Um grito solitário


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A morte de um velejador holandês na madrugada do domingo de Carnaval na Baía de São Marcos, no Maranhão, reacendeu uma luz vermelha sobre o mar brasileiro para os velejadores estrangeiros e gerou centenas de comentários acalorados nos blog náuticos e nas redes sociais, mas que infelizmente não passarão de palavras soltas ao vento e sem nenhum efeito prático para que as autoridades tomem ciência. A violência no Brasil virou uma indecifrável banalidade e dificilmente sairemos de suas garras num futuro próximo.

O velejador de 60 anos dormia ao lado da esposa quando foi surpreendido por três bandidos dentro do barco. Depois de uma rápida discussão o velejador levou um tiro e morreu na hora. Os noticiários anunciaram que os marginais não roubaram nada, o que é uma grande inverdade, pois levaram o maior bem que é a vida de uma pessoa. Ou será que isso não tem mais valor no mundo de hoje?

Até quando iremos conviver pacificamente com cenas como essa? Até quando vamos permitir que a brutalidade e a barbárie nos intimide e aprisione o silêncio do nosso grito de horror? Até quando vamos ficar acovardados diante das promessas vãs das nossas ditas autoridades e aplaudindo a desfaçatez de suas falas mansas cheias de subterfúgios? Até quando?

Sei que minha voz não é nada e muito menos representa um pingo de água em meio ao oceano, mas estou farto dessa violência desenfreada que assola o Brasil de ponta a ponta. Estou cansado da falta de rumo e de pulso dos homens que comandam nossos tribunais com uma leniência descarada e que envergonha a nós. Queria mesmo saber como é que nossos valorosos homens das leis deitam a cabeça no travesseiro e dormem o sono dos justos, sabendo eles das injustiças que cometeram durante o dia nos tribunais.

Precisamos de homens que tratem os marginais, de todas as esferas, como eles merecem ser tratados. Precisamos de respostas rápidas, claras, objetivas e corajosas para podermos ter a paz e a liberdade que a vida merece. Chega de passar a mão na cabeça de bandidos ou cobri-los com o manto utópico da exclusão social, pois eles não sentem nada por suas vítimas a não ser desprezo.

Eles não são excluídos, excluídos somos nós que não podemos caminhar despreocupados e sem medo pelas ruas da cidade. Nem dentro de casa temos mais sossego. Excluíram a nossa paz, roubaram a nossa tranquilidade, aniquilaram nossa liberdade, matam por matar, roubam por roubar e riem da nossa cara de palhaço amedrontado. Isso mesmo, palhaços é o que somos.

“Raiva, muita raiva”. Foram essas as palavras ditas pela esposa do velejador assassinado no Maranhão. São as mesmas palavras pronunciadas por todo aquele que tem um ente próximo tolhido pela besta fera da violência, ou que perde seus bens para um verme desumano e bárbaro. Infelizmente não nos resta outro sentimento a não ser a impotência de não poder fazer nada.

Reclamar a quem? Pedir ajuda a quem? Quem nos protege? Quem zela por nós? Até mesmo aqueles a quem indicamos como nossos representantes nos passam a perna e invariavelmente aparecem em anúncios de procurados pela polícia.

Estamos perdendo a batalha pela dignidade. Somos reféns dos maus, dos lobos, do terror, das serpentes, da peçonha fatal que paralisa a nossa razão de ser feliz. Continuamos sorrindo, mas um riso amarelo, sem graça, sem eira nem beira. Um riso sem sentido. Uma piada sem nexo. Viramos piada da velha piada pronta.

Eles conseguiram inverter a nossa lógica, não pensamos mais no certo, pois o errado vale mais. O crime passou a compensar e agora a história é outra. Na era em que achávamos que havíamos dominado a tecnologia, começamos a retornar as cavernas, a briga de foice, as matanças, a crueldade. Ressurgiram as lutas demoníacas travadas pelas imbecilidades religiosas. Estamos contaminados pelo fel das cabeças ocas. Ovacionamos os que se fazem de inocentes diante das provas expostas. Estamos fritos. Nossos descendentes estão fritos. Só nos resta pedir calma. Calma para tentar caminhar o caminho que nos resta, mesmo que a raiva core a nossa face.

