De Angra dos Reis até Ilhéus


clip_image002

Essa é mais uma boa história de velejada enviada pelo amigo Danilo Fadul (Veleiro Farnangaio) para a nossa seção Conte Sua História. Faz tempo que Danilo mandou o texto, mas ele havia mergulhado na bacia das almas do meu computador e somente agora consegui resgatá-lo, espero que Danilo me perdoe. A história e bem educativa para quem pretende subir a Costa Leste do litoral brasileiro no verão e foi escrita em uma linguagem simples e prazerosa.

DE ANGRA DOS REIS ATÉ ILHÉUS

Danilo Fadul

Sexta-feira, 21 de Fevereiro de 2014.

Durante o dia, fiquei com o eletricista (Mike – “máique”) e o mecânico da Yanmar, Lao, fazendo alguns ajustes no alternador e correias que Fernando havia solicitado. Aproveitei para mergulhar e verificar o fundo do barco. Uma tartaruga “bôba” insistiu em ficar me observando.

Fernando chegou no começo da tarde e aproveitamos para fazer compras e abastecer o barco com óleo e água.

clip_image002[6]

21/02/2014 13h00 Vista da baia de Angra com o “Waterproof” no centro.

Barco: Lagoon 380 com 2 motores Yanmar 30 Hp.

Todos os equipamentos da Raymarine: Chartplotter GPS C80 integrado a radar Tridata;

Ecosonda, Speedômetro e Termômetro de água ST60;

Piloto automático ST6001; Pode seguir rumo ou direção do vento.

Wind ST60 também integrado.

Cartas náuticas de toda a rota incluídas no CHARTPLOTTER.

Tripulantes: Fernando, proprietário do barco e eu, Danilo.

clip_image002[8]

Saímos de Angra por volta das 17h00, 23° 0.895´S – 44° 18.029´O, como eu nunca havia velejado naquela região, Fernando aproveitou para dar uma entrada no Saco do Céu. Realmente é uma região belíssima (23° 6.453´S – 44° 12.646´O).

Ao escurecer, já estávamos no caminho da ponta da Restinga da Marambaia. As 20h00 passamos pela ponta e Fernando foi descansar. Combinamos turnos de 3 horas. A noite estava fria para os padrões da Bahia. Talvez 19°. Tive que colocar um agasalho. Cruzamos com alguns navios pequenos e rebocadores, mas nenhum na rota direta. Entreguei o timão às 23h00 e retomei às 2h00 do sábado.

Sábado, 22 de fevereiro de 2014.

Nesse ponto já tínhamos as Cagarras no través de bombordo e todo o Recreio dos Bandeirantes, Barra da Tijuca e Zona Sul. Esse trecho, até o amanhecer, foi mais carregado. Muitos navios e, pelo menos, duas plataformas ancoradas fora da baia de Guanabara. Passei há umas 9 milhas da costa, mas mesmo assim tive que fazer alguns ajustes na rota. Quando o dia clareou, o último navio já estava a sota de nosso rumo.

No través, a praia de Itacoatiara e as ilhas Mãe e Filha de Maricá. Coloquei as linhas n´água às 5h30 e as 7h00 começamos a ver muitas aves e logo depois muitos golfinhos cercando alguns peixes médios, de aproximadamente 1 kg. Talvez cavalas pequenas ou atuns tipo bonitos. Como nosso equipamento de pesca era leve, não tinha iscas para mar azul. Todo o tempo, desde a saída da baía de Angra, o vento permaneceu de leste, 100% contra nosso rumo. Motoramos e sempre mantínhamos a mestra armada dando bordos longos e mantendo o barco bem confortável.

