O grande mar – IV


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A Baía do Iguape é um mundo de água cercado por um vasto manguezal. Em suas margens se debruçam o município de Maragojipe e os povoados de Nagé, São Francisco do Paraguaçu, São Tiago do Iguape e outras povoações menores, além de pequenas ilhas, entre elas a do Francês, que divide o rio ao meio, e do Coelho, que tem um fundeadouro maravilhoso. A baía é rica em várias espécies de peixes, moluscos e mariscos, entre eles se destaca o camarão.

Iguape é uma RESEX – Reserva Extrativista Federal, com 10.082,45 hectares, ligada ao ICMbio. Grande parcela da população vem de origem quilombola e sobrevive da pesca artesanal, cultura do fumo e agricultura familiar.

A navegação no Rio Paraguaçu não oferece grandes perigos, mas é indicado estudar bem a carta náutica e seguir com atenção os waypoints demarcados. O problema maior são as redes de pesca que não são poucas, mas nada que um bom comandante não resolva.

Dentro da Baía do Iguape, a partir da ilha do Francês, a navegação merece sim atenção, porque ela tem alguns bancos de areia que descobrem na maré baixa. O canal navegável para barcos de calado maior do que 80 centímetros – o Avoante tem 1,6 metros – é quase sempre próximo ao mangue e varia a profundidade entre 5 e 10 metros. Outra dica é que o navegante preste atenção na mudança de maré para descer ou subir o rio, porque a força da correnteza é muito forte. Porém, apesar dessa força, o fundeio é sempre tranquilo, desde que se observem as boas regras de ancoragem, entre elas, nunca jogar amarra em quantidade menor do que três vezes a profundidade do local. Eu aconselho a partir de quatro para qualquer ancoragem.

Navegar até São Tiago do Iguape é um misto de preocupação e deslumbramento, porque a carta náutica da baía do Iguape acaba assim que passamos o povoado de São Francisco do Paraguaçu. A partir daí, para aqueles que vão até lá pela primeira vez – que foi o meu caso – a navegação é pelo GPS seguindo a rota em cima da risca. O alívio é saber que a profundidade é satisfatória e a paisagem apaixonante.

Bem, na última página desse Diário estávamos com o Avoante ancorado em frente à Igreja Matriz de São Tiago e havíamos desembarcado para buscar informações sobre o lugar. Foi ai que cruzamos com Dona Maria, uma das antigas moradoras, que com um sorriso largo no rosto nos colocou a par de alguns detalhes que o tempo encobriu.

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Lucia cascaviou os segredos para preparar o camarão defumado e prometeu voltar para a aula prática. Dizem que em São Tiago se produz os melhores camarões defumados do mundo. Vamos ver! Dona Calú nos presenteou com uma deliciosa fruta-pão e assim fomos caminhar um pouco pelas ruas que se preparavam para comemorar um São Pedro atrasado. Essa é a maior festa do povoado e várias bandas estavam sendo anunciadas. Pelo andar da carruagem, o barulho ia ser grande e eu já fiquei de orelha em pé.

Na caminhada encontramos o Seu Lito, aquele que nos vendeu o camarão na ancoragem, e como não fomos pegar o camarão em sua casa, ele prometeu que deixaria a encomenda no Avoante no dia seguinte, acompanhado com algumas barras de gelo. As cinco da matina ele bateu lá!

Tomamos café da manhã e esperamos a maré de vazante para escapulir do barulho da festa que começaria a noite. Levantamos âncora ao meio dia levando a saudade daqueles novos amigos e da paisagem abençoada pela Matriz de São Tiago do Iguape. Fiquei triste pela falta de um píer de desembarque, mas nem tudo é perfeito e quem sabe um dia apareça um filho de Deus para implantar o equipamento que dará outra dinâmica ao turismo do povoado. Porém, a falta de um píer não é motivo para que se deixe de navegar até lá.

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Uma curva, mais outra e assim aproamos mais uma igreja histórica as margens do rio. Dessa vez era a Igreja e Convento de Santo Francisco do Paraguaçu, localizado no distrito de São Francisco, e apesar de estar sob os cuidados da Lei do Iphan, encontra-se em situação vexatória. Queira Deus que suas paredes resistam às ações implacáveis do tempo.

Chegamos a São Francisco no meio da tarde e na hora de jogar âncora, fomos alertados pelos pescadores que em frente ao Convento era área de pesca. Indicaram um lugar um pouco mais atrás e assim a âncora foi lançada ao mar e Lucia serviu o almoço: Massa de Conchitas com Camarão de São Tiago, regado com um bom vinho. O camarão de Iguape é realmente dos deuses.

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Após o almoço ficamos no cockpit admirando mais uma bela paisagem, o pôr do sol e a espera da Lua cheia que, ao sair, prateou o espelho de mar da baía do Iguape. Planejamos o desembarque para o dia seguinte, novamente na maré cheia.

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A noite foi de tranquilidade e sono solto.

Nelson Mattos Filho/Velejador

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6 Respostas para “O grande mar – IV

  1. Lindas fotos e narrativa
    Parabens

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  2. Cicero Carlos de Farias

    Acredito que o que foi relatado nessa bela Crônica de Nelson tem muito haver com minha mensagem sobre a verdadeira qualidade de vida:

    Amar a vida

    Amar a vida é acordar revigorado a cada manhã, observar e meditar nas coisas mais insignificantes até as mais importantes na relação humana, inserindo-se com todos os elementos nesse contexto.
    Amar a vida é recriar uma nova escala de valores, a partir do amor e da vontade de viver bem e com qualidade. É saber que nada tem mais valor do que a saúde e o bem estar com nosso próximo, a quem amamos. É ter a certeza de que o maior salário que podemos receber é uma boa consciência, um sorriso, um gesto de aprovação, de estarmos juntos, unidos nesse privilégio impar de viver.
    Amar a vida é nos reconhecer como passageiros no mesmo veleiro que é o mundo. É admirar o por do sol, a beleza das flores, o canto dos pássaros. É respeitar toda vida que se faz presente em todo seu habitat. É ativar a consciência no desejo de manter e preservar, desnudado de toda e qualquer ganância, egoísmo e cobiça da natureza humana.
    Amar a vida extrapola toda sabedoria humana. É nos reconhecermos também como criação e parte integrante do meio ambiente. É viver momentos felizes, mas também é sofrer com os que sofrem e assim sabendo que toda a agressão á humanidade será sempre uma agressão á natureza.
    Amar a vida também é nos vermos como seres únicos e capazes, mas que nem por isso precisamos aparecer de formar frenética querendo deixar marcas questionáveis de reconhecimento que o tempo um dia vai apagar, porque amar a vida é simplesmente viver cada dia com sabedoria, pois qualquer coisa que vá além disso resulta em impactos diversos e grande desamor.
    Amar a vida finalmente é ter um grande privilégio universal de ser um ser social dotado de racionalidade com conhecimento, sabedoria, perspicácia e discernimento, fazendo escolhas certas que nem sempre estarão de acordo com a maioria, mas que sigam o maior propósito divinal do amor ao próximo, do amor a vida.

    Cicero Carlos

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  3. Cicero Carlos de Farias

    Para mim é um grande privilégio,

    Grato

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