A lenda de um velho grupo


4 abril (70)

Apreciava o horizonte enquanto o Avoante navegava faceiro e lentamente sobre um mar espelhado quando lembrei-me de um antigo conto, em que narra à história de um grupo de velejadores que se uniu em torno de uma causa e para nunca mais esquecê-lo, resolvi escrever no Diário.

Era uma vez um pequeno grupo que se reuniu para hastear a bandeira de um sonho: Velejar e dar seguimento a missão escrita nos anais da história de um velho clube náutico. O sonho logo se tornou uma feliz realidade, tanto era a vontade daqueles que formavam o grupo. Do sonho brotaram grandes ideias, grandes encontros, grandes amizades e assim, o mundo do mar foi crescendo e invadindo a alma daquele grupo que se tornou grande. Não grande em tamanho, mas grande em todas as formas de fazer valer o espírito da vela como esporte e lazer.

Horizontes foram sendo desbravados em viagens imaginárias nas rodas de bate papo e rotas foram traçadas na certeza que os deuses dos oceanos acolhem de bom grado todos que sonham com um barquinho singrando os mares.

A partir do primeiro encontro outros se seguiram, movidos pela incrível vontade de estarem unidos, porém, logo foi notado que um dia por semana era pouco. Todos tinham muitas ideias acumuladas e precisavam extravasar para que não ficassem esquecidas pelo tempo.

Estabeleceram que esse novo dia fosse início de semana, coladinho ao Domingo, para poderem discutir os temas que fariam parte do grande encontro do meio da semana e assim foi feito. Mais um dia estava decretado e era gostoso ver a alegria reinante. Brincadeiras, gozações, abraços, discursões, comentários, fofocas, receitas, velejadas, mentiras, barco, barco, barco… . Era assim!

Há! É preciso dizer que tudo isso era regado com uma bela e farta mesa de deliciosas receitas e alguns goles das mais saborosas bebidas. Era o famoso encontro etílico-gastronômico em que todos se esmeravam em trazer um pouco para colaborar na dieta de todos.

E no início da semana? Bem, em respeito às leis da sanidade, o encontro desse dia era apenas a base de café, leite, bolo, cuscuz, tapioca, frios, pães, bolachas, biscoitos, queijos… . Ufa!

Quanto mais o grupo se reunia, mais as regatas iam sendo programadas, passeios náuticos enchendo de alegria os finais de semana e assim o sonho de todos era uma feliz e alegre realidade.

De vez em quando, ou quase sempre, pintava um churrasquinho básico para alegrar as tardes/noites de Sábados, Domingos e feriados. O lema era estar unido em prol da causa, então qualquer motivo era um motivo.

Vieram as festas de confraternizações de fim de ano. Os aniversários do grupo. Os parabéns para os aniversariantes do mês. Tudo era motivo. Tudo era legal. Tudo era festa. Tudo era amizade. Tudo era em prol do sonho e o sonho era real. E assim o grupo crescia, porém, passou a ser observado por olhos injetados de inveja e rancor.

O grupo queria invadir os mares, os lagos, os rios e tudo que tivesse uma pocinha de água. Foi assim que um grupal vislumbrou uma bela lagoa apaixonante e teve uma visão fantástica: Várias velas soltas ao vento cruzando toda aquela extensão de águas. Bingo! Estava formado mais uma flotilha, mais um campeonato, mais um encontro, mais amigos, mais alegria, mais velas, mais barcos e mais combustível para o sonho. Como era gostoso!

Olhos que observavam passaram a observar com mais afinco, porém, nada daquele olhar atingia o coração do grupo que era alegre, jovial, para frente, dinâmico, amigável e extremamente unido. Isso mesmo, unido.

As reuniões navegavam em palestras, comemorações juninas, karaokês, festivais de massas, festivais de vinho, despedidas dos velejadores visitantes, bota fora de amigos, carnavais, luau, pôr do sol, noitadas de violão e mais um sem número de programações que em muitas semanas eram diárias.

Pensou-se em criar uma escolinha de vela, para dar seguimento futuro às boas novas, pois a que havia existido em outros tempos estava abandonada e empoeirada no fundo de uma bacia de egos. A escolinha até ensaiou um retorno às águas e os velhos barquinhos voltaram a navegar cheios de alegria, mas num lampejo repentino, suas velas foram confiscadas pela covardia de algum olho que espreitava e se recolheu ao nada.

Num certo dia de verão, ventos contrários atingiram a embarcação do grupo que ainda tentou manter as velas enfunadas, mas seus membros se sentiram cansados para comandar uma nau tão carregada de sonhos em um mar tão tempestuoso. Diz à lenda que o grupo ainda sobrevive, mas ai a história é outra.

Nelson Mattos Filho/Velejador

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5 Respostas para “A lenda de um velho grupo

  1. Excelente descrição do ocorrido em um certo local de algum litoral desconhecido!!
    Me lembra aquele de uns anos atrás: como acabar com seu clube naútico…

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  2. Uma parábola antes de uma lenda meu comandante.

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  3. Eu “assisti esse filme”, que pena que acabou, mas prefiro guardar as belas cenas de alegria, congraçamento e de espontaneidade pura. Good times!

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  4. Achei que a história iria terminar num final feliz…

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  5. Não à toa, penso eu, o Avoante avoou, há tanto tempo, para terras distantes…

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