Ao meio-dia o vento começou a apertar e chegou aos 17 nós reais, sempre “de cara”. Tinha a esperança do leste se manter depois da passagem por Cabo Frio e então podermos trabalhar o rumo numa orça não muito apertada. Depois do almoço fui descansar e quando acordei estávamos a 3 milhas da Ilha de Cabo Frio com vento real de 35 nós e aparente de até 47 nós. Sempre de cara. Nosso destino era o porto de Cabo Frio para abastecermos de óleo e água. A entrada do canal da Ilha foi espetacular (22° 59.894´S – 42° 0.770´O). Muitas anchovas saltando, alguns barquinhos pescando, muitos pescadores nas encostas de pedras e o mar fervendo de espuma branca devido ao vento canalizado.

clip_image002[10]

22/02/2014 16h24: Entrada do canal da Ilha de Cabo Frio

Infelizmente o porto de Cabo Frio não dispõe de óleo e seguimos direto para Búzios.

O vento que esperávamos, continuasse de leste, rondou pro nordeste para acompanhar o relevo da costa e assim, continuou de cara.

Chegamos a Búzios as 20h15 e paramos o barco no cais do “Bar dos Pescadores”, bem no centro da cidade (22° 44.879´S – 41° 52.905´O). Um prato de camarões fritos e anéis de lulas empanados, mais alguns peixes fritos, mataram nossa fome.

Essa noite estava acontecendo um baile de carnaval na rua e a cidade estava bastante movimentada. O cais de abastecimento de água estava fechado, assim como o de óleo, mas no Iate Clube de Búzios, apesar de fechado, conseguimos com o segurança abastecer de água. Aproveitamos para colocar 150 litros de diesel da reserva que mantínhamos e saímos as 23h00. Nesse rumo para o cabo de São Tomé só avistamos alguns rebocadores seguindo no mesmo rumo. Não alterei nem um grau no piloto durante todo meu turno. Ainda precisei de agasalho durante a noite.

Domingo, 23 de fevereiro de 2014.

Fernando me passou o turno próximo ao amanhecer e já não víamos sinal de terra, embora estivéssemos com apenas 20m de água. Continuei rumando para fora. O vento continuava fraco e de cara. Alguns helicópteros seguiam indo ou vindo na direção de terra. Deviam estar seguindo para as plataformas dos campos de Campos. As 9h00 vi um pirambú, ainda vivo, boiando de cabeça para baixo. Tinha cerca de 2 Kg (também conhecido no sul como Sargo de Beiço – Anisotremus surinamensis). Logo depois um pequeno susto. Um barco de pesca vinha em nossa direção, mas não em rumo de colisão. Ao chegar muito próximo, menos de 30 metros, acenei, mas não obtive resposta. Imediatamente ele rodou 180° emparelhando os barcos. Três homens pularam no convés, sendo que um deles levava algo grande na mão, depois vi tratar-se de um croque. Eu não tinha mais como fugir, esperei apenas que nos abordassem. Logo depois pararam a máquina e levaram o croque à água para recolher uma boia submersa, localizada, com certeza, através de GPS (posição aproximada 22º 18´S – 40º58´O). Essas coisas acontecem muito rápido e atitudes não convencionais podem levar a respostas também não convencionais. Se eu fosse um estrangeiro, com uma arma potente, poderia muito bem ter disparado contra aqueles pescadores. Não custava nada eles terem acenado ou mesmo terem se aproximado em baixa velocidade, sem o emparelhamento desnecessário. As 10h00 passamos por um baixo com 8 m de água claríssima. Víamos a areia do fundo e num momento, assistimos um cardume de poucos dourados atacando um cardume de muitos bonitos (tuna bonito). As 10h00 conseguimos aproar para o norte e vento que estava de nordeste passou a nos favorecer permitindo, finalmente, abrirmos a genoa, mas a corrente contra, descendo a costa, aumentou para 1 nó.

clip_image002[12]

23/02/2014 11h27: E o vento chegou … a linha verde indica o rumo do barco e a linha amarela indica a direção do vento.

