A Ilha do Medo


image

A Ilha do Medo, localizada na Baía de Todos os Santos, é um daqueles lugares que entram para a história navegando em um emaranhado de boatos, causos e mistérios. E entre o disse me disse, ninguém sabe realmente destrinchar os segredos ali escondidos. Sempre que procurei saber algo sobre essa ilhazinha isolada me deparei com fragmentos de meias verdades e por isso mesmo desejei pisar em suas areias de um branco convidativo. Se olharmos nas Cartas Náuticas, a vontade de chegar até lá naufraga em meio ao cinturão de uma Coroa ampla e ameaçadora, sem falar nas baterias de corais que fazem fileiras na tropa de defesa organizada pela natureza. Navegando entre as lendas que compõem a paisagem pequenina dessa ilhota que baliza várias rotas no mar do Senhor do Bonfim, acho que a história que mais se aproxima da verdade vem das nuvens que esvoaçam o mundo mágico internético e foi no porto do Wikipédia que andei sabendo que: A Ilha do Medo é uma APA, aliás, a primeira da Baía de Todos os Santos; que ela pertence ao município de Itaparica; que tem área total de 12 mil metros quadrados; que no século XIX teve uso militar; que já foi usada como colônia de leprosos; que por lá ronda o fantasma de um padre que se recusou a celebrar uma missa em Itaparica; que os pescadores, que por lá se aventuram em pescarias noturnas, contam que ouvem gritos e uivos; que um velho pescador deu de cara com uma mulher diabólica que soltava fogo pela boca e após relatar o ocorrido ficou mudo para sempre e que um bando de fantasmas holandeses, dos tempos das invasões, assombra a tudo e a todos. Tem até quem fale em peste de moscas e mosquitos endiabrados e em mortais cobras venenosas rastejando em suas areias. Porém, o que mais festejei é que por lá não existe fonte de água doce e por isso ela continua desabitada pelos irracionais homens sábios. Ponto para as assombrações! Pois é, a história da baiana Ilha do Medo é rica em lendas, mistérios e muito tempero. Mas fui até lá. E sabe o que vi? Vou contar:

IMG_0048

Não sei se pelo meu zelo em preservar o casco do Avoante, ou simplesmente por medo, mas depois de zarpamos de Itaparica para a tão sonhada excursão a Ilha do Medo, há, esqueci de acrescentar que tem quem batize a ilhota de Ilha do Meio, levando a bordo o casal Luiz e Cristina, do veleiro Kireymbaba, numa velejada apenas com genoa, circundei todo o banco de areia em busca de algum canalzinho que tenha passado despercebido dos feitores das Cartas, mas os caras são bons mesmo e não esqueceram nenhum detalhe. Em marcha lenta, com um olho no ecobatimetro e outro no mar, resolvermos jogar âncora na profundidade de 3 metros e a pouco mais de uma milha da Ilha. Lógico que alguns vão questionar por que tão longe e por que não avancei um pouco mais. Outros mais críticos vão dizer assim: Bem feito, quem manda navegar de monocasco. Mas tudo bem, uns são mais corajosos, outros mais precavidos, outros gostam de monocasco outros de multicasco. Felizmente a vida é assim! Existe um canal estreito e raso, entre a Ilha e a Ponta do Dourado, que inclusive tenho os waypointes, pois já naveguei por lá em duas ocasiões: uma a bordo do catamarã Guma, de Davi e Vera Hermida, e outra com o veleiro Malaika, seguindo na esteira do Guma. Mas confesso que ainda não tive coragem de navegar nesse canal sem um apoio, pois o bicho é estreito, raso, bastante sinuoso e acessível somente em maré de enchente.  

IMG_0053  

Com o Avoante ancorado lá longe, almoçamos, tomamos umas cervejas estupidamente gelada e partimos para tentar desmistificar os mistérios da ilha mal assombrada.

IMG_0047IMG_0051IMG_0052IMG_0049IMG_0064 

O local é dotado de uma flora em estado quase bruto, porém, para ser uma APA, Área de Proteção Ambiental, deixa muito a desejar e juro que nem sei se os fiscais da natureza passaram por lá nos últimos tempos. Vimos algumas ruínas em avançado estado de destruição e abandono. Caminhamos alguns metros entre uma trilha que não leva a nada. Dividimos o espaço da praia com alguns nativos de Itaparica que por ali faziam um piquenique, inclusive fomos convidados para apreciar o sabor do churrasco que estava uma delícia. Mas o que mais chamou atenção foi a grande quantidade de lixo, principalmente sacos e garrafas plásticas, que se esparramavam por entre as arvores.

IMG_0054IMG_0056IMG_0069IMG_0070IMG_0072

Diz as normas que regem as Áreas de Proteção Ambiental no Brasil, que são administradas pelo ICMbio, Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, que são áreas, em geral extensa, com um certo grau de ocupação humana, dotadas de atributos abióticos, bióticos, estéticos ou culturais especialmente importantes para a qualidade de vida e o bem-estar das populações humanas, e tem como objetivos básicos proteger a diversidade biológica, disciplinar o processo de ocupação e assegurar a sustentabilidade do uso dos recursos naturais. Podem ser estabelecidas em área de domínio público e/ou privado, pela União, estados ou municípios, não sendo necessária a desapropriação das terras. No entanto, as atividades e usos desenvolvidos estão sujeitos a um disciplinamento específico. É o que diz a Lei. Mas entre o ser e o será existe o verbo.

