Uma viagem para poucos – V


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O mar não forma e nem transforma simples mortais em heróis, por isso é que os grandes marinheiros sabem respeitá-lo. Muitas vezes escutamos vozes entoando discursos de coragem e bravura diante do mar, mas no fundo elas não passam de palavras soltas ao vento.

Com o Argos III acuado por ondas desencontradas e ventos fortes mudamos o rumo para adentrar a Barra do Rio Potengi, em Natal. Naquele oceano de mar e guerra estávamos sozinhos para contar o que víamos sem precisar enveredar por fantasiosas meias verdades.

A bordo as coisas funcionavam normalmente e na mesma tranquilidade que existia desde o começo de nossa peleja. Uma brincadeira, uma piada, um causo, um lanchinho e a lembrança que na geladeira algumas cervejas esperavam ânimo para serem digeridas. Passava pouco mais das 13 horas de uma Sexta-Feira quando enfim cruzamos a Barra de Natal deixando para trás a força dos elementos.

Eu e Lucia estávamos mais uma vez retornando as nossas origens náuticas e sentido uma ponta de alegria invadir a nossa alma marinheira. O Rio Potengi estava mais belo, mais amigo, mais velho, mais caudaloso e com um invisível tapete estendido para receber o Argos III em sua primeira navegada naquelas águas históricas de fatos e lendas.

Me avexei em chamar o Iate Clube do Natal via rádio e com um sorriso no rosto escutei meu nome sendo indagado do outro lado: Fala Nelson! Era o João, amigo e antigo funcionário do clube que reconhecia minha voz. É gostoso chegar em casa depois de alguns meses de saudade.

Nossa permanência em Natal seria o tempo necessário para que o vento aliviasse a força, o que vinha acontecendo sempre após as 18 horas, mas atendendo o apelo dos amigos que foram informados de nossa chegada, resolvemos esperar por um delicioso e caloroso café de boas vindas que se estendeu até próximo às 23horas.

Às 23 horas e 30 minutos soltamos as amarras e voltamos para o mar. Natal foi ficando para trás e em nossa proa se abria as cortinas de um mar maravilhoso que nem de longe se parecia com o que havíamos presenciado durante o dia. A natureza e seus segredos!

Fora da Barra, levando em consideração meus poucos conhecimentos naquele pedaço de mar que tanto já naveguei, indiquei o rumo a ser seguido e pedi permissão ao comandante Fábio Ribeiro para ir descansar um pouco. Dormi embalado pelos remansos do mar e quando chegou a hora do meu turno acordei quando já navegamos em frente à praia de Tibau do Sul. Ótimo rendimento!

Ventilei chegar a Cabedelo com 15 horas de navegada, mas no mar nem sempre as coisas funcionam como o programado e por mais que tudo a bordo seja novinho em folha, sempre sobra uma pontinha de descaminho. Foi assim que no través de Baía da Traição/PB o motor de bombordo nos traiu e apagou. O comandante correu em socorro da máquina e percebeu que o problema era sede, pois não passava combustível pela mangueira de alimentação.

Comprovamos que o tanque estava cheio e lembrei-me do Davi Hermida, um grande amigo e velejador baiano, que quando soube que eu iria tripular o Argos III, um veleiro super novo, de Fortaleza/CE a Cabedelo/PB alertou: Leve uma mangueirinha de fortuna para no caso do motor parar por falta de combustível, fazer uma ligação direta com os vasilhames de reserva. Esses problemas sempre ocorrem em barco novo. Pense num profeta!

Com o comandante todo lambuzado de diesel e os nervos querendo sair pelo rosto em brasa, falei da ideia do Davi e ele disse que tinha essa mangueira a bordo. Foi pegar e valer. O comandante quis saber se o meu amigo tinha alertado para outro possível problema. Seguimos em frente. Grande Davi!

Na entrada da Barra de Cabedelo o motor apagou novamente. Dessa vez o problema foi na mangueira que estava curta. Depois de 20 horas de navegada atracamos na Praia do Jacaré cobertos pelo manto da noite.

Foi uma navegada fantástica, cheia de aprendizado e comprovadamente cansativa. Não é a toa que exista muita falação e um monte de lendas sobre esse trecho de oceano onde predominam os alísios de nordeste, mas uma coisa é certa: Não existe o impossível quando estamos seguros e confiantes das nossas possibilidades.

Obrigado comandante Fábio Ribeiro pelo convite. Obrigado ao novo amigo Zé Rubens pela companhia e obrigado ao meu amor, Lucia, por sempre se colocar ao meu lado em todos os momentos e sem nenhum sinal de hesitação.

Nelson Mattos Filho/Velejador

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5 Respostas para “Uma viagem para poucos – V

  1. Muito bom!! Que incrível tripulação, FÁBIO RIBEIRO, NELSON, LUCIA e pra completar o comandante DAVI HERMIDA em espírito =)

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  2. Eita navegada arretada essa hein comandante Nelson?!
    Bom demais ler suas aventuras, meu amigo.

    Mucuripe.

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  3. EPAMINONDAS ALBUQUERQUE FILHO

    BOA LIÇÃO DO NOSSO DAVID.

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