Uma viagem para poucos – I


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No mundo da navegação algumas rotas são cercadas de mitos, lendas, histórias, mistérios e algumas pitadas de criativas narrativas. O mar, por si só, sempre foi uma grande fonte de interrogação para o homem e por mais que a ciência tente desvendar os segredos submersos e invada os oceanos com novas tecnologias, os deuses marinhos sempre se mostram soberanos e imunes às novidades dos humanos. A natureza é dotada de infinita grandeza.

Na semana de 11 a 18 de Agosto de 2014 fomos convidados a fazer parte da tripulação do veleiro Argos III na travessia entre Fortaleza/CE e Cabedelo/PB, um trecho de pouco mais de 340 milhas náuticas, mas dependendo de alguns meses do ano, como Julho, Agosto e Setembro, a medida do percurso pode se transformar em uma incógnita de tamanho e alguns respingos salgados de sofrimento. No nosso caso, mês de Agosto, o pior deles. Convite aceito de pronto!

O Argos III é um catamarã de 30 pés, pouco mais de 9 metros, novinho em folha e construído em São Luiz do Maranhão. A travessia de Fortaleza a Cabedelo seria a segunda perna de sua viagem inaugural e participar do começo da história de um barco deixa a gente cheio de vontade.

Deixamos o Avoante em Salvador e pegamos um voo para Fortaleza onde nos aguardaria o proprietário do Argos III, comandante Fábio Ribeiro. Juntar-se-ia a nós o José Rubens, um paulista muito gente boa e que faria sua primeira navegada em um veleiro de oceano. Pensei com meus botões: Viiixi!

A grande maioria dos velejadores tem como certo que navegar a costa nordeste do Brasil no sentido norte/sul no mês de Agosto é coisa de maluco e pode acreditar que estou entre os que pensam assim. Enfrentar os ventos alísios e a corrente marinha ligados em força máxima não é coisa de quem tem os parafusos da cabeça em bom estado. Mas vale salientar que no mar nem tudo são flores e um navegador não pode se dá ao luxo de escolher apenas águas tranquilas, pois elas não formam bons navegadores.

Quando comentei sobre a viagem com alguns amigos recebi olhares de pena e muitos conselhos para que desistisse do convite. Diante de todos apenas sorri e confirmei a viagem. Um deles disse assim: A melhor opção para a saída é o retorno ao porto.

Dois dias antes de pegar o voo para Fortaleza liguei para um amigo em Natal/RN pedindo informações sobre como estavam às condições de vento e mar na região, porque uma coisa é analisar as previsões nas páginas dos sites meteorológicos e outra é ver tudo ao vivo.

A informação recebida do amigo foi que tudo estava bem e que as condições eram atípicas para essa época do ano: Nem muito vento e mar relativamente calmo. Beleza! Tudo estava perfeitamente igual ao que aprendi desde o início da minha formação náutica, que foi no mar de Natal enfrentado várias vezes os rumos que levam ao Sul: O mar do nordeste não é fácil de decifrar. O amigo em questão era o Zeca Martino, para mim um dos maiores velejadores brasileiros, conhecedor como poucos dos mares nordestinos e que já navegou incontáveis milhas náuticas.

O Ceará é um estado arretado de bom e sua capital tem um charme especial desenhado entre rendas, redes, velas, mar e a brancura das dunas. Como bem disse um taxista: O Ceará é diferente. E é mesmo! O litoral é outro. O vento é outro. O sol é outro. A alegria é outra. E ainda ouvimos outro taxista dizer assim: O cearense não tem o sotaque tão arrastado como em outros estados. Danou-se!

Do alto do avião dei uma olhada no mar somente para ter certeza das minhas previsões e lá estavam os famosos carneirinhos que embranquecem os oceanos mais amuados. Mas ao chegar em terra nem tudo parecia o que se mostrava lá do alto. Na marina o vento assoviava nos estais do barco, mas as ondas, por fora do molhe do portinho, não estavam tão altas como anunciava um aviso de ressaca emitido pela Marinha do Brasil. Ao embarcar, o comandante ligou o medidor de vento e o aparelhinho cravou a marca de 20 nós vindo do quadrante sueste. Justamente o rumo que tomaríamos no dia seguinte.

Iniciamos a preparação do veleiro para a viagem, acertando alguns detalhes e de cara notei que a tripulação, apesar de dois grupos desconhecidos até então, se afinaria perfeitamente. Um grupo era eu e Lucia e o outro o comandante Fábio e o José Rubens.

Como não havíamos comprados os mantimentos, resolvemos almoçar no restaurante Brazão, localizado na Praia de Iracema, cuja proprietária é uma grande amiga. O Brazão tem um cardápio delicioso e uma varanda aprazível para um encontro entre amigos. Foi lá que esquecemos o barco e passamos o resto da tarde num gostoso bate papo de reconhecimento entre os tripulantes. E a viagem começou ali!

Nelson Mattos Filho/Velejador

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9 Respostas para “Uma viagem para poucos – I

  1. Essa navegada promete grandes emoções!!! Aguardamos os próximos relatos.
    Grande abraço

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  2. Nelson, por favor cuide bem do Zé Rubens porque temos uma Feijoada muito especial para compartilhar em Ilhabela no dia 30 e não podemos abrir mão de nosso Bardo e seu violão. Bons ventos!

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    • diariodoavoante

      Paulo, primeiramente quero agradecer esse seu primeiro comentário em nosso blog e dizer que o Zé Rubens foi um grande tripulante e tirou de letra os percalços iniciais. No segundo dia ele já estava fazendo poesias e por isso ganhou até um apelido. Um grande abraço, Nelson

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  3. Já estou curioso por saber mais.

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  4. Isso, isso! Continua!!!

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  5. Aguardamos o restante do relato da viagem.
    Abraço
    Ps.: O Praia 30 é o meu sonho de consumo.

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