A vela pede socorro


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Nas minhas navegadas por ai tenho acompanhado os altos e baixos em que vive o mundo da vela no Brasil. São situações que passam despercebidas até mesmo pelos mais habituais frequentadores dos clubes náuticos, devido à sutileza da brisa que sopra contrário.

A grande maioria dos grandes clubes náuticos no Brasil, assim como no mundo, tem origem na coragem de abnegados velejadores que vislumbraram um legado de glórias e ideais mais humanos para as gerações futuras. Eles sabiam da capacidade dos bons ensinamentos que existe no mar, da imensidão diversa do litoral brasileiro e por isso enfunaram as velas para dar vida ao sonho.

Os clubes cresceram, modernizaram-se e chegou o tempo de rever conceitos, regras e normas. O mundo é outro, os ventos são outros e a vela, com suas lerdezas e dependendo do sopro da natureza, foi sendo empurrada para um cantinho qualquer de um pátio. E as regatas? – Quando der a gente faz, quando não der, empurra com a barriga e deixa para a próxima!

O mundo pede velocidade, dinamismo, agressividade. As pessoas se veem cada vez mais absorvidas pela necessidade da urgência, mesmo sem saber qual, e nada disso parece combinar com um barco que para se movimentar precisa de uma coisa tão simples que é o vento.

Até nas feiras náuticas a vela é apenas uma pequena gota no oceano e chega a ser risível a maneira como velejadores se engraçam com os afagos em meio ao obá obá dos festejos etílicos dos bastidores. Mas é preciso dizer que as melhores palestras das feiras saem do conhecimento, da técnica e das aventuras de velejadores.

Acho que estamos navegando no rumo errado há muito tempo e nos acostumamos a seguir em busca de um horizonte que nunca encontraremos. Insistimos em seguir o mesmo roteiro e que a cada ano fica mais inviável, pois além de embarcações ultrapassadas, contamos com velejadores desmotivados e com idade avançada. Falta renovação, falta investimento, falta uma política voltada para o mar, os próprios clubes viraram as costas para o mar.

Se olharmos para qualquer fundeadouro de clube náutico brasileiro, veremos uma grande flotilha abandonada e se deteriorando no esquecimento. Não existe o incentivo do clube em juntar os navegadores num ambiente que objetive a ida ao mar. O que se vê são regras e normas cada vez mais estapafúrdias, preços exorbitantes e portarias fechadas para receber pessoas que queiram apenas sonhar em um dia viver tudo aquilo. O que será que existe em um clube náutico que não mereça uma visita?

Os clubes não investem nem em treinamento da marinharia de apoio, pois o que mais se vê e gente despreparada para atender os anseios daqueles que pretendem navegar.

Sem falar nas escolinhas, que formam a base de qualquer esporte. Na vela elas são coisas raras de se ver e sobrevivem apenas da vontade de pessoas que doam suor e lágrimas para as conquistas. Hoje muitas delas passam longe dos píeres dos clubes e se espalham nas areias de comunidades praieiras e em lugares remotos do litoral brasileiro, sobrevivendo apenas da vontade de combatentes voluntários.

Os clubes que tinham tudo para terem escolinhas atuantes, incentivando filhos, netos, familiares de sócios e a comunidade em sua volta, preferem o bem bom da preguiça, pois assim não é preciso suar a camisa.

Muita gente pode até achar que estou generalizando e colocando todos os clubes no mesmo caldeirão de incompetência, mas a carapuça cabe na cabeça de quem quiser usar.

A vela no Brasil está sim abandonada e vai levar um bom tempo para ela tornar a pegar seguimento. Não quero me apegar apenas nas regatas que é a face mais vistosa de um esporte apaixonante e que encanta reis, rainhas, celebridades e sem falar nos podres mortais metidos bestas. O mundo já descobriu que a vela de cruzeiro é apaixonante e tão maravilhosa quanto às regatas.

Falta aos clubes náuticos um olhar mais apurado para tentar refazer suas histórias e incentivar o retorno ao mar dos seus velejadores. Velas enfunadas ao vento trazem novos horizontes, alegrias e embelezam a paisagem de um palhoção de clube náutico, além de incentivar uma nova safra de velejadores.

Senhores comodoros, deixem de lado os discursos bonitos e soltem as amarras que predem seus clubes na inércia da mesmice. Olhem o mar de frente e partam sem medo para o horizonte sem fim. A vela sempre foi e sempre será o futuro!

Nelson Mattos Filho/Velejador

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8 Respostas para “A vela pede socorro

  1. Nelson, parabéns pela sua interpretação e leitura dos fatos. Me desculpe se publico aqui meu depoimento mas eu entendo seu desespero e partilho minha decepção. Eu acredito que o problema é complexo e deve ser visto através do prisma de uma política pública voltada para o desenvolvimento do setor. Ao visitar as ilhas gregas eu me deparei com meu sonho de infraestrutura. Conheci velejadores que vieram para cá para uma temporada e já estão andando de ilha em ilha faz mais de 15 anos, sem previsão de ir embora. Só a ilha de POROS, onde estou agora, recebe mais veleiros estrangeiros em 3 meses que todo o Brasil ao longo de um ano inteiro. O pais só perde ao dar as costas para o mar, e a cultura da marinharia tradicional vai sendo perdida aos poucos. Lamentável mesmo !!!

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  2. Caro comandante Nelson, remoendo as suas palavras acima me ocorreu que não só com a vela, mas com muito mais coisas tradicionais, nada mais encontra espaço.
    No mundo do whatsapp a realidade natural não encontra espaço.

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  3. Excelente Nelson, como sempre!

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  4. É a mais pura verdade! Parabéns pelo texto!
    Adriano Hora
    Veleiro Desmantelo

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  5. Alexandre Pedro

    Há mais de 30 anos nessa luta ideológica contra o “elitismo” do esporte e da vela de cruzeiro. Só vi retrocesso.
    Há alguma esperança ?

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  6. PARABÉNS PELO TEXTO EMOCIONANTE E QUE VÁRIOS COMODORIAS DEVERIAM SEGUI-LOS. E NÃO FAZER UM CLUBE DE VELA EM UM SALÃO DE FESTA.

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  7. Olha Comandante, estive no restaurante do Iate Clube de Itamaracá por uma vez com a minha família. Gastamos uma boa grana, comemos bem, o Dadá se apaixonou por uma âncora gigantesca de navio e decidimos pensar no fato de nos associarmos, eu e Teresa. Voltamos na outra semana e não nos deixaram mais nem entrar. Quando dissemos que tínhamos estado na semana anterior sem problemas, nos disseram de volta que deveria ter havido algum engano…
    Agora estão lá, com uma família de velejadores a menos.
    Mas este seu texto vai além disto. Vai no pensamento, vai no espírito da coisa.
    Barcos realmente apodrecem nos fundeadouros por aí afora. Fruto de um desejo passageiro de gastar dinheiro em algo que, por um segundo foi uma vontade. De consumo ou não, não sei.
    Só sei que um sonho tem que sobreviver de algo que seja mais do que uma vontade, mesmo ela sendo imprescindível para a realização do mesmo.
    De concreto mesmo só vejo o que está aí escrito no seu texto, juntamente com as pequenas bases para as poias, que deixam cada vez mais e melhores velejadores presos próximos ao cais.
    Bora?

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  8. Relendo meu comentário depois de postado, vi que faltava dizer que, além de nos abusarmos com uma odiosa penca de regras incabíveis, os barcos por lá, principalmente os de vela, estão parados, parados e cada dia mais parados.
    Precisava?

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