Reboque do trimarã Sereia


Hoje a história vem com a assinatura do velejador Eugênio Lisboa, o potiguar mais alagoano do Brasil. Eugênio, que adora fazer grandes expedições a bordo do seu catamarã Anakena, um Bate Vento 36, no ano passado, depois de ter saído de Maceió para dar um bordo nos rochedos de São Pedro e São Paulo, ancorou em Fernando de Noronha para abraçar os participantes da Refeno 2013. No retorno a Maceió saiu do seu rumo para comandar o resgate do trimarã Sereia até Cabedelo/PB. 

O REBOQUE DO TRIMARÃ SEREIA

Eugênio Lisboa

No dia 10/10/2013 saímos pela manhã de Fernando de Noronha com destino Maceió.
O dia transcorreu normalmente até que por volta das 20h00min recebemos pelo rádio VHF um pedido de socorro do Trimarã Sereia de 39 pés. Ele estava na posição S 4º 48’03” e W 033º 10’ 07” e havia quebrado o seu mastro.
Imediatamente plotei a posição do Sereia no meu GPS e vi que ele estava a cerca de 3 milhas náuticas da minha posição.
Chamei o Sereia pelo rádio e o informei que o Anakena estaria indo em sua direção. Outros veleiros também responderam ao chamado do Sereia, os quais também rumaram em sua direção, entre eles o Trimarã 14 Bis e o Mic Mac.
Em cerca meia hora localizamos o Sereia. Fomos o primeiro veleiro a chegar até a sua posição. Iluminamos o nosso convés e vela mestra para que os outros veleiros pudessem nos ter como referência.
Antes mesmo de chegar a posição do Sereia, determinei a minha tripulação que preparasse o cabo de reboque. Para tanto utilizamos um cabo de alpinismo, chamado de tira queda, o qual é bastante elástico, esticando até 15 % do seu comprimento. Fizemos um Y a partir da popa do nosso veleiro, com a amarração de cada perna do Y em um dos cunhos de popa.
Dentre os veleiros que responderam ao chamado de socorro do Sereia, o nosso era o que tinha mais condições de reboque. Portanto, não havia outra saída e nem o que pensar. Afinal, chamar o Salvamar iria ser muito demorado, e a Marinha iria fazer a salvaguarda da vida humana no mar, ou seja, sua prioridade não seria salvar o Trimarã Sereia, somente a sua tripulação.
Ficamos alguns minutos em volta do Trimarã Sereia aguardando que a faina no mastro fosse finalizada.
Por volta das 21h00min jogamos o nosso cabo de reboque com uma garrafa pet amarrada na ponta e dentro da garrafa pet uma luz química acesa para que a tripulação do sereia tivesse a exata noção de onde nosso cabo estaria após o lançamento.
Quando iniciamos o reboque, estávamos a cerca de 130 milhas náuticas de Natal, um pouco mais de 80 milhas náuticas de Fernando de Noronha, e a cerca de 160 milhas náuticas de João Pessoa, por isso rumei em direção a Natal.
Após cerca de uma hora após o início do reboque, o Sereia nos contatou e ponderou se não seria melhor rumarmos para João Pessoa. Eu falei que não tinha certeza se meu diesel seria suficiente para que chegássemos naquele destino. O comandante do Sereia informou que havia diesel no Sereia e que poderíamos fazer o transbordo para o Anakena, caso fosse necessário. Diante de tal informação decidi alternar o nosso curso para João Pessoa. A essa altura, João Pessoa estava a 157 milhas náuticas.
Durante a noite eu fiquei no turno até as 00h00min, sendo seguido por Wagner, Fábio, e novamente por mim das 04h00min até as 06h00min.
O reboque se mostrou um pouco difícil. O Anakena estava cabeceando muito. A angulação do nosso rumo variava cerca de 20º para bombordo e 20º para boreste.
Estávamos só com a mestra no segundo rizo e resolvi abrir a buja. Essa manobra fez com que diminuísse o cabeceio e tivéssemos um rumo mais estável. Os motores também estavam ligados e tracionando, porém com rotação reduzida, em 1900 RPM, suficientes para dar um pouco mais de seguimento e manter o Anakena mais estável.
Durante a madrugada do dia 11/10/2013 os ventos se mantiveram fortes, com rajadas de até 25 nós e o mar bastante agitado. Esse período foi o mais complicado e trabalhoso, tendo uma velocidade média de reboque de 4,1 nós. Nosso COG era de 237º magnéticos. As 05h10min estávamos a cerca de 126 NM de João Pessoa e a cerca de 110,8 NM de Fernando de Noronha.
