Regata do descobrimento 2000. Diário de bordo do navegador – I


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Essa é a tripulação do veleiro Arribasaia que vai ficar com a gente por três capítulos em mais uma história do velejador e índio Kiriri Sérgio Netto (Pinauna). Dessa vez o cacique Kiriri conta como foi a travessia do Arribasaia participante da flotilha da regata comemorativa os 500 anos do descobrimento do Brasil, acontecida em 2000. Mais uma vez Sérgio Netto nos presenteia com um relato maravilhoso, informativo e cheio de graça. Vamos ao mar!

 

REGATA DO DESCOBRIMENTO 2000. DIÁRIO DE BORDO DO NAVEGADOR

                  Sérgio Netto

Na virada do século, dentre as festividades governamentais para celebrar os 500 anos do ‘descobrimento do Brasil’ foi feita uma convocação aos velejadores para uma regata-passeio que recongraçasse a viagem de Cabral de Lisboa à Bahia. Meu amigo Felipão se propos a comprar um barco novo na Europa se eu topasse participar com ele da empreitada. E assim ficou combinado no final de 1998.

Dia 21 de fevereiro de 2000 embarquei com Felipe, Rose e Nobbi num voo para Lisboa. Na chegada Felipe alugou uma van Seat de 5 lugares e fomos direto ver o Arribasaia na marina em Cascais. Felipe então lembrou que havia esquecido o tabuleiro de gamão no avião. Retornamos nos ‘perdidos e esquecidos’ e após meia hora de burocracia recuperamos o tabuleiro. O Arriba estava com sujeira na linha d’água. Nos alojamos num apartamento que Felipão alugara em Cascais. Dia 22 saimos para velejar com vento de 30 nós, uma saidinha de 10 milhas da marina. Dia 23 Felipe foi cedo para trabalhar em Londres, Rose saiu com Alzirinha e eu fui com Nobbi subir o Arribasaia no trevel-lift para limpar e dar nova venenosa. Dia 24 fomos de carro a Lisboa para analisar a raia de largada no rio Tejo: deixa a pedra grande do forte por boreste e cruza o rio para margem esquerda, do sul. É fácil, entra navio. Fomos ao shopping onde comprei roupa de tempo, impermeável de goritex, pull over polartec que deixa transpirar e não esfria, e ceroulas de lã. Também fizemos mercado para preparar jantar em casa. À noitinha pegamos Felipe no aeroporto, Rose e Nobbi fizeram o jantar e Felipe e eu começamos o infindável torneio de gamão que durou toda a travessia.

clip_image002Dia 25 fomos à APORVELA, entidade orgnizadora da regata e conversamos com o Cmdte. Canelas Cardoso. Compramos furadeira, multiteste e conectores; também cartas náuticas e almanaque náutico. Dia 26 limpamos e arrumamos o barco, fazendo uma lista do material que faltava. Dia 27 saimos para velejar com Enio Silva, filho de Tia Zete, prima de pai. Fomos até a entrada do Tejo. À noite baixamos da internet um programa de previsão de maré.

Dia 28 fomos ao Salão Náutico de Lisboa, onde compramos patescas, manicacas, rapalas, etc. À noite Wilfredo Schurman foi ao Arribasaia , ajustou o SSB , tomamos duas garrafas de vinho e ele nos convidou para visitar o Aysso. Dia 29 instalamos ferragens internas, rede na cabine de proa, extintores, cunho no mastro. Dia 1 de março subi no mastro e consertei a luz de cruzeta e a de alcançado, verifiquei os pinos e lubrifiquei os moitões. Nobbi instalou o adesivo com o nome do barco. Dia 2 compramos e instalamos fuziveis para placa solar, checamos o óleo do motor e do reversor, e saimos para velejar na direção da Madeira. Trocamos a genoa por buja e decidimos largar na regata de buja. Dia 3, sexta, Felipão levou a tripulação para turistar em Sintra. Felipão tem um jeito especial de manter a tripulação motivada e feliz, uma qualidade de comandante que mostrou-se inestimável durante a travessia. Dia 4, desmontei o sistema de gás do barco para tentar adaptar um “cubo” da Shell, sem sucesso. A solução foi usar o bujão de 2,75kg de camping. Dia 6 fizemos a arrumação final com os mantimentos e chegaram Mila e Pappy, uma surpresa, já que Pappy não iria na regata.

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À noite foi o cocktail de abertura no palácio, a tripulação do Arriba toda uniformizada.

Dia 7 foi a reunião de comandantes, e dia 8 de março, quarta-feira de cinzas, a largada, exatos 500 anos depois de Cabral. Só que Cabral saiu com 13 barcos, nós largamos 31, dos quais 11 brasileiros: Arribasaia, Aysso, Bahia, Clack na Sula, Curumii, Fia, Hozoni, Parati, Papaléguas, Viva, White Dolphin.

