Uma viagem para poucos – IV


IMG_0228

Caro tripulante desse Diário, juro que não pensei que essa história iria se estender tanto e ao acrescentar o número quatro após o título me dei conta do tamanho da encrenca que estou tentando descrever sem deixar você cansado. Já recebi alguns e-mails de amigos querendo que eu adiante os fatos e parta logo para os finalmentes, mas não é bem assim, pois a vida precisa de calma para ser vivida e o melhor dela está nas entrelinhas.

Encerrei o capítulo três aproado no rumo da praia de Caiçara do Norte/RN, uma das mais belas praias do litoral potiguar. Rumamos para lá na esperança de reabastecer os tanques de combustível do Argos III, porque até ai não conseguimos abrir as velas em nenhum momento da viagem. Bem que poderíamos tentar, mas isso tornaria a navegada um pouco mais desconfortável do que já estava, além de que, tínhamos data para chegar a Cabedelo/PB.

Chegamos a Caiçara no finzinho de uma bela tarde emoldurada com um esplendido pôr do sol. Jogamos âncora umas três vezes e em nenhuma delas tivemos sucesso. O vento estava forte e o fundo de areia dura não permitia que a âncora unhasse. Um pescador indicou uma poita de um barco de pesca e afirmou que não teríamos problemas, porque era um ferro muito pesado.

Poita é uma amarra colocada no fundo do mar de onde sai um cabo com uma bóia na ponta. Normalmente elas são projetadas para segurar o barco de quem a constrói, mas também podem ter dimensões e peso que aguentem outros barcos, porque sempre são construídas com certa lazeira.

Eu particularmente tenho restrições a atracar em uma poita qualquer, porque não sei em que estado ela se encontra e se o proprietário faz as manutenções devidas. Como a nossa estada em Caiçara seria de poucas horas e não abandonaríamos o barco, pois apenas o comandante Fábio desembarcaria, relevei minhas restrições.

Sem preocupação, peguei a máquina e fui fotografar a bela paisagem de dunas, barcos de pesca e coqueiros. Encantei-me com a chegada dos pequenos paquetes a vela vindos da lida do mar e me vi envolvido pela poesia que aquela cena se fazia revelar. Num resvalo de olhar não vi mais o barco que estava ao nosso lado e dai percebi que o Argos III arrastava a poita sem nenhuma dificuldade. O vento batia na casa dos 22 nós. Liguei os motores, soltamos a amarra e fomos à procura de outro local para ancorar.

O comandante retornou com o diesel e o pescador que havia indicado a antiga poita disse que agora não teríamos problema, pois essa que pegamos era forte o bastante e que ele iria recuperar a que arrastamos. Perguntei se precisaria de um barco a motor e ele respondeu que não. Arrastaria na mesma catraia em que estava. Como? Olhei para o Zé Rubens e disse: Essa eu quero ver!

O pescador foi até lá e começou a puxar os cabos e num segundo ele estava de volta. Olhei para o ferro que ele trazia sobre a catraia e não acreditei que tínhamos amarrado o Argos III naqueles palitos. Olhei para a amarra em que estávamos e quando o comandante perguntou se passaríamos a noite ali ou se sairíamos logo, não titubeei em responder que era melhor seguir viagem. Às 18h30min estávamos novamente navegando.

À noite o vento sempre soprava mais fraco, vindo de terra, e o mar diminuía um pouco. Foi assim durante toda a navegada. Às 4 horas da manhã, com o Zé Rubens no turno de comando, deixamos para trás o Farol de Touros, na famosa Ponta do Calcanhar. Num resto de madrugada assumi meu turno e naveguei despreocupado pelo Canal de São Roque com o vento soprando suave e o mar que nem de longe se parecia com o dia anterior. Será que a pauleira havia passado?

Passei o turno para o comandante às 6 horas da manhã enquanto navegávamos no través da praia de Maracajaú e fui cumprir meu turno de sono no conforto da cabine. Sonhei que brincava em uma montanha russa e quando acordei o mar estava na maior festa de arromba e o vento arrepiando nos estais como nunca antes. O medidor de vento acusava 28 nós de velocidade e as ondas quebravam sem direção. Era um mar de faroeste e nessas condições o Argos III avançava com dificuldade a menos de 3 nós de velocidade.

O comandante Fábio perguntou o que faríamos e respondi que poderíamos muito bem seguir viagem direto para Cabedelo, pois todos estavam bem e o barco era forte e valente, mas achava mais sensato entrar em Natal, descansar um pouco e seguir viagem durante a noite em melhores condições. Aquele era um verdadeiro mar de gente grande e o rádio anunciava insistentemente alerta de ressaca para todo o litoral nordestino. Estávamos em meio à fúria dos elementos!

Nelson Mattos Filho/Velejador

Anúncios

4 Respostas para “Uma viagem para poucos – IV

  1. Essa estoria e igual a tempestade ou menor?

    Curtir

  2. Ta faltando um link que ligue uma na outra pra quem perdeu as outras

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s