Uma viagem para poucos – II


IMG_0168

O título dessa série de crônicas me veio em mente num dos piores momentos da navegada entre Fortaleza/CE e Cabedelo/PB, enquanto cruzávamos o Cabo de São Roque, no litoral do Rio Grande do Norte. Naquele momento pensei no livro, Uma Viagem para Loucos, que conta os primórdios de uma das regatas mais famosas do mundo e que tem como objetivo cruzar os mais tenebrosos cabos, enfrentando os mais temerosos mares, e fiquei matutando em como aqueles homens, velejando em solitário, eram valentes e valorosos com o pouco que dispunham em seus veleiros.

Lógico que nem de longe estávamos enfrentando o desafio daqueles velejadores que se tornaram lenda e referência para o mundo da vela, e nem em sonho tenho a intenção e nem o egoísmo de me tornar um deles, pois meu voo é baixinho como o de um anum. Porém, aquele mar do litoral potiguar me instigou os sentidos e me deixou a cada onda que vencíamos mais alerta.

Mas antes de prosseguir na narrativa, quero pedir um pouco de paciência aos leitores que apenas amam o mar e embarcam comigo semanalmente nas páginas desse Diário, para poder dar alguns detalhes técnicos do catamarã Argos III, o grande guerreiro dessa história, porque a turma de velejadores e afins, que também nos acompanha, implora aos quatro ventos.

Para começo de conversa o nome Argos quer dizer sogra ao contrário e foi batizado assim, mas, por favor, não me perguntem o porquê, pois quero zelar para sempre da amizade com o comandante Fábio Ribeiro.

O Argos III, como foi comentado no texto anterior, é um modelo Praia 30, construído pelo estaleiro maranhense Maramar Náutica, mas difere dos seus irmãos gêmeos no quesito motor, pois possui dois motores diesel de 21 cavalos e os tradicionais possui apenas um motor de popa, o que me fez pensar em o que seria de nós naquele mar de doido com um motor de popa pulando que nem cabrito a cada ondinha besta de dois metros e meio.

No mais, o barco é o mesmo, com apenas alguns detalhezinhos de arrumação interna e instrumentação elétrica e eletrônica. Aliás, em eletrônicos o Argos III é super bem equipado.

Sei que os amigos e leitores velejadores irão perguntar se o barco veleja bem e como veleja, mas essa informação eu vou ficar devendo, porque em nenhum momento da viagem tivemos a vontade, a coragem ou mesmo o discernimento de subir as velas. Com um vento contrário soprando na média de 22 nós de força, não tem paixão por velejada que resista. O melhor é ficar bem quietinho escutando o ronco dos motores. Tem um ditado que diz assim: Quem gosta de vento contra ou é regateiro ou masoquista.

Pronto, acho que os detalhes acima devem satisfazer a curiosidade dos aficionados por barcos, mas sinceramente também acho que não, já que tem um detalhezinho que vai remoer os miolos de muita gente, porém, vou deixar para o final, pois ele meche com os brios das turmas de veleiros monocasco e multicascos.

Só para lembrar, encerramos o primeiro capítulo almoçando no restaurante Brazão, na bela praia de Iracema, a virgem dos lábios de mel. Saindo de lá, passamos pelo supermercado e enveredamos pela tradicional lista de compras que todo velejador acha que vai consumir durante uma velejada.

Na verdade essas listas seguem um ritual bem ao gosto daqueles que estão efetuando as compras, aonde o rol vai crescendo de acordo com as passadas por entre as prateleiras. É um tal de gosto disso, gosto daquilo, isso é bom, isso deve ser bom, isso vai fazer a diferença e mais um bocado de vontades consumistas que em menos de alguns segundos é preciso conseguir outro carrinho.

A seção de bebidas é sempre a mais disputada, com as cervejas e os vinhos assumindo a liderança. E a água? Eita é mesmo! Quantos litros? E ainda tem quem diga assim: Precisa muito não, pois eu mesmo só bebo cerveja.

No nosso caso nem foi tanta coisa assim, porque Lucia levou na cabeça um breve cardápio para cada dia e o comandante freou os carrinhos bem antes que chegassem as prateleiras dos mais mais. Mesmo assim afundamos alguns centímetros a linha d´água do Argos III.

No dia seguinte, depois de conferir os últimos detalhes para a viagem, tomamos novamente o rumo do restaurante Brazão para saborear uma deliciosa peixada cearense, prato que recomendo, atendendo convite da amiga Vera, proprietária. Como sobremesa, e antes de voltar ao barco, dei uma ligeira olhada no mar e não gostei muito do que vi, mas isso era apenas uma fração do que teríamos.

Nelson Mattos Filho/Velejador

Anúncios

2 Respostas para “Uma viagem para poucos – II

  1. Pô cara, deixa de enrolação e conta logo este sacrifício! Tá com medo de D.Ceminha lhe puxar as orelhas? A propósito Argos é também o filho de Zeus, e a embarcação do argonauta, o navegador ousado. Davi Pezão me disse que quem vem pela beira da praia pega 70 milhas de águas protegidas por uma barreira de recifes. É isso mesmo? Na CCD gold não tem esta laguna.

    Curtir

    • diariodoavoante

      Grande comandante, não se avexe que a gente chega lá. Pois é, o Argos aqui é sogra ao contrário, segundo o comandante Fábio. Quanto a barreira de Pezão, entre Fortaleza e Cabedelo eu não conheço, mas se ele se refere aos corais do canal de São Roque, próximo ao Cabo do Calcanhar, são menos de 20 milhas e a água não é tão abrigada assim. abraços,

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s