O desfile de largada começou às 11:30, e na arquibancada estavam os Presidentes das Repúblicas do Brasil e de Portugal. Pappy e Nobbi desembarcaram após o desfile numa lancha portuguesa que passeava fazendo fotos. Na barra sul do Tejo, Ψ=38°41’N, λ=9°17’W, aproamos para o próximo waypoint, na ilha da Madeira, 479 milhas a sudoeste

clip_image008A noite foi fria e no dia 9 a temperatura era de 17°C, pressão 1024mb, vento SE geralmente fraco, eventualmente com rajadas de até 30 nós. O primeiro dia no mar é de enjoo. Motoramos umas 4 horas, e tivemos um progresso de 120 milhas em 24 horas. Na segunda noite eu estava enjoado e Mila fez o meu turno. Tomei dramin e dormi; quando acordei estava bom. Às 6 horas da manhã do dia 10 estávamos a 36°06’N, 12°06’W, com vento de W 10-15 nós. Hoje todos ficaram bons do enjoo da saida e começou a fase de relaxamento e das partidas de gamão e de tranca das meninas.

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Ta frio ai, comandante?

Dia de contra-vento. Falamos no rádio com Viva, Curumii e o Escola de Sagres, que estavam perto. Dia 11, havíamos passado uma zona de baixa, e a pressão estabilizou em 1023mb. A temperatura subiu para 20,5°C. Andamos no rumo M220, sempre no contra-vento fraco. Quando o aparente cai abaixo de 9 nós, motoramos e ligamos a geladeira. Mila está ótima, bem humorada e participativa. Felipão em franco progresso, decide sozinho o que fazer com as velas. Às 13:30 Ψ=34°30’N, λ=13°50’W. Rumo 208 velocidade 4 nós, T=20,5°C P=1023mb.,vento SW 16 nós. Nas ultimas 24 horas andamos 100 milhas. À noite teve vento e andamos bem com grande toda e buja. Ao amanhecer do dia 12 o vento caiu e motoramos. Transferimos 40l de diesel do camburão para o tanque. O tanque de água 1 está no meio, o 2 intocável. Em reunião decidimos programar a chegada para amanhã pela manhã, tendo uma vista da Ilha da Madeira ao nascer do sol. O almoço foi elaborado. Felipão hoje não teve sorte no gamão e foi surrado. Tomei banho cedo. Avistamos o farol do Ilhéu de Cima, em Porto Santo às 20 h, a 20 milhas de distância. Forte nevoeiro. Vento S-SE 2 nós!

13 março, segunda-feira. Ao amanhecer estávamos no canal entre a Deserta Grande e a ilha da Madeira. O Cisne Branco, o navio-escola da marinha brasileira ia chegando também, e a tripulação do Escola de Sagres, o navio-escola da marinha portuguesa, estava perfilada sobre a verga das velas cantando “Ó Cisne Branco, em noite de lua”. Chegamos no porto em Funchal às 9 horas. A recepção foi precária e os brasileiros foram encaminhados para o porto de carga. Felipão mandou adentrar a marina e atracamos no píer de abastecimento. Nestes 5 dias motoramos 66 horas e gastamos 95 litros de diesel, com um consumo de 1,44l/h @ 1500rpm. Enquanto abastecíamos Felipão foi na secretaria da marina arrumou o telefone do dono do barco que estava na ultima vaga do píer e pediu autorização para atracar a contrabordo. E conseguiu! Quando o Parati chegou e Amir Klink foi abordado pelos repórteres, fez uma reclamação publica e a administração da marina mandou tirar os barcos de serviço para fazer espaço para os brasileiros atracarem. Tomamos banho em terra e levamos a roupa suja para lavanderia. Visitamos a Exposição Brasil 500 com livro comemorativo e visitamos a caravela Boa Esperança, com seus 18 tripulantes que trocavam em cada porto. Mila, Felipe e Rose foram à missa comemorativa.

Dia 14 alugamos um Hunday pequeno de 4portas e fomos até Ribeira Brava, onde almoçamos. Na volta pegamos a roupa na lavanderia e fizemos mercado. À noite jogamos chouette em Natasha com Jamil ‘Barba’, tripulante do Parati. Amyr chegou perto mas disse que ‘estava destreinado’. Em Cabo Verde ele se arriscou e Felipão escalou Mila para jogar com ele que foi devidamente surrado.

Dia 15, concluímos o mercado, devolvemos o carro, arrumamos o barco e fizemos o check-out na imigração. Nobbi chegou no final da tarde, cheio de histórias de negócios e entusiasmo. No bar de Natasha a Associação de Vela da Madeira ofereceu um cocktail. Depois fomos a um jantar no palácio, onde foi feita a premiação ao Marujo, o Espírito da Madeira, um 38 pés de madeira, com motor lacrado, muito bem tripulado, que ganhou a primeira parte da regata. Chegaram em regata 4 barcos: Bahia, Mariposa, Marujo e Viva. No discurso da premiação o veinho de cabelo atravessado na careca, Canelas Cardoso, ‘coordenador’ da Aprovela, em quem ninguém acredita, falou de descobrimento ou achamento do Brasil, e eu na qualidade de índio Kiriri intervi: Invasão!

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Uma resposta para “Regata do descobrimento 2000. Diário de bordo do navegador – I

  1. Agora a estoria vai ficar boa, a visão do colonialista e do indígena…

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