Navegando pela Baía de Tinharé – Final


9 Setembro (138)

Pois é, o povoado de Galeão localizado na Ilha de Tinharé, município de Cairu/BA, é um lugar gostoso para jogar âncora e passar uns bons dias curtindo a vida mansa. Alguns hão de dizer que a aproximação com o movimentado polo turístico de Morro de São Paulo cria no ar um clima de inquietação, mas sinceramente não foi o que presenciamos nos dois dias e duas noites que estivemos ancorados. Sentimos sim uma comunidade receptiva, comunicativa e que deixa o visitante muito à vontade.

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O comércio de Galeão tem o básico, mas, para quem precisar de algo mais, a cidade de Valença – grande polo comercial da região – fica a pouco mais de dez minutos de navegação nos barcos de passageiro que fazem a linha regular. Não é aconselhável usar nossa própria embarcação ou o bote de apoio. O canal de acesso é raso para barcos de maior calado e deixar o bote em um porto movimentado como o de Valença, não é uma ideia das mais interessantes. O melhor mesmo é se valer dos barcos de linha que saem de hora em hora.

Para os amantes do pão quentinho, existem duas padarias que fabricam pães da melhor qualidade. Galeão conta com posto de saúde, escola, limpeza pública e uma pequena infraestrutura de apoio administrativo da prefeitura de Cairu. A piaçava em outra época foi a principal fonte de renda do povoado, mas, apesar de encontramos fardos de piaçava em algumas ruas, não denota que ela seja forte nos dias atuais.

Um pequeno estaleiro espalha sua produção na beira do Canal de Taperoá, demonstrando a grandeza criativa dos carpinteiros da região, que são reconhecidos em todo o mundo. Mas o que senti falta, e isso para mim é uma grande lástima, foi de barcos a vela. Durante os dois dias em que fiquei ancorado em Galeão, avistei apenas uma canoa a vela e essa mesmo navegava com auxílio de um motor. Passamos praticamente uma semana navegando o Canal de Taperoá e nada de barcos a vela. Uma pena, mas segundo os defensores do progresso acima de tudo: as coisas tem que avançar e quem não seguir o progresso fica para trás. Então tá!

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Eita, gostei tanto de Galeão e tenho tanto a comentar, que havia esquecido que terminei o texto número três falando de uma antiga casa que indicaram para a gente visitar. Na verdade, da casa, que disseram ser a primeira do povoado, só existe a fachada e alguns escombros de paredes laterais e tudo em péssimo estado de conservação, mas curiosamente, segundo os relatos dos moradores, é um orgulho para o lugar. Não deu para saber a data da construção, mas não deve ser tão antiga. O que mais chama a atenção são quatros estátuas e uma arte decorativa acima da fachada. Dizem que já apareceu gente de várias partes do mundo querendo comprar as estátuas e até o terreno, mas nada foi concretizado.

9 Setembro (127)

Sinceramente não consigo compreender o descaso dos órgãos e das pessoas que cuidam do nosso patrimônio histórico, artístico e cultural. O grau de incompetência dessa gente beira a insanidade. E o pior é que continuam aboletados nos cargos e quando são substituídos, entram outros da mesma laia. E adianta eu falar isso aqui? Deixa pra lá!

Apesar da proximidade com o Morro de São Paulo e suas belezas naturais, Galeão ainda preserva muito do jeito ribeirinho de ser. O povoado faz parte da APA – área de proteção ambiental – que abrange toda a região e talvez por isso não tenha sido afetado pelo turismo devastador. Tomara que assim permaneça por muitos e muitos anos.

Gostei de ter conhecido Galeão e saí de lá com um misto de saudade e alegria. Alegria por ter visto um lugar diferente do que já tinha ouvido falar e saudade daquela ancoragem acolhedora, que se não fosse o nosso compromisso com nossos dois tripulantes, o Paulo Lourenço e o Thiago, teríamos ficado por lá um bom tempo.

Os moradores contaram que todo ano ancora por lá um veleiro, com um casal estrangeiro, que distribui brinquedos, livros e material escolar para a criançada. Essa atitude social tem vários seguidores no meio náutico brasileiro, mas bem que poderia ser mais disseminado e incentivado pelas associações e clubes.

9 Setembro (28)

Levantamos âncora numa manhã de vento leve e maré de vazante. Nosso destino era Gamboa do Morro e foi para lá que cravamos o rumo. E Cairu? Não foram? – Não, não fomos! Quem sabe na próxima!

A vida do velejador de cruzeiro nesse Brasil apaixonadamente navegável é assim mesmo. Então: – Pra que a pressa?

Nelson Mattos FilhoVelejador

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2 Respostas para “Navegando pela Baía de Tinharé – Final

  1. Deu vontade de conhecer esse lugarzinho que parece muito tranquilo e acolhedor.

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  2. Sou doido para conhecer esses lugares fantásticos e desconhecidos pela maioria absoluta do Brasil.

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