Depois do almoço o vento foi melhorando e as 14h00 estávamos com 9 nós e proa em Vitória do Espírito Santo. Fim de tarde belíssimo e um novo porto, com uma ponte entrando uns 300m mar adentro, ainda não estava registrado no plotter (21° 48.748´S – 40° 59.518´O). Porto de Açu em Campos dos Goitacazes. Nesse través sul do Espírito Santo, alternamos toda a tarde com 1 ou 2 longos bordos para fora sem genoa e os respectivos bordos para terra, com genoa.

Apesar de fraco, o vento passou a dar umas rondadas para o sul. Assim mesmo o céu se manteve limpo. Noite sem barcos, sem novidades e já sem agasalhos.

Segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014.

Peguei o timão por volta de 0h00 com dezenas de navios na proa. Estávamos na boca da barra do porto de Guarapari. Essa noite foi a primeira, e única, cansativa, pois muitos barcos de pesca saíam e entravam no porto nesse horário. Além disso, existem áreas baixas e as boas rotas estavam com navios ancorados. Quando passei pelo último navio, levei um grande susto. O radar pareceu mostrar um recife bem na proa do barco, fechando por boreste. O susto demorou uma fração de segundo até relacionar a imagem à chuva que já havia visto que iria cair. A chuva foi fraca e se manteve por quase toda noite. Nesse ponto, depois de passarmos pelas duas pedras de Guarapari, aparecem muitas ilhas rochosas no rumo direto para Vitória. Fernando levou desse ponto até entrarmos em Vitória.

clip_image002[14]

24/02/2014 8h29 Entrada no Porto de Vitória

Finalmente conseguimos óleo. Aproveitei para fazer compras num mercado próximo ao Iate Clube. Fernando mantém uma bicicleta dobrável no barco que serviu perfeitamente bem para isso. O Iate de Vitória dispõe de gelo no píer, assim como óleo e água. Também tem um quiosque para abastecimento de água potável gelada. Saímos umas 10h00 e abrimos procurando mar azul. Nesse ponto a profundidade chega rápido aos 1.000 metros e é um excelente ponto de pesca de peixes de bico. No final da tarde estávamos na foz do Rio Doce onde foi construído um terminal de descarga de combustível a 1 milha mar adentro (19° 40.694´S – 39° 50.438´O). Construção ocre de formato muito estranho. Passamos pela foz e seguimos acompanhando o rumo entre a água limpa, salgada, e a água barrenta, doce, do Rio Doce. Ao cair da tarde uma bela surpresa. Pegamos nosso primeiro peixe (19° 37.333´S – 39° 46.966´O). Um xaréu de aproximadamente 10 Kg. Jantar fresco e saboroso.

clip_image002[16]clip_image002[18]

24/02/2014 17h27: O primeiro peixe … a isca foi uma lula vermelha. O peixe foi só um, mas as fotos foram várias.

Proa em Abrolhos e noite excelente. Apenas uma ressalva. Por volta das 2 horas vi no radar 3 pequenos pontos parados e afastados uns 200 metros entre eles. Como estavam próximo a rota, desviei uns 2 graus para bombordo. Por serem pequenos, apareciam e sumiam, eventos normais de radar. Quando passava por terra deles, o mais próximo acendeu um forte “zé gás” sobre o mastro e pude ver o formato de um pequeno saveiro. Estavam em 50 metros de fundo e completamente apagados. Logo que me afastei ele voltou a apagar o lampião. Ainda bem que não era meu barco, sem radar.

Terça-feira, 25 de fevereiro de 2014.

Noite de muito sono. Vento fraco rondando de leste para sudeste e genoa trabalhando. Máximo de 8 nós. Quando amanheceu perdemos um bonito. Logo depois pegamos outro. A trapizonga que fizemos para substituir o alarme da carretilha que pifou, funcionou melhor do que o esperado.

clip_image002[20]

A trapizonga: duas pequenas pets que quando “puxadas” passam por entre o guarda-mancebo fazendo barulho.

Quando o bonito comeu, levou a invenção para dentro d´água e as garrafas foram até perto da isca fazendo resistência para o pequeno atum não mergulhar. O coitado chegou morto no barco.

