Só na boreste


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Algumas expressões aparecem quase do nada e passam a fazer parte do linguajar cotidiano das pessoas. São palavras que surgem muitas vezes no rastro de situações vividas e por não se achar nada mais adequado para descrever o momento, recorrem-se às derivações e essas caem inevitavelmente no gostoso reino do palavreado popular. Nesse rastro vieram pérolas como: frigir dos ovos; alho por bugalho; de boa; da hora; só o filé; olho gordo e outras que são ditas pelo Brasil velho de guerra. O brasileiro tem um dom especial para ajuntar palavras e transformá-las em gírias que proliferam na rapidez de uma piscadela nesse mundão de meu Deus.

Até o jargão náutico, que tem um rígido dicionário de alcance mundial, no Brasil a coisa navega por bordos que dificilmente um almirante inglês conseguiria decifrar mensagens que o levasse a conquistar uma batalha. Queria mesmo ver a cara de espanto de um gringo ao se aproximar de um paquete e escutar o pescador gritar para o parceiro: – Molhe os panos e atoche no cabo pra nós tirar uma pareia com aquele bote que vem ali.

Certa vez navegando de Enxú Queimado, uma bela e deliciosa praia no litoral norte do Rio Grande do Norte, para Natal, na companhia de Pedrinho e Abraão, – dois irmãos e amigos que tenho guardado no peito – pedi que algum deles caçasse a escota da genoa. Genoa é a vela da frente da embarcação e escota o cabo que estica essa vela. Quando Abrão olhou para mim e perguntou: – Caçar Agenor? Eu respondi que não era Agenor e sim genoa. Ele pegou a escota e sem pestanejar treplicou: – Se essa vela é Agenor essa outra é Liquinha. E caiu na gargalhada. Eu sem entender perguntei: – Quem danado é Agenor e quem é Liquinha? Ainda na gargalhada ele respondeu: – Lá em Enxu Queimado, Agenor é o marido de Liquinha. Então tá, pode caçar os dois!

Já se aproximando da Barra de Natal Abrão falou: – Nelson, quando chegar vamos almoçar no tóro. Mais uma vez fiquei a ver navios e perguntei onde ficava o tóro. Ele respondeu com uma pergunta: – Que danado é isso desse homem não saber onde fica o tóro? O tóro fica ali embaixo da ladeira da praia. É aquele restaurante que serve carne de sol. Apurei a memória e perguntei se era o Farol Bar. Ele disse que era esse mesmo e perguntei por que ele chamava de tóro. Ele estendeu os braços, esticou as mãos – naquele gesto característico de dimensão – e disparou: – Porque serve um tóro de carne desse tamanho! Fomos ao tóro.

As velas Liquinha e Agenor, assim como toro, hoje fazem parte do dicionário de bordo do Avoante e vez por outra estou palavreando elas por aí para espanto e risos de interlocutores ávidos por boas histórias. Foi assim que durante um curso de vela de cruzeiro, que ministramos, e depois de repassar os fundamentos que fazem da navegação arte de infinita beleza, aprendi mais uma palavrinha que pode até não dizer nada, mas pronunciada do jeito e no momento que foi nos encheu de boas energias.

Expliquei o que é bombordo, boreste, proa, popa, meia nau, través, bochecha, alheta, rota, derrota, amuras. Ensinei os segredos da boa leitura de uma Carta Náutica e como o estudo aprimorado de uma rota é determinante para uma navegação segura. Latitude, longitude, rosa dos ventos, declinação magnética, rumo verdadeiro, agulha, graus, minutos, segundos, milhas e cheguei até a tal da navegação estimada, em que as marcações se cruzam e diante de tantas estimativas possíveis, o que sobra mesmo é a certeza de estar perdido. Mas se avexe não que navegar é fácil sim senhor!

Depois dos estudos teóricos soltamos as amarras e nos lançamos ao mar. Os alunos eram dois cearenses da gema, Fabrício e Isabela, que estão doidinhos para sair pelo mundo a bordo de um veleiro e vieram ao Avoante para tirar a prova dos nove. Com a derrota sendo seguida em cima da risca, tomamos o rumo do Saco do Suarez, um fundeadouro delicioso e que já comentei aqui em várias oportunidades. Ancoramos diante de um belo pôr do sol, apreciamos a noite chegar mansa e tranquila. Na manhã seguinte, depois de traçar e estudar uma nova rota, levantamos âncora e fomos navegar.

Vento brando, navegando na maciota, deixamos o fundeadouro com Fabrício se deliciando no comando do Avoante. – Isso é bom demais! Vou comprar um veleiro o mais breve possível! Falava com brilho nos olhos e um sorriso de orelha a orelha. Perguntei se Isabela também estava gostado e ela respondeu com a cabeça que sim e deu um sorriso. Traduzi que estava tudo bem. Lá pras tantas pedi que ela timoneasse um pouquinho e para minha surpresa recebi como resposta: – Precisa não, tá bom assim, estou só na boreste! Olhei para Lucia e demos uma boa gargalhada.

Só na boreste, mais uma maneira arretada de dizer tudo bem a bordo. Pelo menos traduzi assim. Valeu Isabela!

Nelson Mattos Filho/Velejador

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4 Respostas para “Só na boreste

  1. Isabela Barreto

    hahah obrigada pelo carinho, nelson e lúcia.. foi uma experiência incrível esses dias que passamos com vocês. até breve.

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    • diariodoavoante

      Isabela, voltem sempre e desejamos muito em breve estar atracando o Avoante ao lado do veleiro de vocês. Beijos, Lucia e Nelson

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  2. Aqui em Pernambuco a gente fala “Tô de boreste”.

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  3. Meu Deus, quando irei navegar e ser fotografado pelo mestre Nelson?

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