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2 Fevereiro (7)

O texto de hoje foi publicado em junho de 2015 na coluna Diário do Avoante, que assino há 8 anos no jornal potiguar Tribuna do Norte. A coluna é publicada aos domingos e foi de lá que saíram as cinquenta crônicas que compõem o livro Diário do Avoante.

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Em um giro pelos sites de mídia social busquei assunto para preencher essa página do Diário, mas me vi perdido navegando entre frases e afirmações que me causaram espanto. Não acho que a vida precise ser levada tão a sério a ponto de não podermos atravessar o passo. Minha decisão pelo mar foi para seguir mais próximo de um mundo que um dia sonhei existir. Hoje sei que ele existe!

Sei que não é fácil tomar a decisão de morar a bordo de um veleiro, porque passei por isso e sei o quanto acabrunhado fiquei ao deparar-me com dilemas e medos, mas nem por isso perdi o rumo do sonho. Poderia muito bem ter desistido na primeira encruzilhada, porém, o desejo de seguir em frente bateu pé e sem olhar para os lados continuei caminhando.

Quase sempre me vejo diante de pessoas que pensam fazer a mesma opção de vida que fizemos, mas basta um dedinho de prosa para ter a certeza que o que elas têm é apenas vontade e o não sonho. Vontade é aquela coisa que dá é passa e sonho é aquilo que fica pulsando em nossa mente por toda a vida e enquanto não realizamos ele vai se tornando uma ferida incurável.

É da natureza humana deixar o sonho para depois ou achar que tudo não passa de utopia. Muitas vezes ele está a um passo da realização, porém, teimamos em fechar os olhos para não enxergá-lo. Somos mestres em inventar desculpar esfarrapadas e pavimentar atalhos coloridos para nossas desistências, achando assim que estamos tomando a decisão mais acertada. Acertada para quem cara pálida?

Numa rodada de bate papo pelos mares internéticos, em que fiquei apenas como um mero observador, alguém escreveu, e outros aprovaram, que morar a bordo de um veleiro era uma coisa desumana e que se ele um dia fizesse essa opção, o faria cercado de muito conforto. De início não entendi o “muito”, mas no decorrer do bate papo vi que do outro lado da tela estava um destruidor de sonhos.

Destruidor de sonhos é aquela pessoa que deixou o tempo passar e quando ele finalmente saiu em busca de realizar o sonho de vida, infelizmente percebeu que ele havia passado. Gastou boa parte da vida equipando o barco para a grande viagem, comprando os últimos lançamentos em eletrônica, se inteirando dos melhores conhecimentos náuticos, aperfeiçoando e refazendo tudo a cada virada de ano e quando se deu conta, não tinha condições físicas e nem saúde para tocar o barco.

Mas não pense que o destruidor de sonho é apenas aquele em que a idade avançou um pouco mais da conta, pois ele se apresenta nas mais variadas formas e idade. Tem aquele chato que fica azucrinando os ouvidos alheios e se gabando que seu veleiro é o que existe de mais moderno no mundo e está equipado com os últimos lançamentos do salão náutico do mundo intergaláctico.

Tem também aquele que sofre da síndrome do Joãozinho e adora jogar um balde de água fria na alegria dos outros com frases assim: O meu é melhor do que o seu! O meu é mais moderno do que o seu! O meu é mais perfeito! Se eu fosse você faria igual a mim! O seu não vai funcionar com perfeição! Se a gente ficar enfurecido e apontar para as partes baixar e perguntar: Você tem um desses? Com certeza ele irá responder: – Não, mas tenho um que dá dois desse! O cabra não perde uma!

Em outro grupo os participantes comentavam sobre um velejador estrangeiro, de 76 anos, que morou boa parte da sua vida a bordo no Brasil e que faleceu no começo de 2015. Esse velejador morava em um veleiro de pouco mais de cinco metros e viveu a vida seguindo os manuais de um bom velejador de cruzeiro, que diz assim em seu artigo único escrito em letras imaginárias: Embarque com a alma focada na simplicidade, perseverança, prazer, alegria e paz.

Infelizmente não tive o prazer de conhecê-lo, mas ao ler os comentários, contidos no grupo de bate papo, vi com tristeza que sua forma de vida estava sendo passada a limpo de uma forma destorcida, perversa e por pessoas que nem chegaram a conhecê-lo. Alguém o acusou de mendicante, outro de maluco e, como sempre, teve quem o definisse como um grande irresponsável.

