Carta ao meu Pai


PapaiPapai, hoje é mais um dia de te homenagear. Aliás, todos os dias é o dia de te render homenagem e também a todos os pais do mundo, pois vocês são tão especiais que facilmente se transformam em nossos super heróis.

Hoje olhando para trás me espantei em como a vida caminha rápido. Parece que foi ontem que ouvi o seu trombone acariciar o mundo pela última vez, com aquelas melodias tão suaves que somente o senhor sabia reproduzir. Em meu coração ainda ressoa a alegria de te ouvir tocar com aquele gingado inconfundível. O senhor era o máximo e até os seus colegas de música eram seus fãs.

Por falar nisso, como vai à orquestra do céu nesses tempos de grandes aquisições literárias para o reino do paraíso? Fico imaginando em como deve ter sido boa a festança para recepcionar os incríveis contadores de histórias, causos e contos Ubaldo e Suassuna. Com certeza o senhor deve ter puxado um frevo ou um chorinho para a triunfal entrada desses imortais no mundo dos encantados. Aliás, vocês são todos imortais.

Por aqui a vida segue em frente, mas não com aquela expectativa que tínhamos sobre os futuristas anos dois mil. Nada de carros voadores, naves espaciais cruzando os céus das grandes metrópoles, exércitos de robôs e nem armas de raio lazer. A Lua e o planeta Marte continuam desabitados e nenhum sinal que um dia será. O mundo parece que tem caminhado para trás, tamanho é a barbárie e a crueldade que exalam odores pelos poros das cidades.

Já estamos em 2014 e continuamos convivendo com as mesmas doenças de outrora. A fome continua caminhando faceira pelo mundo. Crianças continuam morrendo e agora também por leniência dos pais e autoridades. Idosos continuam injustiçados e continuamos apostando nas mesmas fórmulas mágicas ditadas pelos espertos da vez. Somos mesmo engraçados e fáceis de deixar manipular.

As guerras são as mesmas, os novos vilões usam os mesmos trejeitos dos antigos, os donos do mundo continuam zoando a nossa paciência, nosso Brasil continua cercado de currais, o expresso 2222 ainda não circulou e o seu Rio de Janeiro continua lindo, mas com ressalvas.

Pai sabe de uma coisa, vou deixar essas notícias ruins de lado e vou falar de coisas boas. Sim, nossa Ceminha está cada dia mais linda e maravilhosa. Dia desses ela andou fazendo umas estripulias que deixou todos nós em polvorosa, mas tudo não passou de um grande susto e a alegria voltou a reinar em nossa casa. Ceminha continua forte como sempre foi.

Continuo no mar e o Avoante continua sendo minha morada por essa vida meio louca e nômade que inventei viver. Até já andei pensando em desembarcar, mas em terra é tudo tão incerto e nebuloso que o pensamento logo se desfaz no vento. Pai, o mundo está muito complicado, amuado e parece até que todos falam línguas diferentes. No mar a vida é mais humana, mais simples e marinheiros se entendem apenas com gestos e intenções.

Ainda guardo na memoria suas histórias dos tempos de Marinha do Brasil e sempre que estou navegando me pego vigiando o horizonte em busca de algum sinal de sua presença. Vou confessar um segredo: Dia desses escutei claramente sua voz enquanto ao longe surgiam nuvens escuras. Olhei ao redor e não vi ninguém e Lucia dormia tranquilamente embalada pelo balanço do barco. Aquilo foi um chamado de alerta e uma indicação de mudança de rumo e sabe Deus se não foi realmente o senhor que estava ali a nos proteger.

Na verdade nem sei o porquê de estar lhe dizendo tudo isso, pois tenho a mais absoluta certeza que o senhor sabe de tudo o que acontece aqui e até esteve junto de Ceminha durante a enfermidade que a derrubou por alguns dias. Talvez seja porque necessito saber mais sobre sua vida ai em cima ou mesmo escutar sua voz ao menos mais uma vez.

Sinto sua falta todos os dias desde sua partida. Naquele dia o senhor era um homem de alma jovem, apaixonado pela vida e por incrível que pareça, tinha um pouco mais do que a minha idade hoje. Naquele dia o senhor queria me dizer alguma coisa, mas as palavras insistiam em se misturar com o nada. Corri como um louco pelas ruas da cidade, mas infelizmente não consegui chegar a tempo. Perdoe-me Pai.

Queria poder lhe dar um abraço apertado, um beijo em sua face, alisar seus belos cabelos brancos, dizer que te amo, levantar mais um brinde, escutar mais uma vez seus discursos entre os amigos e ouvir aquela velha frase do seu grande amigo, Bianor Medeiros, que o senhor gostava de repetir: Por que choras…?

Choro por você meu Pai! Um grande beijo e feliz dia dos Pais.

Nelson Mattos Filho/Velejador

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8 Respostas para “Carta ao meu Pai

  1. Amigo Nelson
    Parabéns pelas emocionantes palavras, pelo seu dia , e agradeço por tudo de bom que vc tem nos proporcionado nestes anos de convivência dentro e fora da água , sendo um verdadeiro pai e amigo para todas as horas.
    Bons Ventos

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  2. Pai, emocionante esse texto. Uma linda homenagem. Parabéns novamente pelo seu dia.

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  3. Marília Mattos

    Tio, já li esse texto hoje 3x e me emocionei em todas elas! Parabéns pelo lindo texto e pelo seu dia hoje! Beijos

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  4. Meu amigo e Pai dos meus sonhos marinheiros (Sim, você é responsável por eu ter embarcado nessa vida sonhadora de Mar), só li seu texto agora, pois estava viajando com minhas filhas no sul de Minas. Que orgulho seu Pai está de você agora, poeta dos Mares, com essa bela homenagem.
    Com certeza ele estará nesse momento tocando seu trombone, alegrando os Céus.

    Grande abraço!

    Mucuripe.

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  5. Impossivel nao se emocionar com sua homenagem Nelson…ouso a fazer minhas as suas palavras pois compartilho de seus sentimentos. Nossos pais foram exemplos de honestidade, integridade e respeito. Quanta saudade….
    Abraços,
    Luiz

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