Causos e surpresas


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Muitas vezes é difícil saber em que pé navega a verdade em uma história que tem o mar como pano de fundo. Isso acontece com pescadores, velhos e novos marinheiros e velejadores. Tudo fica enorme quando a emoção passa a valer mais do que a razão, ainda mais quando existe uma plateia avida a ouvir ou quando se quer apenas dar uma pequena valorizada na narrativa acrescentando algumas estrelas douradas de heroísmo.

Final de Outubro de 2014 estive no Iate Clube do Natal para pegar um veleiro e comandá-lo entre Natal e Salvador. Chegando lá fui convidado para fazer parte de um churrasco em que os tripulantes do veleiro Tranquilidade comemoravam, com um pouco de atraso, as participações nas regatas Recife/Fernando de Noronha e Fernando de Noronha/Natal, edições 2014. Para quem acompanha as páginas desse Diário deve lembrar que falei em como essas travessias foram duras para as embarcações e consequentemente deixando marcar profundas em muitos tripulantes. De norte a sul do país a cantilena é uma só: Foi uma viagem terrível!

Mas tudo passou e hoje todos festejam a vida ao sabor de grandes resenhas digeridas com cervejas, vinhos, outras bebidas e fartas lascas de carnes na brasa. E é nessas horas que tudo se transforma e os olhos dos interlocutores se enchem de espanto.

O churrasco do Tranquilidade teve também a participação de outras tripulações e era uma graça escutar os arroubos de coragem ecoando sobre as águas históricas do Rio Potengi. Toneladas de águas se esparramavam sobre o convés das embarcações empurradas por ondas monumentais. Ventos desvairados sopravam com a fúria de mil furacões e a luta dos homens era na raça, no sangue e na coragem de mil guerreiros vikings. Era uma luta desigual diante dos elementos da natureza, mas todos se reconheciam vencedores.

Teve até quem se lembrasse de mandar recado para a Mãe, via VHF, para quem copiasse a mensagem e conseguisse escapar da batalha naval, dizendo que a amava muito e pedindo desculpas pelos erros do passado.

Teve também aqueles que domaram as águas do oceano, que entravam em cachoeiras pelas frestas abertas na embarcação, com um simples balde plástico. Trabalhando initerruptamente e sem deixar espaço para o cansaço.

Era voz geral entre todos que nunca viram Netuno e Éolo com uma cara tão feia e com a personalidade tão endiabrada. E para todas essas afirmações não faltava nem o recurso da prova, porque enfileirado na prainha em frente à churrasqueira vários barcos esperavam a vez para que fossem curadas suas feridas. Alguns deles precisavam até de UTI tamanho era o estrago.

Como este ano não tive a oportunidade de participar das provas, me contentava em escutar as narrativas, aparar arestas do que achava que merecia e rir dos fatos pitorescos que sempre aparece depois das tempestades.

O churrasco corria solto e alegre quando de repente surge por entre os arbustos de restos de manguezais das margens do Potengi um caíque sendo remado por apenas uma moça. Todos se entreolharam, acho que mais pela beleza feminina que remava do que pela preocupação com a forte correnteza e vento daquela hora do dia, e ficaram esperando que o barquinho atracasse sobre a areia da praia.

Alguns se apressaram em ajudar a pobre dama com jeitão de gringa e num minuto ela estava a salvo das águas e pronta a responder a curiosidade dos valentes marmanjos.

Um dos ajudantes tratou de informar a dama remadora que a maré estava de vazante e que ela tivesse muito cuidado com a correnteza do Rio Potengi e na próxima vez não fizesse mais aquilo sob o risco de ir para direto no oceano hostil.

Outro ainda mais preocupado perguntou de onde ela estava vindo, pois não tinham visto aquele caíque passar e foi dai que veio o grande banho de água fria na valentia regateira oceânica dos marmanjos: Vim da Argentina! Como é? Nesse barquinho?

Pois é, a moça vinha remando desde a Argentina e estava no rumo de São Luiz do Maranhão. Falou que já havia dado a volta na Austrália e outro país que não lembro o nome e que naquele momento precisaria mesmo era armar a barraca, onde descansaria durante a noite, e depois ir a um mercado se abastecer.

A partir daquele momento a conversa entre os velejadores mudou de rumo e ninguém se lembrou de contar nada mais do ocorrido durante a travessia Recife/Fernando de Noronha/Natal. A carne murchou na churrasqueira, a cerveja sobrou no isopor e até esqueci de bater uma foto da moça e seu caíque.

Nelson Mattos Filho/Velejador

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11 Respostas para “Causos e surpresas

  1. Contaríamos muitas vantagens naquele dia Nelson, mas fomos humilhados pela moça que vinha da argentina, mas via Pacífico, tendo atravessado o Canal do Panamá. Acabram-se historias de valentias. RSRSRSRS

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  2. Nelson foi mais ou menos por aí, mas o balde de água fria foi quando ela explicou que vinha da Argentina no Remo e que começou passando pelo cabo Horn, depois passou pelo Chile, Peru etc e agora já estava quase chegando a Argentina para completar a volta na America do Sul , é mole ou quer mais….kkkk . Ah o nome da fera FREYA HOFFMEISTTER

    http://freyahoffmeister.com/

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  3. Belo relato Nelson!! Ja imagino esta valente mulher do mar parando tudo no Iate Clube do Natal. Abraço.

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  4. JOSÉ A. TORELLY CAMPELLO

    ….ou o globo já está pequeno, mesmo com os 2/3 de predomínio superficial das águas, ou os sonhos vem superando seus limites para quem desenvolve projetos destas magnitudes. Contorno da Austrália e agora da América do Sul em caiaque!!!!….Inacreditável!!!!. Voltando a vaca terrestre; o Churrasco abeira mar ainda é um grande acontecimento alegre e solidário e mesmo compensatório depois das grandes aventuras náuticas. Não fosse ele, a surpresa não seria tão formidável, bombástica e embasbacante, Só podemos render homenagens a esta destemida navegadora protegida de Éolo e Neptuno!!!….

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    • diariodoavoante

      José Campelo, acho mesmo que os horizontes do homem estão cada vez mais diversos. Um grande abraço e obrigado pelo comentário, Nelson

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  5. Hamilton Meneses

    Amigo Nelson, Conto fantástico, ainda tem gente que diz que mulher é sexo frágil. Frágil é esse bando de “marmanjos” que qualquer marzinho, ventinho ou ondinha de meio metro chama mamãe pelo VHF, como se ela fosse escutar. KKKKKKKKKK
    Grande Abraço.

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    • diariodoavoante

      Pois é amigo, e foi realmente um banho de água gelada nos heróis do pedaço. Ainda bem, pois sobrou cerveja e carne para o dia seguinte. Abraço,

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  6. Parou tudo mesmo. Nem meu comunicador preferido lembrou de tirar uma foto da moça!

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  7. A foto ficou faltando mesmo…

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