Peço perdão por toda essa revolta, mas não foi a morte do velejador holandês que fez meu sague ferver, mas sim o conjunto da opera tosca que estamos assistindo calados e impassíveis. Ele foi apenas mais uma vítima que vai ficar por isso mesmo e seus algozes muito em breve estarão nas ruas, se já não estiverem, com as bênçãos de um bom padrinho faminto por voto.

Sei que esse grito solitário jamais será ouvido ou levado a sério, como não seria mesmo que todos nós gritássemos juntos, pois é um grito sem força, rouco, um sopro de vento saindo da garganta que não oferece nenhum perigo aos donos dos palácios, aboletados em suas poltronas de egos. Quem somos nós para exigir nada e a violência é problema nosso e cada qual que tente escapar a sua maneira.

Nelson Mattos Filho/Velejador

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10 Respostas para “Um grito solitário

  1. Rapaz hoje tu acordou brabo hein!
    Realmente nos revolta lermos os jornais ou assistir na televisão tanta violência, tantos desmandos e escândalos e não vermos uma atitude que nos de esperança de mudança por parte da justiça ou dos políticos.
    Não vemos uma luz no fim do túnel, e se aparecer arrisca ser um trem.
    Um abraço e parabéns por esse post, muito bom!

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  2. Nelson, 7 ou 8 anos atrás um jovem bandido, barbarizava em Santo André. Todos sabiam seu nome e de quem era afilhado. Roubava principalmente veleiros que aportavam naquele paraíso, que começava a virar inferno. Sem citar nomes, alguns comerciantes mobilizaram-se e a “coisa” acabou.
    Talvez o PCC, o CV possam ajudar-nos. Se depender dos partidos políticos eles vão cobrar do 3 bandidos maranhenses a propina.
    Gerson
    Velejador

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  3. Nelson, faço minhas as suas palavras, na integra.
    Até quando vamos suportar? Paciência tem limite!
    GOMES/ONDINE

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  4. Revoltante e Preocupante, até quando vamos suportar? e se vamos ter que suportar? eis a questão!!!

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  5. Excelente desabafo, infelizmente “assim caminha a humanidade”

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  6. Nelson, da canseira falar da barbárie praticada explicitamente nessa terra. Infelizmente, estamos sendo forçados a agir por conta própria, ou seja, fazer justiça com as próprias mãos. A inversão de valores é óbvia. O estado fustiga o cidadão de bem com impostos, multas e regras. Enquanto isso a bandidagem goza de privilégios, em toda a sua plenitude. Salário reclusão, indulto de natal, bom comportamento, defensores públicos, réu primário etc. E ainda, os famigerados Direitos Humanos, que não passam de representantes do ilícito nesta Republica podre.

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  7. É lamentável que depois de muito custo e trabalho você vá para o mar desfrutar do seu barco e um meliante safado sem vergonha e sem futuro venha estragar o seu prazer.

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  8. Viver em paz por aqui está, realmente, cada dia mais difícil.
    Dia desses passei uma noite inteira andando por bairros residenciais de uma cidade portuguesa e podem acreditar, não vi um único vigilante, um único policial, nem levei um único susto com cães latindo nem luzes automáticas acendendo.
    O que vi foram muros de 70 centímetros de altura com móveis no terraço, janelas sem grades, bicicletas e brinquedos caídos no jardim…
    Achei tudo aquilo “um absurdo”. A gente por aqui é que já nem percebe o mundo absurdo em que estamos vivendo.

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  9. Roberto Rodrigues

    Nelson, realmente você colocou as coisas como elas são. Parabéns. Infelizmente teremos nós mesmos que arrumarmos uma maneir de nos protegermos, porque se dependermos dos örgâos “incompetentes”, irâ acontecer o mesmo com nós. Bons ventos sempre.

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