Navegando pela Baía de Tinharé – II


9 Setembro (56)9 Setembro (468)

Navegar no litoral baiano é uma gostosura e até acho que sou suspeito para falar, apesar de não ser baiano, sou declaradamente apaixonado por esse mar que acolhe todas as tribos, credos e santos. Além de ser convidativo e dotado de lugares paradisíacos, o mar da Bahia oferece uma navegada tranquila onde raramente o navegante passa maiores dificuldades.

Vários guias náuticos oferecem rotas seguras e extremamente detalhadas sobre os lugares a serem visitados. Alguns precisam de edições atualizadas sobre os lugares – como falei no texto anterior -, mas em todos, as rotas e waypoints podem ser seguidos sem nenhuma preocupação, desde que o navegante tenha um pouquinho de intimidade com os instrumentos de bordo.

Mas vou deixar de lero lero e vou seguir rumo até o distrito de Galeão, uma joia de lugar situado às margens do Canal de Taperoá, e que comecei a falar no texto anterior e parei por falta de espaço.

Antes de jogar ferro em frente a Galeão, ancoramos na Ponta do Curral, outro lugarzinho paradisíaco e distante cinco milhas náuticas do nosso destino. O fundeio em Curral é recomendado e o lugar é um colírio para os olhos de um velejador de cruzeiro, porém, entre a ancoragem e a praia existe um corredor onde trafegam as lanchas e barcos que fazem a linha Valença/Morro de São Paulo. Ancoramos por lá durante o dia e nos deliciamos com um almoço saído dos arquivos gastronômicos de Lucia.

A Ponta do Curral tem história sim senhor: Dizem os livros que foi ali que desembarcaram as primeiras cabeças de gado que chegaram ao Brasil e por isso recebeu esse nome. Contam que o local é uma fazenda particular com 530 hectares, mas disso eu não dou conta. Sei que a faixa de areia é um convite a uma boa caminhada e a praia é simplesmente linda e ainda livre de barraquinhas e das novas “músicas” – se é que podemos chamar de música – que toca em toda beira de praia Brasil afora.

Como soprava um vento leste de intensidade moderada a forte, após o almoço, levantamos âncora e fizemos o rumo de Galeão, onde uma igrejinha branca nos acenava do alto do morro. O Canal de Taperoá é profundo até o través da Ponta do Curral, em torno de doze metros. A partir daí a profundida oscila entre três e nove metros e o navegante tem que ficar atento às redes e boias de pesca espalhadas em quase toda extensão do canal. Não tivemos nenhuma dificuldade e velejamos apenas com a vela mestra, do Curral até a ancoragem em Galeão, onde ancoramos iluminados por um belo pôr-do-sol.

Não é aconselhável navegar o Canal de Taperoá durante a noite e é bom aproveitar as marés de enchente e vazante, porque a correnteza, principalmente nas marés de sizígia, é significativa. Dizem que se conselho fosse bom era vendido, mesmo assim vou deixar mais um aqui de graça: Adentrar ou deixar a barra da Baía de Tinharé durante a maré de vazante, e a noite, não é uma ideia das mais seguras, porque a briga de titãs entre a força da correnteza do rio Una e o grandeza do mar cria, como diz o potiguar Toinho doido, um mar de faroeste. Eu já estive em meio ao tiroteio em duas oportunidades e sei o que passei.

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O sol se foi e ficamos ali, embasbacados com a beleza da paisagem que cercava o distrito de Galeão. Novamente as lanchas passavam voando levando turistas que faziam a volta a Ilha de Tinharé, mas a festa acabou assim que a noite cobriu o mundo e ficamos em paz com o silêncio e as sombras da noite. Uma cerveja para variar e assim ficamos no cockpit bebericando a espera da Lua cheia, que um dia antes havia sido super, mas que não deixou de ser enorme e encantadora. Mais uma comidinha das receitas de Lucia, mais umas cervejinhas, mais bate papo e quando menos esperamos o sono bateu e fomos sonhar com os anjos e a igrejinha do alto do morro. Pense numa noite tranquila!

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O dia amanheceu e sem pestanejar desembarcamos para desbravar o povoado que tem próximo de 2 mil habitantes, espalhados em ruas limpas, estreitas e bem organizadas. Sentimos uma energia boa e logo descobrimos que todos ali são pessoas acolhedoras e de amizade fácil. – Onde vende gelo? – É logo ali naquela casa verde! Encomendamos algumas garrafas de gelo – o gelo é em garrafa pet – e saímos em busca da igrejinha do alto do morro.

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Disse a uns senhores que estavam sentados na praça: – Amigos, preciso pagar uma penitência. Como posso fazer? Eles responderam sorrindo: – Siga essa rua e suba a ladeira! Somente ao chegar no alto do morro, debaixo de um sol de lascar, descobri porque lá no pé da ladeira tem um bar.

9 Setembro (103)Igreja de São Francisco Xavier, construída pelos jesuítas em 1626, a mais antiga da região. Galeão tem história!

Nelson Mattos Filho/Velejador

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3 Respostas para “Navegando pela Baía de Tinharé – II

  1. Sergio do Pinauna

    Na ponta do Curral pode ser observada uma evidência direta da subida do nível do mar: a transgressão mata os coqueiros na beira da praia que caem em fileira; a corrente forte de vazante vai removendo a areia deixando um ‘peral’, de forma que você pode jogar uma âncora na popa, saltar em terra sem molhar os pés e amarrar a proa do barco direto num tronco caído.

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  2. Voces descobrem uns lugarzinhos pra mostrar pra gente, que são de endoidar de vontade de conhecer!

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  3. O litoral baiano é tudo de bom, não é mesmo?

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