Mas é assim mesmo. Quem resolve fugir dos parâmetros estabelecidos pela sociedade, que nem sempre são tão estabelecidos assim, tende a receber estigmas. A vida em um veleiro é bela, rica em simplicidade e incrivelmente desarmada de tendências e modismos. Quem decide por ela tem que saber dosar os sentidos e a razão.

A urbanidade é uma velha feiticeira que sabe iludir suas crias em um mar de emoções. O mar é um velho mágico transvertido de encantos.

Não me acuse de estar fazendo apologia à vida a bordo, mas se quiser pensar assim pode ficar certo que você está certíssimo.

Nelson Mattos Filho/Velejador

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16 Respostas para “Comentando comentários

  1. É isso ai Nelsão! Vivemos muito “presos” a essa vida de gado. Um abraço

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  2. mauro jose de araujo

    acompanho seu diario há dois anos e gosto muito de suas colocações. E suas aventuras na Bahia.

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  3. Grande Nelson, seus textos são sempre inspiradores e me fazem repensar a forma de levar a vida. Estou aguardando o Diário do Avoante II.

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    • diariodoavoante

      Caro Artur, fico feliz pelos textos estarem despertando em você novos sonhos e horizonte. Quanto ao Diário Avoante II, estamos trabalhando nele. Grande abraço, Nelson

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  4. “Eitxa! Que o homi resolveu espinafrar o mau olhado.” Muito bacana a análise dos desalentados, desanimados e afins.Abraço

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  5. Nelson ouvi de um mestre que quem ajeita demais barco não navega e quem veleja sempre sai estando ou não tudo como queria no barco. Triste imaginar essas coisas de luxo na vela. Vivas ao seu artigo. Há os que nasceram para preparar interminavelmente seus barcos parados e os que nasceram para navega-los.

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  6. É ISSO MESMO, Cmte. Nelson, INFELISMENTE nossos governantes dão as costas para nossa riquissima Costa Brasileira, tenho exemplo, aqui em nossa região, apresentamos um projeto de criação de uma Marina NO espaço do Porto que é muito grande, com engenheiro Italiano, maquete, e tudo mais, apresentamos ao Prefeito, ao Superintendente do Porto, aos orgãos ambientais, e todos deram as costas ao projeto alegando que não era importante. Veja só! nós com essa marina, iriamos receber navegadores de quem vai descer pro sul e vice versa, navegadores que vem do continente africano e europeu, quem vem da argentina e chile.
    em suma seria movimentadissimo e geraria emprego para muita gente.
    mas as cabecinhas de melão dos dirigentes do porto e municipio só pensam em INDUSTRIAS poluidoras, como CIMENTO, quimica, tintas.
    que dão emprego para poucos pois são industrias automatizadas.
    Demos exemplo das costas do mediterraneo, onde a industria e turismo nautico geram milhoes por ano. mesmo assim as cabecinhas não se fazem enteder. é uma pena. mas vamos a luta. muito bom teu textos, acompanho também. vamos ver se algum dia melhora isso.
    grande abraço;. Gilberto e Helenita. VELEIRO “NITAEBETO”

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  7. Pois é Nelson, tenho muito temor que suas encorajadoras palavras estejam também certas, no que diz respeito ao tempo que passa e que não temos mais condições de fazer o que podíamos ter feito, enquanto tínhamos saúde.
    O fato é que muita gente depende de mim e minha aposentadoria ainda está a uns dez anos de se concretizar.
    Às vezes bate até um certo desespero com estas perguntas. Será que ainda terei saúde quando chegar lá? Será que não estou me escudando em desculpas para não fazer o que seria o meu dever?
    Algumas vezes deixo de acessar o “Diário”, para não ter que escutar suas sábias palavras…
    Será que não estou botando minha cabeça em um buraco, como fazem as avestruzes?

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    • diariodoavoante

      Hélio, não se avexe com meus textos e nem queira meter os pés pelas mãos com eles debaixo do braço. As amarras da vida urbana são mesmo grossas e quase indestrutíveis e a nossa cabeça é uma grande cunho de amarração. Meu amigo, venha navegar uns dias com a gente e ver como a vida pode ser diferente, ou pelo menos olhada de outro ângulo. Grande abraço, Nelson

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