Um caso aqui, outro acolá


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Numa rodada de violão a bordo do Avoante, numa noite de lua nova sobre o mar da Ilha de Itaparica, surgiu à história do velejador que tinha em seu barco um motor super econômico que nem ele sabia avaliar o consumo.

Saíram dois amigos navegando cada um em seu veleiro com vento macio e mar de almirante, quando sem ter nem pra que, um deles decidiu ligar o motor. Diz ele que era para dar uma carga nas baterias, mas o outro acha que era para conseguir navegar um pouquinho mais rápido. Fica assim o dito pelo não dito.

Depois de uns quinze minutos em que o motor zoava em meio à noite, o bicho deu um piripaque e parou. Sem entender o que se passava o velejador tocou novamente na chave e escutou apenas um suspiro de reclamação. Ele arregalou os olhos e quando se virou para a esposa ela estava com os olhos mais aboticados do que os dele e já na eminencia de puxar os cabelos.

O velejador respirou fundo para retomar a razão, olhou em volta e correu para a cabina para acionar o rádio VHF e pedir socorro ao amigo que navegava um pouco mais a frente. As primeiras palavras saíram meio atrapalhadas e quase aos berros, mas depois de outra respirada forte as palavras fluíram para ele conseguir explicar a situação: – Amigo, meu motor parou e agora? O outro não contou conversa e deu a solução: – Rapaz, seu barco é a vela, então vá velejar e se acalme! Pois num é que era verdade!

Respirou fundo novamente, enxugou o suor que a essas alturas do campeonato escorria em sua testa e partiu para regular as velas e tentar chegar ao local da ancoragem. Fez tudo certinho, com a calma que o momento exigia, e conseguiu.

O amigo veio até o seu barco e juntos foram tentar achar o motivo do problema. Mexeram daqui, sacudiram de lá, apertaram parafusos, bateram no motor, sopraram mangueiras, ficaram na iminência de virar o motor de cabeça para baixo e entre um aperto e outro o amigo perguntava se tinha combustível. A resposta era sempre a mesma: – Tem e esse motor é super econômico.

Sem mais o que fazer, sem mais onde mexer, o amigo insistiu na pergunta do combustível e foi quando o velejador respondeu que sabia que tinha, pois havia enchido o tanque há oito meses, mas sabia que o motor era econômico e tinha certeza absoluta que ainda havia combustível no tanque.

O amigo deu uma olhada de través para ele e pediu para verificar a afirmação. Amararam um parafuso em um cabinho e quando jogaram dentro do tanque o danado ficou pulando e fazendo barulho por quase dez minutos, anunciado a secura do tanque. O velejador arregalou os olhos novamente e disse: – Mas homi, eu jurava que ainda havia diesel, pois esse motor é super econômico. O outro respondeu: – Eu sei, mas de vez em quando é bom você colocar nem que seja um pouquinho.

Depois da história do combustível o violão voltou a tocar e após duas músicas parou novamente para alguém contar outro caso.

Outro velejador brabo que nem um siri numa lata estava com o veleiro ancorado na Baía de Tínhare/BA, quando na boquinha da noite deitou para dar um cochilo no cockpit enquanto a esposa fazia uma arrumação na cabine.

Com o sono quase ferrado escutou bem longe o barulho do motor de uma escuna se aproximando e em seguida o marulhar de alguma coisa caindo na água. Com os olhos fecha não fecha e o sono tomando conta do seu pensar, escutou a escuna indo embora bem devagar e novamente o marulhar de águas em movimento bem próximo ao veleiro.

Num segundo ele abriu os olhos e ficou atento ao barulho, mas como não escutou mais nada, fechou novamente os olhos e tentou pegar no sono. Uma pulga beliscou seu juízo e ele levantou para dar uma olhada ao redor e nessa hora viu um homem remando um bote inflável se dirigindo para um igarapé. Num lampejo sua vista procurou pelo seu bote e viu o canto mais limpo do mundo. Ele deu um gritou e somente recebeu como resposta uma risada e o grito de: Perdeu!

Brabo como ele é, teve que engolir a brabeza e se contentar com a perda e ter ainda que ouvir a gozação dos amigos que não deixam barato. Até hoje quando alguém pergunta pelo ocorrido, ele insiste em dizer que estava dormindo e que nem viu quando levaram o bote. Mas o interlocutor pergunta de propósito apenas para ver a sua face vermelha da raiva, que depois de quase dez anos ainda não passou.

Tem outra boa sobre inflável que aconteceu durante a reunião de comandantes para a regata Aratu/Maragogipe, mas essa vai ficar para outra página desse diário, porque o moído é grande.

Nelson Mattos Filho/Velejador

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2 Respostas para “Um caso aqui, outro acolá

  1. To louco pra saber essa do inflável.

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