Amigos, ironia desta vida


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O amigo, velejador, poeta, escritor, boêmio e inveterado amante dos oceanos, Érico Amorim, certo dia enviou o texto maravilhoso que você lerá abaixo e este navegou perdido pelos arquivos secretos desse meu computador metido a pregar peças. Futucando aqui e ali resgatei a crônica e agora divido com você leitor, com o consentimento do autor. A título de esclarecimento: IDEC, mencionado, é o Instituto de Desenvolvimento Sustentável do Rio Grande do Norte, do qual o autor esteve presidente.

Amigos, ironia desta vida.

Pequena crônica de Érico Amorim

O amigo Sydnei, de São Paulo, às vezes, talvez brincando, dizia: é isso aí, já estou no outono da vida. Talvez se referindo à maturidade de seus 70 anos. Hoje, almoçando sozinho, fazendo jus aos meus dotes culinários e tomando meu vinho, entra a Alcione: “amigo, ironia desta vida, você me ouve mais que os amigos lá do Brás”. Aí eu não resisti e comecei matutar cá com meus botões. Fui passando minha vida a limpo, resumindo essas duas ideias: poucos amigos e a dificuldade de comunicação entre as pessoas. Será que estou no outono da vida, já com poucos amigos e ninguém me escuta mais?

Quanto a não escutar ou outros, nisso eu sou Doutor. Passei a vida toda interrompendo o fim das frases alheias. Se eu fazia um sacrifício enorme para sintetizar minhas ideias, por que seria obrigado a ouvir tantas repetições? Aqueles discursos sem fim sempre me pareceram um atestado de burrice e por mais que me contivesse não resistia ouvi-los até o fim.

O tempo, porém é senhor de todas as verdades. E descobri que ouvindo mais e falando menos a gente fica com mais tempo para refletir naquilo que ouvimos e se falamos pouco provavelmente erramos menos. Churchill disse: deixe os outros errarem também. Esse aprendizado, no entanto, não foi muito fácil, mas fiz um grande avanço e hoje já consigo ouvir as maiores asneiras sem interromper o interlocutor. O raciocínio é simples: pra que interromper semelhante besteira? E se for um raciocínio que não consegui acompanhar de tão profundo, terei tempo para refletir.

E os amigos? Há, esses a gente só consegue reconhecê-los depois dos fatos passados. Talvez por ter tido a criação que tive e um pai espiritualmente avançado, não imaginava, por exemplo, que todos aqueles que se ofereciam para jantar na sexta-feira estavam interessados tão somente em jantar com o Presidente do IDEC (hoje Idema) e não com Érico Amorim .

Como a vida dá voltas, quando voltei a assumir cargos importantes depois de ter deixado o IDEC passei a ver que alguns davam sinais de bajulação e nada de amizade sincera, ou mesmo amizade nua e crua. Aí, porém eu já havia aprendido a lição.

Outros falsos amigos que frequentaram minha casa, ou mesmo filho de amigos meus ou também colegas que na Faculdade eram pessoas simples se transformaram ao assumir cargos públicos passando a mostrar seus verdadeiros sentimentos.

Parece que Sydnei tem uma certa razão: somente no outono da vida, quando se consegue distinguir bem o joio do trigo a gente ouve mais e distingue facilmente os verdadeiros amigos. Mesmo aqueles que por mais ausente que estejam são amigos de verdade.

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15 Respostas para “Amigos, ironia desta vida

  1. Verdade verdadeira, Sábio Erico Amorim das Virgens, sou fã de carteirinha!!! Agora que ele escuta pouco …melhorou um pouco…. tolerância Zero!!! Certo ele…kkkkkkkkkkk Powwwww!!!!

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    • diariodoavoante

      Grande Pow, Pow, obrigado pelo comentário. Qualquer dia desses estarei passando na Barrinha. Prepare o vinho. Um grande abraço, Nelson

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  2. Um texto,muito lúcido!

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  3. Concordo em gênero numero e grau com o texto uma vez que me considero no outono da vida e o meu filling é o mesmo.Eu deveria ter considerado que temos duas orelhas para ouvir mais e uma só boca pra falar menos. Parabéns pelo artigo que valeu pra reflexão. Abs. Cabral.

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  4. João Vianey de Farias

    Excelente texto! Estou chegando aos 6.0 e também começando a aprender a ouvir muito mais que falar… Nesses tempos de muita ostentação e vaidade é difícil fazermos esse exercício, mais não impossível!

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    • diariodoavoante

      Caro Vianey, na minha adolescência sempre ouvi mais do que falei e sempre gostei de observar muito. No decorrer da vida fui mudando esse jeito suave de ser e inverti a ordem. O resultado é que de vez em quando me vejo em apuros. O texto de Érico Amorim é para mim muito bem vindo. Um grande abraço, Nelson

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  5. Será que só se chega nesse outono com essa idade ou apenas refletindo o dia a dia?

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  6. Roberto Rodrigues

    Ótimo texto e comentário. Realmente vale muito para reflexão. Estou nos 6.0, não penso em idade, vivo a vida, mas entendo perfeitamente o que comentou.
    Abraço.

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  7. Não cheguei lá ainda no Outono da Vida, acho que ainda estou curtindo um pouco mais da metade do Verão….Mas, fiquei incucado com esse texto do comandante Érico!

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  8. Adorei a leitura! Tentarei colocar em prática a lição aprendida 😉 Beijos :*

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