Uma viagem para poucos – III


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Depois de dois capítulos de lero lero e enveredando nos caminhos da filosofia de caís, chegou a hora de soltar as amarras que prendiam o Argos III ao píer da Marina Park, em Fortaleza/CE, para seguir no rumo do vento em direção a Cabedelo/PB, numa viagem dura, pretenciosa, mas nem por isso menos instigante.

Deixamos Fortaleza no finalzinho da tarde de uma Terça-Feira ensolarada. No píer o Armando Banzay, gerente da marina, e o Eudes, marinheiro, estavam a postos para soltar os cabos e nos desejar bons ventos até a Paraíba. Como velejador é um povo solidário e sempre pronto a ajudar, do veleiro Utopia, que estava ao nosso lado, surgiu o velejador solitário Marcão para auxiliar na faina de desatracação.

Conheci o Marcão há uns dez anos atrás quando ele passou por Natal em rumo batido para sua primeira volta ao mundo, também em solitário, e foi uma alegria encontrá-lo em Fortaleza já a caminho de mais uns bordos pelos oceanos que banham o nosso planeta. Quando queremos verdadeiramente realizar um sonho à utopia passa a ser apenas o veículo motivador.

O Argos III saiu de mansinho e espreitando o mar que roncava por trás do molhe do porto. O vento era o esperado japonês, na cara, mas a beleza do pôr do sol mudou o nosso foco e assim, nem percebemos quando a bela capital cearense foi ficando cada vez mais pequenininha. A natureza é incrivelmente fantástica!

A noite chegou com a tripulação já devidamente adaptada e seguindo a rotina normal de uma viagem de cruzeiro. Combinamos os turnos de comando, duas horas para cada um, menos para a capitã Lucia que assumiria integralmente o fogão.

Antes que os mais exaltados me critiquem, quero dizer que não existe função mais importante a bordo de um veleiro de oceano, em viagem de cruzeiro, do que a cozinha. Ter a bordo uma chefe de cozinha, ou chefe, que se disponha a preparar receitas variadas, deliciosas, dotadas de extremo capricho e a qualquer hora do dia, debaixo de qualquer condição de tempo e mar não tem preço que pague.

No Avoante já passamos da fase dos famosos sanduíches, biscoitos, maças, sopinhas, miojos e todos que navegam sabem da riqueza que é ter uma comida quentinha e saborosa para levantar o astral naqueles momentos mais críticos.

Acho que não é preciso dizer que o mar estava amuado e ameaçador, porque já bati bastante nessa tecla. Mas que estava estava!

Nosso companheiro de tripulação, Zé Rubens que nunca havia feito uma velejada, assim que as coisas acalmaram e o breu da noite assumiu as cores do mundo, olhou para o céu e se interrogou: O que danado estou fazendo aqui? Dava para ver em seu rosto a pergunta estampada e no segundo seguinte ele recebeu o abraço do maledicente enjoo, o terrível encrenqueiro dos sete mares. Mas Zé Rubens tirou de letra essa passagem da história e logo despachou o encrenqueiro para seu devido lugar.

Quando o sol voltou a brilhar sobre o mundo Zé Rubens acordou incorporando uma entidade poética e cheio de saudades de sua amada mandou essa: “Saudade é um bicho que rói que nem uma ratazana num queijo parmesão” (Adoniram Barbosa). Pronto! O homem estava recuperado.

E lá ia o Argos III saltando as ondas de mais de 2,5 metros e empinando o nariz para receber na cara os alísios de nordeste. Não reclamávamos daquela vida, pois não tínhamos a quem reclamar. Estávamos ali por que quisemos estar e tínhamos como objetivo chegar a Cabedelo. O mais fácil a fazer era relaxar e curtir a viagem. Era justamente o que fazíamos e tudo com muito bom humor e consciente que fazíamos o melhor.

No mar nem tudo é tão lógico e certo como as teorias fazem crer. Precisamos sim de uma programação bem feita e de alguns rabiscos bem posicionados nas cartas náuticas. Porém, precisamos, além de tudo, do discernimento de saber ler tudo de trás para frente e sem ter nenhum constrangimento diante da verdade. Conhecimento e sabedoria podem até se parecer, mas dizem coisas distintas.

Como navegávamos apenas com a força dos motores, o comandante plotou a cidade de Guamaré, no litoral potiguar, como local de parada de reabastecimento. Porém, chegamos no través da barra de Guamaré com a maré muito baixa e se entrássemos ficaríamos um dia inteiro na cidade a espera de uma nova maré alta, porque não queríamos sair durante a noite. Seguimos em frente no rumo da beleza nativa de Caiçara do Norte/RN e sua maravilhosa flotilha de barcos de pesca.

Nelson Mattos Filho/Velejador

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6 Respostas para “Uma viagem para poucos – III

  1. Nelson e Lucia, a saudade agora vem daí e sopra bravamente contra os ventos que vão daqui. Ouvir a sua história da viagem a torna ainda melhor. Espero ansioso pelos novos capítulos.
    Abraços.
    Zé Rubens.

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  2. Que tal incluir no próximo post um mapinha com o track do Argos III? Afinal não é todo dia que alguém relata uma passagem destas!

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  3. Grande Nelson e Lucia, essa travessia foi uma verdadeira aula!! Abraços e já estamos com saudades. Do futuro baiano.

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  4. rogério veras bassani

    Nelson, preciso de fotos do catamaran que está em itaparica. vou passar por salvador e posso eu mesmo fazer as fotos, mas não sei a locaçização exata do barco. abraços e que todos os deuses, conhecidos e desconhecidos, te acompanhem nesta bela velejada.

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    • diariodoavoante

      Rogério, as fotos que tenho são as duas que estão no blog. O barco está em Itaparica e aos cuidados do Pedrinho, na Marina Itaparica, que tem orientação de mostrar aos interessados. Abraços, Nelson

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