Foguetes?


2 fevereiro (113)

Os causos do mundo náutico navegam em um mar que muitas vezes beira a incredulidade, mas são contadas com tanta riqueza de detalhes que por mais que a gente tente duvidar, fica sempre alguma ponta de verdade solta sobre o convés.

Há tempos escuto o caso de um velejador baiano que enfrentou de arma em punho um navio, mas sempre a história vinha acrescida de um ponto a mais. Recentemente ouvi o relato da boca do protagonista e sinceramente achei que os outros narradores foram bem mais cautelosos.

Se é verdade ou se é mentira eu é que não posso garantir e nem vou tirar a prova dos nove. Mas a peleja foi assim que me contaram e juro que não acrescentarei nem uma vírgula sequer:

Era noite de Lua sobre a Baía de Todos os Santos quando um veleirinho saiu de uma das marinas do bairro da Ribeira e na calada da noite aproou a Ilha de Itaparica. A bordo estavam o nosso amigo e a esposa numa velejada que prometia paz, tranquilidade e romantismo. Velas enfunadas sob o luar, vento soprando tão preguiçosamente que quase não tinha forças para impulsionar o veleiro que navegava a pouco mais de um nó de velocidade.

Após duas horas de navegada o velejador observou luzes de navegação na direção da Ilha de Maré e percebeu que se tratava de um navio. Conferiu o rumo, olhou novamente para as luzes e sentenciou que aquela embarcação vinha em rumo de colisão com seu veleiro. De pronto ele alterou o rumo e pegou o rádio para alertar a embarcação que se aproximava que ele estava apenas na vela e, devido ao pouco vento, com manobra restrita. Ninguém respondeu sua chamada.

Conferiu tudo novamente, mais uma vez alterou o rumo, chamou no rádio e nada daquele navio sair do seu encalço e nem responder o chamado. O navio chegava perigosamente mais perto e depois de várias tentativas de chamada e mudanças de rumos, viu o navio passar raspando pela popa do veleiro enquanto ele suando e sem fala corria para dentro da cabine para descarregar a raiva.

Como um raio, ele saiu lá de dentro armado com uma espingarda de repetição e não pensou duas vezes em disparar contra aquele navio que se afastava sem dar conta da sua pequena embarcação. As balas riscaram a noite enquanto ele descarregava o verbo ao vento e assim o navio se foi e ele retomou o rumo para Itaparica. Para acalmar os nervos, preparou uma boa dose de whisky e foi tentar relaxar no cockpit.

Foi ai que notou que o navio havia dado meia volta e novamente estava aproando o veleiro. Soltou mais um impropério com aquela visão de filme de terror, chamou a esposa que estava dentro da cabine e disse: – O navio está novamente em nossa cola e agora não sei mais o que fazer. A esposa arregalou os olhos, ficou estatelada e quando tentou falar não saiu nada.

O velejador lembrou-se dos tiros com arrependimento e observou atentamente a silhueta do navio sentenciando: – Se for um navio mercante, acho que ele vai passar por cima da gente, mas se for um navio da Marinha estamos presos.

O navio chegou perto, diminuiu a marcha e foi ai que ele teve certeza que iria parar no xilindró, pois aquele era um navio da Marinha. Foi despertado daquele estado de êxtase pelo chamado de um megafone e correu para o VHF para tentar se justificar. Sem dar tempo a resposta, ele soltou os cachorros pelo rádio: Perguntou se naquele navio não existia comando; Disse que quase era atropelado pela irresponsabilidade deles; Que estava a bordo com esposa grávida e que ela estava passando mal e mais um monte um milacrias.

Do outro lado do rádio um oficial se identificou e perguntou se eles estavam precisando de alguma ajuda e que haviam retornado porque viram foguetes sinalizadores serem disparados do veleiro. Disse ainda que desde o inicio estavam com o veleiro em seus monitores de radar. Pediu desculpas pelo ocorrido e que estavam com um médico a bordo e este poderia atender à senhora que estava passando mal.

O velejador ouviu tudo aquilo com espanto e no final respondeu: Foguetes? Mas eu não lancei foguete nenhum. Minha esposa agora está bem e, por favor, me deixem seguir viagem que já está muito tarde para ancorar em Itaparica.

Os anos passaram e num belo dia o velejador conversava com alguns amigos da Marinha, todos na reserva, quando relatou esse caso e um deles chamou outro que estava um pouco mais afastado: Fulano venha até aqui que descobri quem atirou em seu navio.

E quem quiser que conte outra.

Nelson Mattos Filho/Velejador

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4 Respostas para “Foguetes?

  1. Essa é daquelas por assim dizer. Risos.

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  2. Pense num cara de sorte, por não puxar uma cadeia!
    E pense nuns marinheiros que não sabem diferenciar um foguete dum tiro!

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