Um fim de ano sem respostas


10 Outubro (121)

Mais um ano recolhe as velas para navegar em árvore seca pelos mares da história. Mais um ano que deixa saudades, tristezas, alegrias, descaminhos, que trouxe amigos e que deixou alguns irem pelas estradas tortuosas das palavras, como se a retórica de uma boa amizade não merecesse o silêncio tranquilizador de um abraço. Somos humanos e humano é assim.

Nesse 2014, que prepara o desembarque, a nossa vida a bordo foi marcada pela reflexão, afinal em 2015 completaremos 10 anos morando em uma casquinha de ovo ao sabor das ondas e dos ventos. O que fazer a partir daí? Que rumo tomar? Como decidir? Voltar? Abandonar tudo e retomar os passos sobre as agruras do mundo urbano? E o sonho? E a aposta em um mundo diferente tão cheio de alternativa?

É difícil decidir quando olhamos em volta e avistamos o caos, a vida ameaçada, a paz entregue aos monstros, as ruas enlameadas de crueldade, os bons jogados a própria sorte, a verdade transformada em mentira e a mentira transvestida de verdade. O que fazer em terra? É difícil o retorno depois que se degusta a doçura poética do mar.

Sem decisão vamos tentar seguir em frente, navegando em busca das respostas que o mar ainda não nos deu. Precisamos seguir o rumo traçado lá atrás que deixamos apagar pelo tempo na carta náutica da vida.

“- É preciso prioridade para se fazer ao mar!” Com essa frase Lucia costuma desanuviar o sonho daqueles que chegam até nós com a vontade emparedada pelos medos. Funcionou com a gente e é assim que ela aposta que funcione com outras pessoas.

Prioridade! Prestes a completar 10 anos de mar estamos diante dos segredos embutidos nessa palavra tão especial. Temos que avançar. Temos que seguir em busca das respostas. Temos que dar prioridade à vida, a nossa vida, ao nosso sonho, as nossas apostas. Temos que voltar a traçar o rumo e navegar em busca do nosso eu.

Nós que traçamos tantos rumos; que repassamos tantos segredos; que indicamos tantos waypoits; que apostamos uma vida em busca de outra vida; que aprendemos que nem tudo é o todo. Nós que apostamos no amor como um só; que respiramos o mesmo ar; que sofremos as mesmas tristezas; que sorrimos a mesma alegria; que tentamos irradiar a mesma esperança; que dividimos o mesmo espaço, sem tempo, sem hora, sem dia, de mãos dadas, entre beijos, entre abraços, entre carinhos, em meio ao sol, a lua, as estrelas, ao mar. Nós que um dia decidimos soltar as amarras, não sabemos dar o nó para prender novamente a embarcação sobre os cunhos do caís.

Um dia um amigo velejador escreveu uma frase que mexeu comigo e com muitos colegas mar afora: – Que liberdade é essa que aprisiona a alma? Frase instigante e extremamente carregada de reflexão. Que liberdade é essa? Procuro respostas e não acho, porque é difícil peitar a liberdade sem sair ferido nas entranhas da alma. Juro que não queria ter lido essa frase tão liberta de sentidos. Confesso que durmo com ela martelando em minha mente, me interrogando, exigindo uma resposta e sabendo ela que eu sei, mas que não consigo responder.

Dez anos no mar não são dez dias. Dez anos no mar é uma vida em que nada se parece com nada do que o mundo urbano possa oferecer. O mar encanta e aprisiona a alma sim senhor. Lança seus perfumes e atrai os desvairados. O marulhar das ondas é o verdadeiro canto da sereia a chamar o navegante para o laço do amor. Nada no mar é lógico, tudo é magia, tudo é mistério, tudo é encanto, tudo são gotas de poesia que transformam medo, paz e serenidade em amor. São os segredos da natureza que o homem nunca alcançara. Desse caldeirão escaldante de espumas vem à liberdade que aprisiona, que mistura os sentidos, que inverte a razão, que lança respingos de paixão e prazer no coração do homem.

O Avoante escuta tudo isso e se retrai nas estruturas de suas cavernas. Espera calado a nossa alma acalentar os sentidos. Recolhe-se nos braços do mar em um namoro nunca visto entre amantes. Vislumbra novas rotas, novos horizontes e tenta se lançar pelos mares, nos levando como felizes passageiros de sua alegria. O Avoante é feliz, é bravo, é marinheiro, é forte como os grandes navegantes dos mares. É um veleirinho carinhoso e incrivelmente aconchegante. Ele tudo sabe, tudo escuta, sofre e se alegra. Ele sabe do amor que temos por ele e por isso é tão carinhoso.

Vocês estão vendo o quanto é difícil à decisão? O quanto é difícil depois que entranha na gente o perfume das algas, da maresia, do sal, das sereias, das barbas de Netuno e do manto azul de Iemanjá?

Que venha 2015 e que os deuses dos oceanos continuem nos abençoando!

Nelson Mattos Filho/Velejador

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8 Respostas para “Um fim de ano sem respostas

  1. Belíssimo texto. Parabéns!
    Seus artigos são agradáveis de ler e, claro, bem escritos.
    Feliz Ano Novo para o Casal.
    Feliz 2015 para o Avoante!

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  2. Robert S. Miller

    Refleja la profundidad de las aguas azules.
    Conceptos muy acertados y vívidos de experiencia.
    Feliz Año 2015 para Avoante y los dichosos náutas !!!!
    Buenos Vientos, siempre ..!!

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  3. Sergio do Pinauna

    Pois é, do Avoante, são necessários10 anos de mar para questionar com sabedoria e propriedade ‘que liberdade é essa’? Quero crer que no ritmo de vocês seja mais apropriado adriçar a vela mestra do que laçar o cunho do cais e imagino que se continuarem questionando, daqui a mais 10 anos vocês vão postar uma resposta de lição de vida limpa e salgada. Nesse interim que Iemanjá os proteja com o manto azul e que Netuno sopre sempre bons ventos. Que neste 2015 suas velas estejam bem mareadas com sombra no cockpit!

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    • diariodoavoante

      Pinauna, você bem sabe que a vida no mar é cheia de encruzilhadas e a todo momento somos convidados a momentos de reflexão. Um grande abraço meu amigo, Nelson

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  4. é realmente uma dúvida quando já se encontra no mar, força e coragem ao avoante e sua tripulação,belo texto

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