IMG_0058

Ilha do Medo, o que vi foi o bastante e acho que nunca mais assombrarei seus fantasmas!

Anúncios

11 Respostas para “A Ilha do Medo

  1. Na próxima vez que for a Salvador, vou querer conhecer esse lugar misterioso também.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Muito obrigado PROFESSOR Nelson.

    Já estive alí, com o Hermes, tentando curtir medos da ilha , sem êxito. E o que gostei mesmo foi de perceber que intenção administrativa para evitar destruições por lixo existe. Falta mais presença de ações.
    Mas, gostei de perceber atuação positiva, enriquecendo o Diário do Avoante.

    Curtir

  3. Se você não gosta de holandês para brincar de fantasma, é só não pernoitar por lá, o que é uma pena. O Google Earth está com uma imagem limpa de setembro de 2014, com um conjunto de fotos que mostra inclusive as ruínas da colônia dos leprosos na parte centro-norte da ilha, já saneado em 3 séculos de radiação ultravioleta da insolação tropical. Se quiser ser malvado pode até denunciar o lixo postando no Google Earth as suas fotos. Mas nunca vi por lá cobras, e comparando com Ilhabela, SP, onde metade das praias não são recomendadas para banho, o banho na Ilha do Medo é um tratamento de saúde. E se a comparação for referente aos mosquitos os da Ilha do Medo podem ser considerados até hospitaleiros.

    Curtir

    • diariodoavoante

      Comandante Pinauna, adoro ler seus comentários, sempre tão esclarecedores. Confesso que dei boas risadas com as tiradas carregadas de humor. Um grande abraço meu amigo, Nelson

      Curtir

  4. julival fonseca de góes

    Grande Nelson! “Equivocadamente” nascido no RGN. Mas, por vocação na Baia de Todos os Santos.Excelente sua matéria. Aliás, como pensamos de todas as demais já escritas.No ensejo, convidamos ao amigo a conhecer o projeto PARQUE MARINHO DA BARRA., autoria dentre outros abnegados, do surfista Bernardo Mussi de Araújo. Nossos melhores votos de paz, saúde e dezenas de milhares de milhas navegadas no decorrer deste 2015, ao lado da primeira dama-velejadora, a sra. Lúcia. Fraternalmente,
    Julival Fonsêca de Góes- 71-87741238). Também os especiais cumprimentos do programa A BORDO -Rádio Metrópole 101.3.

    Curtir

    • diariodoavoante

      Caro amigo Julival Góes, fico muito agradecido pela deferência. Sou sim um grande entusiasta da Baía de Todos os Santos, que sempre digo ser um dos melhores lugares do mundo para a navegação, e principalmente em barco a vela. O mar do Senhor do Bonfim é completo, convidativo e apaixonante. Um grande abraço, diretamente da cidade que Câmara Cascudo carinhosamente chamava de Noiva do Sol. Nelson

      Curtir

  5. De repente não tenho medo da Ilha do Medo. Ela parece ser mais interessante do que a cidade onde moro, com certeza.

    Curtir

  6. julival fonseca de góes

    Caro Nelson, velejaro e Potiguar maior: Seu trabalho sobre a Ilha do Medo, continua a merecer nossas atenções: MEDO DE QUE, DE QUEM E PORQUE?Ali se encontra a pequena a pouca porção de terra úmida incrustada sobre as águas da Baia de Todos os Santos:não incomoda a ninguém e por ninguém quer ser incomodada. Por oportuno informamos: quena última quenta feira, um pequeno encontro sobre o turismo náutico da BTS, encontro por iniciativa dos conceituados ambientalistas Nilton Carlos Cedrás( Cedrás) e por Luíz Alberto Novaes Camargo(Camargo), mostrou aos convidados presentes: Everton Fróes( Via Náutica e do A BORDO),Almirante Arnon Bezerra, gestor público Hudson Andrade) e meu neto Andrei Filho(menor aprendiz) o que se pode fazer em beneficio da sociedade em geral, após 514 anos de sua descoberta. Brevemente, claso esteja você interessado, o convidaremos para que a tripulação do AVAONTE, conheça ao projeto ATLAS DA BAIA DE TODOS OS SANTOS E A PARTIR DE ENTÃO OFERECER SUGESTÕES. Em consequencia a BTS já fez muito por todo nós.Está na hora de por ela fazermos algo. UM DOMINGO DE PAZ PARA TODOS NÓS, JULIVAL.

    Curtir

    • Meu amigo Julival, mais uma vez fico feliz e digo que teremos total interesse em conhecer o projeto. Estamos em Natal, onde viemos abraçar os familiares e amigos, e assim que colocarmos os pés no solo do Senhor do Bonfim, marcaremos esse encontro. Um grande abraço, Nelson e Lucia

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s