde toda porcaria sempre deságua. Nada de novo no front e Netuno que faça sua parte o mais rápido possível, pois temos que virar a página e a fila criminosa anda ligeiro.

Pois é, hoje acordei assim meio sei lá e estou achando que é esse calor do Sol inclemente da Bahia que tem cozinhado meu juízo desajuizado. Mas pode ser também porque passei boa parte da noite passando o olhar abobalhado nas últimas canalhices do reino. Como diria minha avó: É muita canalhice junta!

Mas sabe de uma coisa, é melhor me ater com o reino de Netuno, onde as coisas são o que são, e deixar a cabrueira do planalto de lado, para não me apegar com a ira dos seguradores de bandeiras.

Então, para não meter a mão em cumbuca ideológica, vamos navegar e aproveitar esses dias de final de primavera ensolarada das terras do Senhor do Bonfim e seu séquito de Orixás. O tempo está excelente e convidando para uma cerveja estupidamente gelada, daquelas que Lucia batiza de “cu de foca”. Eita que agora deu água na boca!

E por falar nas partes baixas da foca, lembrei-me de uma boa que aconteceu na Ilha do Goio, na apaixonante Baía de Camamu. Estava eu tirando uns retratos paisagísticos dos encantos do lugar, quando me aparece Lucia perguntando se poderíamos tomar uma cerveja. Claro que sim! Fechei a máquina e nos encaminhamos para as mesas de madeira rústica que ficam embaixo de uma grande arvore sombreira. Eita vidinha difícil!

No caminho demos de frente com um rapaz que vinha do bar, mas eu já havia notado que ele era cliente. Lucia pensando que era o garçom tratou de perguntar: – Você tem cu de foca? O rapaz arregalou os olhos, olhou para os lados, olhou para mim e fez aquele gesto com os ombros que não estava entendendo a pergunta indiscreta. Rindo da presepada, informei a Lucia que o rapaz era cliente e não o garçom. Ela tratou logo de se explicar, traduzindo a expressão e todos caíram numa sonora gargalhada. Uma senhora que ouviu a conversa não perdeu tempo e gritou para o dono do bar: – Eu também quero o cu do bicho!

E por falar em cerveja gelada, se você pensa em navegar por aí empunhando uma latinha do líquido refrescante é bom ficar alerta, ou chamar um abstêmio para conduzir a embarcação. Assim como acontece nas ruas, a Marinha do Brasil está empenhada em fazer valer a Lei Seca no mar e para isso intensificará a fiscalização nesse verão que chega quente que nem brasa. Tem quem reclame e tem quem ache certo, eu mesmo faço as duas coisas, pois tem muito condutor de lanchas e motos aquáticas fazendo miséria por aí. E os velejadores? Pois é, mas esses navegam quase parando e raramente se metem em barca furada. Quando a sede aperta, o povo da vela prefere jogar âncora e curtir a paisagem com os amigos. Nessas horas não tem estoque de cerveja que consiga aguentar o tranco.

Eita que hoje eu misturei assunto para dedéu e até me perdi nos bordos. Mas também com esse calor de lascar moleira de desavisado num tem quem consiga concatenar as ideias. Os miolos se misturam dentro do quengo feito manteiga.

Acho que preciso de uma cerveja!

Nelson Mattos Filho /Velejador

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4 Respostas para “Uma prosinha de nada

  1. julival fonseca de goes

    Caros Nelson-Lúcia, Como sempre tem sido, mais uma cronica agradável e oportuna.Vamos em frente, fraternalmente, Julival Fonseca de óes( 71- 9 8774-1238)

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    • diariodoavoante

      Meu caro Julival, mais uma vez muito obrigado pelos seus comentários e por gostar das minhas mal traçadas linhas. Grande abraço,

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  2. Eu amo essas crônicas. Afinal, é também por isso que estou aqui.

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  3. Valeu Nelson e Lúcia. li a crônica sem pretensão e ri com absoluta e manifesta pretensão… hehe.
    abraços amigos.

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