A tripulação do Sereia era composta pelo seu comandante o velejador Peter Robert Von Buldring e pelos tripulantes Carlos Alberto Ramos Madeira, Ronaldo Barroca de Morais e Tadeu Arcoverde Barreto.
Desde o inicio do reboque o veleiro MicMac, Delta 41, cuja tripulação também era de João Pessoa, resolveu acompanhar o reboque do Sereia para prestar algum auxílio caso o Anakena tivesse algum problema.
Na manhã do dia 11/10/2013, eu e Wagner fomos para a proa do Anakena fazer a retirada manual de 60 litros de óleo diesel que estava no nosso tanque reserva. A retirada manual foi por mera precaução. Durante a nossa viagem já havíamos utilizado o referido tanque e tivemos problema com o motor de Boreste por possível entrada de ar. Por isso resolvi fazer a retirada manual com o auxílio da “pêra” do tanque do motor de popa. Após cerca de uma hora havíamos enchido 3 bombonas com 20 litros em cada. Tínhamos ainda uma 4ª bombona com 20 litros de óleo diesel. Abastecemos 40 litros no tanque de bombordo e 40 litros no tanque de boreste. O tanque de boreste ficou cheio, com cerca de 100 litros de diesel e o de bombordo com cerca de 80 litros de diesel. Dessa forma, não teríamos problemas de falta de combustível e não iríamos precisar do combustível que estava no Sereia.
Às 09h30min o cabo de reboque partiu. Enrolamos a buja e fomos novamente passar o cabo de reboque para o Sereia.
Às 13h40min o cabo de reboque ser partiu novamente. Mais uma vez enrolamos a buja e fomos auxiliá-los. Nessa altura o rádio VHF de mão que eles estavam usando deixou de funcionar, a bateria havia descarregado.
Aproveitando que iríamos passar novamente o cabo de reboque, peguei uma caixa estanque e coloquei dois rádios VHF de mão. Pedi a Wagner que amarrasse um cabo e o lançasse para o Sereia. Um dos tripulantes do Sereia pegou o cabo e puxou a caixa estanque. Avisamos que nela haviam dois rádios VHF e pedimos que eles melhorassem a amarração do cabo no Sereia, pois era na proa do Sereia que os cabos estavam se partindo. O Peter fez uma amarração em Y na proa do Sereia, reforçando os pontos de desgaste do cabo.
Perguntamos se a tripulação do Sereia gostaria de vir para o Anakena para um churrasco, mas eles informaram que estavam ser revezando no timão para manter o reboque o mais estável possível.
A noite do dia 11/10/2013 foi mais tranqüila. Os ventos se mantiveram abaixo de 20 nós e o mar abrandou.
Na manhã do dia 12/10/2013, Fábio fez omelete para o nosso café da manhã.
Às 08h15min havíamos percorrido 227,5 NM desde Fernando de Noronha, restando 7,5 NM até a primeira bóia da entrada do porto de Cabedelo. Nossa velocidade média havia subido um pouco, ficando em 4,8 nós. Nossa posição era S 6º 49.870’ e W 034º 45.403’. O nosso COG era 232º.
Por volta das 11h25min estávamos confortavelmente abrigados e com o Anakena no píer do Peter, que é o dono de uma marina no Jacaré. Até lá havíamos percorrido um total de 241,3 NM desde Fernando de Noronha.
Conhecemos as tripulações do Sereia e do Micmac e fomos convidados pelo Peter para almoçar feijoada em sua casa, que fica atrás da marina.
Resolvemos dormir em João Pessoa e seguir viagem no domingo pela manhã.
Fábio desembarcou em João Pessoa e foi de ônibus para Maceió, pois precisava trabalhar na segunda-feira.
Eu e Wagner acordamos cedo, por volta das 06h00min e fomos caminha pelo Jacaré a procura de uma lanchonete. Estava tudo fechado e voltamos para o Anakena.
Peter foi ao nosso encontro e abastecemos o Anakena com o diesel que ele retirou do Sereia. Foi o suficiente para encher os dois tanques (BB, BE) e uma bombona com 20 litros, sendo mais do que o suficiente para nossa viagem até Maceió.
Peter nos levou a uma padaria e lanchonete. Lá comemos um sanduíche X Tudo com suco de laranja e voltamos para o Centro Náutica para ultimar nossos preparativos para a saída.
Às 09h40min, do dia 13/10/2013, saímos do Centro Náutico do Peter.
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