No rumo, optamos por passar na Ilha da Coroa Vermelha (17° 58.041´S – 39° 12.470´O), uma das primeiras do banco de Abrolhos e mais próxima de terra, Nova Viçosa. As 11h00 paramos para um banho.

clip_image002[22]25/02/2014 11h00: O mar virou uma lagoa. Ao fundo a Ilha da Coroa Vermelha

A água é limpíssima e ao nos aproximarmos de um dos atóis, uma tartaruga saiu nadando por sob o barco. Mergulhamos uns 10 minutos num fundo de 5 metros. Proa em Ilhéus. A tarde foi quase sem vento e o barco passou por dezenas de canais rasos, com dezenas de atóis de coral. O mar parecia uma lagoa. Um dos lugares mais lindos que já conheci. Quando estávamos saindo da linha de 9m e entrando num fundo de 20 metros a vara cantou e Fernando embarcou outro xaréu, um pouco maior que o anterior.

O vento melhorou toda tarde e conseguimos fazer 11 nós algumas vezes. A partir daí nos afastamos da costa com a proa direto para Salvador, que seria nosso destino final.

Quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014.

Noite em águas muito profundas. Nenhum outro barco para mudarmos de rota. Apenas algumas nuvens de chuva no radar, mas eu já estava calejado.

Durante o dia mudamos os planos devido a proximidade do carnaval e optei voltar de avião por Ilhéus para Fernando seguir direto para Camamu. Proa para terra.

Ao cair do Sol chegamos ao Iate Clube de Ilhéus. Compramos gelo para os peixes, abastecemos de água, jantamos no “Maria Machadão”, fizemos compras e dormimos apoitados. Parabéns ao Iate Clube de Ilhéus que mantém um caiqueiro 24 horas e atende tanto pelo celular quanto pelo canal 16. Na madrugada seguinte peguei um vôo para Salvador enquanto Fernando seguiu o resto da viagem sozinho.

Resumindo, a viagem foi excelente, mas só deve ser feita nessa época num barco com boa motorização. O vento é fraco e na maior parte do tempo de cara. As duas frentes frias do período se afastaram para o oceano na região de Santos. O pouquinho de vento sul que pegamos só servia para refrescar o barco. Sobre a rota, tanto o Cabo de São Tomé quanto o Banco de Abrolhos nos pareceram lagoas de águas paradas e cristalinas. Áreas historicamente traiçoeiras devido ao baixo fundo, mas que nessa época e com esse clima, servem apenas para aproveitarmos a beleza da paisagem.

Anúncios

7 Respostas para “De Angra dos Reis até Ilhéus

  1. Simples e objetiva, como devem ser as “coisas” do mar.

    Curtir

  2. gostosa narrativa… nos faz viajar junto aos tripulantes…

    Curtir

  3. Cmte, muito boa sua iniciativa de colocar essas histórias de travessias no Diário do Avoante. Servem como um guia aos que pretendem seguir a mesma rota e um alimento pra alma sonhadora!!

    Mucuripe.

    Curtir

  4. Gostei muito. Histórias do mar são as minhas favoritas — afinal, sou surfista com mais de 25 anos de experiência (1ª geração da Bahia / anos 70). Convivi em muitas aldeias de pescadores, “onde ninguém iria”, de noite e de dia.

    Parabéns meu fraternal amigo Danilo e a todos que participaram e contribuíram.

    P.S. – IMPORTANTE:: Sou amigo de Danilo Fadul, desde os anos 70, mas não tenho mais o telefone dele… Uma vez fui à sua casa (numa estrada lá para as bandas de Aratu ou Simões Filho… não lembro).

    Poderia me colocar em contato?
    No meu site (indicado abaixo, e não no wordpress.com), logo na “home” ou na página de “Contatos” há um formulário onde você ou ele poderá responder (ou pelo meu telefone, no topo) — Enfim, agradeço antecipadamente: http://artursamenezes.com

    Artur de Sá Menezes
    ______________________________
    Designer – Salvador – BA

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s