Minha Mãe não é uma figura


IMG_0153

“Defina a figura de uma mãe e concorra a brindes.” Li essa frase em um desses folhetos publicitários que emporcalham as calçadas das nossas cidades e sinceramente não entendi o que a “genialidade” daquele anuncio queria dizer. Estava sentado num banco de uma praça central, observando a cidade desfilar em minha frente, enquanto Lucia fazia compras em um armarinho próximo. Adoro viver esses momentos e sentir a pulsação que emana das ruas. Mas aquele folheto me encucou.

Definir a figura de uma Mãe? Definir a figura? Os dicionários dizem assim: Figura e a forma exterior de um corpo, de um ser. Aspecto, aparência, estatura, configuração de pessoa humana: uma bela figura. Personalidade marcante, vulto. Imagem, símbolo, emblema. Mãe não é figura. Mãe é Mãe! Assim mesmo com “M” maiúsculo. Não me queiram mal, mas é assim que vejo.

Não posso definir minha Mãe apenas como uma pessoa amada, corajosa, atenciosa, humilde, amiga, valente, forte, sincera, solidária, acolhedora, festeira, temente a Cristo e a todo seu séquito de santos, porque ela é muito mais do que isso para mim. Minha Mãe é tudo e me desespero somente em imaginar sua falta. Não consigo definir minha Mãe, porque amor de Mãe não se define.

Mamãe, como é gostoso festejar mais um dia sabendo que a Senhora está ai, pronta a me receber de braços abertos e a qualquer hora do dia. Como é gostoso sentir o seu cheiro mesmo estando à milhas de distância de sua presença. Como é bom sentir o contato de sua pele e alisar seus cabelos através da fantástica magia telepática que se faz presente na mente de um filho.

Festejo sim o dia das Mães, mas saiba que o festejo todos os dias de minha vida e em nenhum milésimo de segundo a Senhora é esquecida. Sua imagem me sorri a cada passo que dou e por isso vacilo em alguns quando não a vejo sorrindo. Seu exemplo de vida é uma fortaleza de energia e a cada rasteira que a vida tenta lhe impor, mais a Senhora se agiganta.

Há pouco menos de um ano a visitei em uma UTI de hospital e aquilo para mim foi um choque. Minha alma pedia para que não entrasse, mas a mente bateu pé e entrei. Quanta tristeza! Quanta emoção! Quantas lágrimas tive que segurar em ver a Senhora me olhando e sem falar nada me pedir para retirá-la dali. Saí daquela UTI com o coração dilacerado e ouvindo a alma me sussurrar: Eu pedi para que não entrasse, agora seja forte! A enfermidade passou e a Senhora voltou a usar seus trajes de Rainha. Minha Rainha! Por favor Ceminha, nunca mais me assuste assim.

Claro, essa é minha Mãe, minha Ceminha, a pilastra mestra de minha estrutura. Não tenho como sentir diferente, pois é isso que sinto. Não estou a definindo, mas mesmo que assim fosse, estaria definindo a minha Mãe e ela é diferente da Mãe dos meus irmãos. Cada um sente do seu jeito. Cada um ama de uma forma. Cada um tem seus sentimentos. E sei que todos a idolatram, mas a minha Mãe é a minha Mãe.

Outras pilastras compõe o corpo de um homem, mas nenhuma tão forte e estruturalmente tão bem concretada como a que uma Mãe representa. Olhando para elas parecem frágeis, mas são dotadas do material que compõem as mais duras rochas produzidas na natureza. Não as subestimem

Mas e o panfleto? Pois é, ele ainda continua a me incomodar e acho até que poderia participar daquele concurso. Poderia muito bem escrever apenas a palavra amor e esperar pelo resultado. Mas tenho quase certeza que nem ficaria entre os últimos colocados. Talvez sim, porém, amor nos dias de hoje é um sentimento muito comum e até banal. Os marqueteiros querem coisas novas, palavras novas, sentimentos novos. Não, amor não ganha nada!

Poderia até escrever tudo que escrevi ai em cima, mas acho que ficaria muito longo. Será que os jurados teriam paciência para ler? Hoje as pessoas não gostam de ler mais do que cem caracteres. Não, não vou participar daquela promoção que transforma Mãe em figura. Estou decidido e nem sei onde coloquei o panfleto e nem lembro o nome da loja.

Minha Ceminha, desejo que nesse dia a Senhora tenha todas as alegrias do mundo e vou apenas lhe fazer alguns pedidos, porque sei que serei atendido: Em suas orações peça por todas as Mães do mundo e também por aquelas que já não estão entre nós. Peça também conforto para o coração das Mães daqueles velejadores, que como seu filho, navegam loucos pelos oceanos do mundo.

Um grande beijo minha Ceminha e fique em paz.

Nelson Mattos Filho/Velejador

Anúncios

4 Respostas para “Minha Mãe não é uma figura

  1. Nelson, você conseguiu se superar: sua crônica de hoje é de uma sensibilidade ímpar. AMEI! Vão meus parabéns para Ceminha por ser a razão de tão belas reflexões. E a você, parabéns por ser filho de Ceminha!
    Um grande beijo para você e Lucia.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s