A Tempestade – parte 18


8 Agosto (5)

Ufa! Depois de um longo e tenebroso inverno Michael resolveu nos mandar mais um capítulo de A Tempestade, uma aventura eletrizante no mar de Sergipe. 

A TEMPESTADE

A BARRA DE ARACAJÚ

Michael Gruchalski

Não havia muito a fazer.

Acordamos do sonho de sermos rebocados. Lentamente, como saindo de uma anestesia geral. A alegria de vermos os nossos problemas resolvidos durou pouco e deixou-nos frustrados. De repente, o destino que parecia tão perto, tornou-se distante, quase inatingível pelas dúvidas e dificuldades de se transpor, sem cartas ou ajuda externa, uma barra rasa e desconhecida. E havia ainda catorze milhas de mar a nossa frente. Uma viagem de três a quatro horas por águas de cor barrenta, espetadas por duas dezenas de plataformas, das quais só a metade ativa, com gente e barcos de apoio em volta. A outra metade eram restos de estruturas disformes, esqueletos enferrujados, sacudidos e maltratados ao longo dos anos pelo vento, mar e abandono pelo homem. Uma luz vermelha, solitária, no ponto mais alto, alimentada por placas solares, era o único aviso de perigo para os eventuais navegantes noturnos incautos que se aventuravam por ali, tão próximos da costa. Isso, quando não estivesse apagada ou tão fraca ou suja de excrementos de gaivotas depositadas sobre a placa solar…

Apertei os cabinhos da cana do leme, vesti o pé esquerdo com tênis do filho do capitão, prendi a adriça da mestra no mosquetão do meu cinto peitoral e fui para o trapézio controlar o rumo do barco. O capitão pediu para deitar um pouco e o filho do capitão lembrou-se da nossa fome e foi preparar sanduiches. Nosso estado físico era lastimável, minhas costas doíam, a pele, exposta ao sol forte da manhã, queimava. Havia um dedo de água salobra no piso da cabine e quatro vezes isso no banheiro. Tudo balançava para lá e para cá. Vi o filho do capitão abaixado com uma caneca de sopa, recolhendo o que podia de água.

Minha visão do conjunto, barco, mar e céu era privilegiada. De pé, do alto do espelho de popa, via o deck, o bico de proa, o interior do barco pela gaiuta do salão, as pequenas marolas laterais formadas pelo avanço a quatro nós aparentes de velocidade do barco, a mastreação e a cruzeta balançando debaixo de um céu azul e nuvens de flocos brancos.

Via também alguma coisa no horizonte. Outro barco de pesca? Proa de um navio? A primeira torre de petróleo? Não era um ponto em terra porque ela já estava bem visível no nosso través, pelo oeste. O continente era uma linha tênue, mas de cor bem definida, cinza escura, que já nos acompanhava desde o raiar do dia.

Pisei com mais força na cana de leme. Ela transmitia pela sola do tênis aquela vibração agradável do motor e obedecia bem aos comandos de movimentos curtos que eu impunha com a pressão aplicada do peso do meu corpo. De vez em quando eu olhava para baixo e para trás para admirar nosso invento, o leme de tábuas. E o que dizer do motor? Ah, o motor. Que seria de nós se não fosse ele? Ali estava o coração, a alma do barco. Sorri e rezei por ele, por nós, ali em cima, no trapézio. O fato de não ter ajudado em nada durante a tempestade estava esquecido. E enterrado. Teoricamente, um motor só tem a somar para diminuir os perigos numa tempestade, mas, na prática a teoria é outra. Há tempestades e tempestades. A nossa foi para desmentir a teoria, só pode ter sido…

Dois pontos pretos do horizonte. O da direita um pouco maior. Decidi não chamar ninguém. O capitão dormia na cabine de proa, os pés descalços pendurados para fora da cama. O filho do capitão, depois de baixar o nível de água do salão ainda se entretinha com maioneses, queijos e salames. Quando veio para fora com um sanduiche enorme na mão estendida para mim, já havia um terceiro ponto a vista.

—- São as plataformas, eu disse e ele concordou.

Era meio dia. Já estávamos naquela proa há três horas, portanto, nossa velocidade era bem menor do que a desejada ou calculada pela manha. O GPS Trimble adquirido para aquela viagem era um devorador de pilhas e por isso nós o mantínhamos desligado. Para economizar, ele só era ligado em determinadas horas do dia. Na leitura da manha, mostrara picos de quatro nós, mas, com certeza, a média real devia ser de menos de três nós, talvez algo bem perto dos dois nós e meio. Essa constatação fez com que um arrepio de frio descesse pela minha espinha. E se tivéssemos que passar outra noite no mar, bordejando em frente a Aracaju, esperando o raiar do dia seguinte? Nem pensar, nem pensar.

