Vivas a um grande velejador


Regata Batalha Naval do Riachuelo 162

Não sei se vocês sabem, mas assino há mais de sete anos uma coluna dominical no Jornal Tribuna do Norte, com o título Diário do Avoante e foi de lá que  surgiram os títulos do blog e do livro. São textos que falam da vida, do mar, de sonhos, aventuras, alimentação, cotidiano das cidades e alguns deles, de vez em quando, aparecem por aqui. O texto Vivas a Um Grande Velejador, foi publicado em 25 de Maio na Tribuna do Norte e até já deveria ter sido postado aqui, mas tudo tem seu tempo.  

Dizem que tem coisas que surgem quase do nada, basta uma raspada de olhar, um esbarrão casual ou simplesmente um nada de nada para que haja acontecência. E foi assim que aconteceu comigo quando avistei um barquinho chegando lá para as bandas de numa ilha pernambucana chamada de Santo Aleixo.

Foi lá o meu primeiro contato com um barco a vela e vale dizer que foi mais do que casual, pois estávamos ali atendendo um convite de um amigo para um passeio em sua lancha e já estávamos nos conformes para zarpar de volta a praia de Tamandaré, local de nossa estadia.

O veleirinho era tripulado por dois velejadores e eles vinham com o rosto mais chamuscado de sol do que orelha de pescador. A coisa só não estava mais feia, porque uma esbranquiçada pasta branca dava ao rosto dos velejadores um ar meio fantasmagórico, porém aliviando o queimor. De uma coisa eu lembro bem: Os caras estavam cansados, mas felizes.

Trocamos algumas palavras, mais por curiosidade minha do que a vontade deles responderem. Ajudei a empurrar o veleiro sobre a areia da praia e demos adeus aos dois, sem antes não deixar de desejar sucesso na empreitada, pois os caras tinham planos de encerrar o passeio em Maceió/AL. E assim foi feito, pois tempos depois soube de todo o ocorrido, tintim por tintim.

Os dois aventureiros eram Cláudio Almeida e Eder, que faziam parte da flotilha de vela do Iate Clube do Natal e aquela já era a segunda viagem da dupla. O barco, um Tornado, veleiro multicasco muito rápido, mas sem nenhum conforto aos tripulantes numa empreitada tão longa. Façanhas assim que marcam a bravura dos verdadeiros homens do mar.

Sei que outros velejadores já fizeram viagens maiores em barcos semelhantes e pode ser que muitos achem que isso hoje em dia nem seja uma novidade tão aventuresca como possa parecer, mas até aquela época eles foram os únicos norte-rio-grandenses a realizar e obtendo sucesso na ida, quanto de volta.

É difícil o reconhecimento quando não existe a presteza de querer fazer. Cláudio e Eder, naqueles longínquos anos 90, elevaram o nome da vela potiguar a um patamar merecedor, pois o clube de onde eles eram crias nasceu, cresceu e venceu com as velas enfunadas pelas águas do velho Potengi.

Até hoje a aventura da dupla é festejada e comemorada nos alpendres da Federação Alagoana de Vela e Motor e isso qualquer um pode comprovar, basta apenas que tenha a alegria de sentar para um gostoso bate papo, regado à cerveja gelada servida por Seu Zezé, com a turma boa que faz o mundo da vela das alagoas. Fotos da dupla e da festa da chegada fazem parte do acervo histórico da vela alagoana, pois assim faz o povo do mar diante das conquistas. Reconhecimento e divulgação como incentivo para as gerações futuras!

Cláudio foi o guru que me iniciou na vela e me ensinou muito do que sei hoje. Foi através da imagem daquele barquinho chegando na Ilha de Santo Aleixo que o mundo náutico se abriu em mil horizontes em minha frente.

Em 1998, ano em que passei a fazer parte do quadro de sócios do Iate Clube do Natal, por indicação dele, Cláudio era a vela mestra que movimentava o iatismo potiguar. Incentivador voraz e incansável para transformar as regatas em uma festa de alegria e competitividade, não media esforços para tal.

Brigador, agitador, brabo como um siri numa lata, mas quando o assunto era vela e regata lá estava ele, com sua verve bruta e inconfundível e com grande capacidade de transformar qualquer veleirinho ronceiro em uma bala.

Hoje ele é egresso do quadro social do Iate Clube do Natal, mas, vez por outra, aparece no clube como convidado, e não mais, para servir como tripulante em algum veleiro. Mas ao chegar ao clube sua alegria não é a mesma de outrora, pois no fundo de sua alma lateja a dor da tristeza que marcam aqueles que foram atraiçoados por força de alguma ordem modernosa. Como se a história pudesse ser apagada.

Uma sociedade se faz com história, reconhecimento, honradez, conquistas e vitorias de seus guerreiros. Homens que deram o sangue e a alma para elevar a bandeira e cravar no olimpo a espada da luta vitoriosa.

Cláudio Almeida, meu amigo e extraordinário velejador, a vela potiguar sem a sua garra navega com as adriças folgadas e velas rizadas. Saiba, e sei que você sabe, que para o sempre seu nome estará talhado na história do Iate Clube do Natal, que lhe deve um eterno e merecido reconhecimento.

Caro amigo, a página desse Diário hoje é sua. Parabéns e muito obrigado pelo mundo maravilhoso que você me fez enxergar.

Nelson Mattos Filho/Velejador

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4 Respostas para “Vivas a um grande velejador

  1. Que bela homenagem, não?! E não seria o exemplo nossa grande mola propulsora? Bons ventos desde a baía Babitonga!

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  2. Uma bela homenagem a essa grande figura, Claudio Almeida, só acrescento ao brabo, um bravo e objetivo velejador. Parabéns Nelson

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