Navegando pela Baía de Tinharé – III


9 Setembro (96)

Falei no texto anterior que o distrito de Galeão, as margens do Canal de Taperoá, tem história e tem mesmo. Mas dessa vez eu não me aprofundei nas pesquisas, preferi sentar-se à mesa do Bar da Maria, no pé da ladeira que sobe até a igrejinha de São Francisco Xavier, para escutar os moradores que vieram saudar nossa presença. A ladeira é grande e subir com o sol da Bahia castigando a moleira não é fácil, mas a visão que temos lá do alto é de encantar os mais céticos e acho até que tem muito pecador que se acha perdoado depois que consegue chegar ao topo.

Subi o morro imaginando o que se passa na cabeça do padre quando é designado para acolher os fieis do Galeão lá nas alturas. Descobri que o padre só vai lá umas poucas vezes durante o ano e quando vai, vai em cima de uma carroça puxada por um trator. Deus é mais! Quando viu a bronca que teria que enfrentar toda semana, o primeiro sacerdote tratou logo de construir uma capela no centro do povoado. Na verdade não sei se foi o primeiro, mas com certeza ele teve vontade.

9 Setembro (94)9 Setembro (110)

O padroeiro São Francisco Xavier, comemorado em 03 de dezembro, é considerado o maior missionário do Cristianismo, desde São Paulo. Foi fundador, junto a Inácio de Loyola, da Companhia de Jesus. Porém, Francisco Xavier nunca esteve no Brasil. Seu lema: “De que vale a um homem ganhar o mundo inteiro se perder sua alma?” (Mc 8, 36). Por aqui esteve um parente seu, também da Companhia de Jesus, João de Azpilcueta Navarro, um dos primeiros catequistas do Brasil. Mas isso eu não aprendi no Bar da Maria e sim navegando nos mares internéticos, para dar um sentido mais interessante a essa prosa.

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E como na Bahia toda festa religiosa que se prese tem que ter uma lavagem, a do padroeiro do Galeão não podia ficar atrás. A lavagem da igreja de São Francisco Xavier é feita uma semana antes da festa e cá pra nós: Duvido muito que o Santo goste do reboliço que vem agregado as lavagens, pois ele chegou a pedir ao rei Dom João III que instalasse uma inquisição em uma das colônias por onde passou, por discordar dos rumos que os fieis estavam tomando. Imagine se ele escutasse uma dessas quebradeiras que tocam por aí? Ia faltar lenha para fazer fogueira!

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Sabe o que eu soube no Bar da Maria: que quando foi construída uma igreja na base do morro, a imagem do Santo foi colocada lá, mas ele não gostou e toda noite a imagem subia a ladeira para se postar no altar da igrejinha do morro. Foram tantas idas e vindas, sem ninguém acreditar no que estava acontecendo, pois achavam que era brincadeira de algum gaiato. Até que numa noite um morador quase foi parar no beleléu, quando se deparou com a imagem do Santo subindo a ladeira. Depois de recuperar o folego, e a cor, o morador correu para contar o que viu. Dali em diante a imagem ficou onde queria ficar, no alto do morro, e avistando tudo em sua volta.

Sabe o que mais: O Bar da Maria fica num local onde antigamente era conhecido como boca da mata, que era lugar mal-assombrado e ninguém tinha ousadia de ultrapassar, até que um dia um posseiro corajoso resolveu enfrentar o mau assombro e construiu um barraco para por os trecos e foi seguindo por outros. Ainda bem, pois se não fosse essa peleja não existiria o bar e nem eu iria saber de tantas coisas.

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Tudo foi dito pela Maria e seus cunhados, pessoas boa praça, simpáticos e que deixou saudades na gente. Não recorri às informações oficiais e nem fui à procura dos moradores mais antigos, pois queria saber primeiro o dito popular. Enquanto a conversa rolava solta e os copos de cerveja eram cheios, esvaziados e reenchidos, ninguém se deu conta do passeio despreocupado de um papagaio sobre a mesa e quando caiu à ficha, o bicho já havia dado uns bons goles nos copos. Eita papagaiozinho cachaceiro! Dizem que ele é acostumado a fazer essa presepada e nem vira a perna. Ainda bem que o bicho não aprendeu a chamar palavrão!

Conversa vai, conversa vem, Paulo Lourenço – nosso tripulante – perguntou sobre uma pequena casinha branca na beira do rio. A informação é que se chama Pedra do Santo e que ali existe uma laje que avança rio adentro. Certo dia uma embarcação derivou para cima da laje e antes que batesse, apareceu o Santo que salvou o barco de uma tragédia. Em agradecimento a população ergueu o santuário.

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Se dependesse da nossa vontade e da vontade dos nossos anfitriões, a conversa varava o resto do dia, mas tínhamos que retornar a bordo para almoçar, pois Lucia havia preparado um Risoto de Bacalhau que só em lembrar dá água na boca. Mas foi aí que chegaram as irmãs da Maria, com uma bacia de caranguejos e aratus. Elas vinham do mangue e Lucia não perdeu tempo e foi aprender os segredos daquela arte.

9 Setembro (130)9 Setembro (125)9 Setembro (129)Foi papo para mais meia hora, umas três cervejas e boas risadas. – Vocês viram a primeira casa daqui? – Vimos não! – É bem ali embaixo, onde tem umas estátuas! Pronto, mais um ponto turístico a visitar. Maria, traga a conta que vamos nessa!

Nelson Mattos Filho/Velejador

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8 Respostas para “Navegando pela Baía de Tinharé – III

  1. Falta apenas os way points cmt Nelson… que maravilha de lugar.

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    • diariodoavoante

      Comandante, para conseguir os waypoints vai ter que vir na esteira do Avoante. kkk. Brincadeira: segui os waypoints indicados no guia náutico do Hélio Magalhães, De Ilhéus a Morro de São Paulo. Um guia fantástico! Grande abraço,

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  2. Alice e Ricardo

    Caros Nelson e Lucia.
    Há exatamente 1 ano estávamos pelas águas baianas a bordo do aconchegante avoante. De lá pra cá, temos navegado no blog de vcs. Foi e sempre é muito gratificante! Um abraço e até… breve.
    Abraços dos aspirantes a marujos do cerrado tocantinense.

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  3. Essa série NAVEGANDO PELA BAÍA DE TINHARÉ pode seguir os passos da Tempestade que eu nem vou falar nada. Ta bom demais!

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  4. Pense num lugar estratégico esse Bar da Maria!

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  5. Ô vida chata que a tripulação do Avoante leva… mas, se quiser trocar de vida comigo, aceito na hora!

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