Entre uma mordida e outra no sanduiche, o filho do capitão foi buscar o GPS Precisávamos checar nossa posição, verificar nossa velocidade média, analisar o horário de chegada na foz do rio Sergipe, resumindo: garantir dormir a próxima noite com o barco parado em águas calmas. Lá dentro do rio, ancorados. Já víamos a quarta plataforma e constatamos, em seguida, que um dos pontos não era plataforma e sim um navio de apoio, provavelmente fundeado, de plantão. Naquele momento pensei ter visto alguns prédios no horizonte atrás das plataformas, mas não tinha certeza. Havia alguma nebulosidade e eu sabia que as terras ali eram muito planas, além da cidade e seus prédios ficarem afastados da praia de Atalaia, onde não havia construções altas.

O horário avançava enquanto o GPS aquecia seus motores para captar, satélite por satélite, num processo que levava sempre quase cinco minutos, a nossa posição.

Finalmente. Dez para uma da tarde. Estávamos a exatas nove milhas do farol localizado na saída do rio no bairro da Farolândia. Nossa velocidade média desde as seis e meia da manha tinha sido de dois vírgula oito nós. A previsão do tempo de navegação, naquela velocidade até a barra seria de três horas e meia, e a previsão de chegada era as quatro e meia da tarde. Em plena luz do dia! Com o mar calmo e o motor funcionando bem isso era um fato consumado. E o vento? Iria atrapalhar aumentando e levantando ondas na barra? Bem, costumava aumentar a partir do meio dia, mas até aquele momento não tinha dado as caras. Soprava uma brisa agradável de sudeste na faixa de sete nós. Mandei chamar nosso capitão que já dormia há quase três horas. Pedi para o filho do capitão me substituir porque eu estava esgotado. Pedi também para o filho do capitão baixar o manete do acelerador, tínhamos toda a pressa do mundo. Quando o capitão se reuniu conosco no cockpit reconhecemos a quinta plataforma e o vulto longínquo e ainda mal definido de construções no horizonte, mais a direita. Era Aracaju, o que mais poderia ser?

Uma rápida reunião definiu nossa estratégia de aproximação da costa. Não havia opções, só uma: avançar mais para o sul, virar sessenta graus para o noroeste e chegar na arrebentação do rio com o vento, provavelmente de popa e as ondas pela bochecha de boreste, de leste. A carta náutica mostrava que essa era a única possibilidade para quem vinha do nordeste. Já próximo da entrada, havia uma passagem com alto-fundo de quatro metros, bem estreita, e os muitos tracinhos ondulados desenhados na carta indicavam que havia quebra permanente de ondas a direita e esquerda do canal. Ali morava o perigo. Em frente! Só saberemos quando estivermos lá.

Fui dormir acompanhado de uma lata de coca cola gelada. Lembrei a meus amigos antes, porém que ficassem atentos a embarcações de pesca ou outras para pedir ajuda e informações sobre a barra. Eram duas horas da tarde e faltavam duas a três horas para enfrentarmos nosso ultimo desafio com nosso veleiro manco, sem leme, cansado como nós.

Nunca um velejador mergulhou em um sono tão profundo como eu. A cabine ia e vinha. A cabeça ia e vinha. Vazia. Nem sonhos para preenchê-la havia.

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5 Respostas para “A Tempestade – parte 18

  1. Puxa Michael, somente agora pude ler com calma a parte 17 e esta 18.
    Pode acreditar, que a minha vida está sob uma terrível borrasca também..
    Nem sei se já foi publicada outra parte mas vou procurar.
    Abraço e, como sempre, parabéns, pois continua eletrizante mesmo em plena calmaria.
    Vamos que vamos!

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  2. E a parte 19 ? Já me sinto parte da tripulação ! Esperei até agora para ler todas e Surpresa !! Ainda não acabou !!!

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  3. Caramba!

    Quando ele enviar a parte final, vou ler porque não vou conseguir ficar sem saber como foi o fim.

    Mas se soubesse que a liberação dos capítulos seria essa agonia, certamente nem teria começado.

    No início só elogiei a história para meus amigos, e recomendei. Hoje parei de recomendar… como recomendar uma história sem final?

    Faço aqui minha chantagem: se ele não enviar o final, vou escrever eu mesmo. Sem final feliz!

    Brincadeiras à parte, recomende a ele que termine logo, por favor.

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